Uma geral de Matteo Garrone, de Pinóquio ao Telecine

Uma geral de Matteo Garrone, de Pinóquio ao Telecine

Rodrigo Fonseca

28 Abril 2017 | 13h08

Toni Servillo será o Geppetto do projeto “Pinóquio”, de Matteo Garrone

RODRIGO FONSECA
Foi dada a largada na Itália para a produção de Pinocchio, novo filme do laureado Matteo Garrone. Considerado um dos pilares da renovação do cinema italiano, o laureado diretor de Gomorra (2008) e Reality (2012) vai reinventar a saga do boneco de pau que tenta virar gente, tendo o ator Toni Servillo (de A Grande Beleza) na pele de Geppetto. Na trama, o inventor tenta aplacar a própria solidão criando pra si um filho de madeira. Zapeando incauto pela Rede Telecine, encontrei seu último longa-metragem no Cult: O Conto dos Contos (Il Racconto Dei Racconti), que volta a ser exibido na telinha nos dias 21 de maio, às 19h30, e 24/5, às 2h05.

Para falar dele, é preciso falar de História…

Salma Hayek em “O Conto dos Contos”

Batizada entre os críticos de Risorgimento, a onda autoral que mudou o timão do cinema italiano no fim da década passada, tirando a pátria de Visconti, Fellini e Antonioni da falência criativa audiovisual e arrebanhando espectadores e prêmios em festivais como Cannes e Veneza, é movida pela narrativa nada convencional de gente como Garrone, realizador considerado peça chave neste Renascimento nas telas. Bastam minutos de O Conto dos Contos para perceber sua potência estética na reflexão sobre a imagem como expressão de identidade, seja nacional ou autoral. Laureado duas vezes com o Grande Prêmio do Júri de Cannes, por Gomorra, em 2008, e por Reality, em 2012, o cineasta fez barulho em sua passagem pela Croisette, na briga pela Palma de Ouro, há dois anos, com este ensaio sobre a fabulação. Baseado na prosa de Giambattista Basile, o filme é uma releitura plasticamente farta de criatividade da tradição dos filmes europeus (da Itália, sobretudo) sobre reis, princesas e monstros. Na tela, o efeito criado pelo longa é uma espécie (improvável) de encontro entre a mitologia de um Game of Thrones com a linguagem do Pasolini na fase de As Mil e Uma Noites (1974). Ou seja, na mistura, ele junta estilo com sensualidade. Seu roteiro narra uma trinca de histórias que se trançam seguindo uma rainha louca para engravidar (Salma Hayek), um aristocrata com fome de sexo (Vincent Cassel) e um monarca (Toby Jones) às voltas com um genro indesejado (no caso, um ogro). Embalada na música de Alexandre Desplat, a produção, falada em inglês, esbanja requinte, sobretudo na cena da morte de um lagarto marinho. Todos os monstros são criados, pela direção de arte, com requinte hollywoodiano. Garrone conversou com o P de Pop por telefone, durante a 9ª Festa do Cinema Italiano, em Lisboa, no ano passado, para explicar seu tráfego do hiperrealismo à ilusão.

Matteo Garrone em ação

Como equilibrar numa mesma obra exercícios nas raias da estética documental como Gomorra e Reality com uma fábula calcada na magia feito O Conto dos Contos?
MATTEO GARRONE – Se você pensar que um diretor como Pasolini começou a carreira nos longas fazendo filmes realistas como Desajuste Social e passou para mitologias ao adaptar a Bíblia em Evangelho Segundo São Mateus e ao filmar As 1001 Noites, vai perceber que este trânsito entre registros narrativos não é uma exclusividade minha. Isso aconteceu também com Mario Bava, outro mestre, aliás, um mestre nem sempre muito reconhecido, que transitava pela fantasia em seus thrillers. Francesco Rosi fez o mesmo. E Fellini era um dos maiores fãs de Giambattista Basile, a quem adaptei aqui. Mas a sua resposta deve ser outra. Esse tráfego que faço agora é parte do percurso que venho fazendo nas artes desde os tempos em que era pintor. Um dos meus primeiros filmes, O Embalsamador, já carregava essa marca, essa mistura entre sonho e realidade. A questão é que Gomorra e Reality nasceram de fatos, tinham DNA em situações que aconteceram. Por isso, pediam uma abordagem realista, ao extremo. Aqui, tudo nasce de Basile, ou seja, da fábula. Por isso, em reação à fábula preciso caminhar na direção do onírico.

Que fascínio as criaturas quase mitológicas de Basile exercem sobre sua imaginação?
GARRONE – Ele é um dos grandes arquitetos da invenção que levam o nosso olhar a entender o ápice da potência humana. Ele brinca com arquétipos indispensáveis para traduzirmos dilemas da alma.

Visualmente, que “arquitetos” da arte te serviram como referência na construção da fotografia (exuberante, alias!) de O Conto dos Contos?
GARRONE – Goya. Simples assim… Goya eternizou meios para criarmos uma representação do real quase fotográfica, de um realismo preciso, mas mesclado a um componente de teatralidade único. Aliás, todo o conceito de realismo do cinema moderno, do neorrealismo ao cinemanovismo, passa por essa junção entre o fotográfico e o teatral.

De que maneira essa viagem ao passado da Europa mudou seu olhar?
GARRONE – Cada viagem, seja por uma época, seja por um tema, é um teste no qual eu tento aprender ferramentas de outros gêneros. De Gomorra veio uma proximidade com a cartilha do policial. Aqui entrei em contato com os códigos do épico, do capa & espada. Cada aprendizagem me leva a uma linguagem nova.

Ligado a uma pátria que produziu uma tradição tão forte de cinema, com Fellini, Visconti, De Sica e outros mestre, de que maneira um diretor da Itália de hoje lida com o passado? Como o senhor lida com essa tradição?
GARRONE – Ela existe para nos lembrar que não podemos ficar presos a nada, nem a ela. Todos os grandes diretores do neorrealismo deixaram para nós, cinéfilos, como um legado um patrimônio imagético de valor inestimável. Mas a preciosidade desse nosso passado não pode bloquear a criatividade do presente e tampouco travar os planos para o futuro, principalmente entre os jovens.