‘Trama Fantasma’ arrebata pela imprevisibilidade do gênio de Paul Thomas Anderson

‘Trama Fantasma’ arrebata pela imprevisibilidade do gênio de Paul Thomas Anderson

Rodrigo Fonseca

14 Fevereiro 2018 | 23h34

Alma (Vicky Krieps) arrebata o coração do estilista Reynolds Woodcock em “Trama Fantasma”, drama de época indicado a seis Oscars

Rodrigo Fonseca
Imprevisível periga ser o adjetivo mais apropriado para definir Paul Thomas Anderson e o tipo de dramaturgia avessa a causalidades e progressões aritméticas com a qual ele nos brinda em espetáculos viscerais como Trama Fantasma (Phantom Thread), hoje em cartaz aqui na Alemanha. Der Seidene Faden é o título por aqui, em Berlim, desta produção de US$ 35 milhões indicada a seis Oscars: Filme, Diretor, Ator (para Daniel Day-Lewis, em mais uma aula de interpretação), Atriz Coadjuvante (Lesley Manville), Trilha Sonora e Figurino, que ele deve levar, por mérito e honra. A estreia no Brasil vai ser no dia 22 de fevereiro, mas, na França, onde o P de Pop fez escala, o lançamento foi hoje, o que justificava uma enxurrada de reportagens elogiosas e críticas reverentes nos jornais de lá, vide Le Monde ou Le Figaro. Bêbada de encanto pelo novo longa-metragem do diretor de O Mestre (2012), e com razão, pois é de uma potência plástica única, a Cahiers du Cinéma disse que “é difícil haver personagem mais desagradável na história do audiovisual do que o estilista Reynolds Jeremiah Woodcock, vivido por Day-Lewis, só comparado à figura vivida por Larry David em Curb Your Enthusiasm, na TV”. Comparação precisa. É um sujeito intragável mesmo.

Mas é igualmente difícil encontrar uma personagem feminina mais desconcertante e manipuladora do que Alma, a garçonete promovida a Pigmaleão interpretada pela força da natureza Vicky Krieps, importada de Luxemburgo. É a partir dela que P. T. Anderson vai desfolhando este poliedro de camadas sensoriais e narrativas, indo de My Fair Lady a Rebecca, a Mulher Inesquecível, com ventos hitchcockianos dos mais quentes, porém sem parar em leste nem em oeste. Temos um ícone da alta costura que se apaixona pela mocinha atrapalhada e de sorriso de boneca que o seduz com um bilhetinho escrito “for the hungry boy”.

Alma – o nome não é por acaso, pois estamos diante de uma narrativa sobre assombrações, encostos – tem razão ao perceber a fome do rapaz charmoso que lhe pede bacon e geleia (menos a de morango). Comem-se quilos de comida no filme, pois é na gula que P. T. Anderson traduz a lascívia de um homem obcecado pelo ator de criar e pela liturgia repetitiva de controle e silêncio em torno de seus croquis. E é em doses fartas de manteiga derretida que o cineasta americano revelado na leva indie dos anos 1990 expõe a lascívia de uma mulher aparentemente frágil, mais de uma fúria possessiva sem limites. No embate entre esses dois, tendo no meio uma irmã dominadora (o papel de Leslie) e o espírito onipresente da mãe de Reynolds (cuja hipotética aparição é mais assustadora do que todo o cinema de horror hollywoodiano dos últimos 20 anos), o diretor passa por diferentes gêneros (melodrama, terror) e vai subvertendo as cartilhas de cada um. Trama Fantasma é uma história de amor. Ou virá a ser algo assim. Não se sabe como, mas ela chega lá, e nos arrebata pelo caminho a partir da trilha sinuosa de Jonny Greewood, do Radiohead, que ressalta a aura de charme que atribuímos aos anos 1950 – época do filme. Cada peça do vestuário usado em cena – desenhada por Mark Bridges – ganha um status de armadura de guerra na fotografia feita pelo próprio PTA. Cada roupa é parte do conflito de Reynolds com os demônios de sua vaidade e de sua querência desmedida. São excessos num longa esfíngico, que nos devora na busca por sentidos e verdades.

 

Fãs do cineasta podem entender melhor sua forma de filmar lendo o indispensável livro sobre ele da coleção Contemporary Film Directors, batizado com o nome do realizador de Magnólia (1999) e escrito por George Toles para a University of Illinois Press (www.press.uillinois.edu). Cada trecho das quase 220 páginas de Paul Thomas Anderson explora o encantamento do cineasta por figuras masculinas (sempre elas) em vias de alguma jornada emergente, seja em âmbito social, econômico ou de autodescoberta, na qual colidem contra algum obstáculo que aparam as arestas de sua grandeza quase épica. O processo desse “aparar”, contudo, é violento. E, na análise de Toles, essas jornadas, em sua filmografia, nascem realistas – a partir dos apostadores de Jogada de Risco, de 1996 – e caminham para o alegórico a partir de Embriagado de Amor (2002), pelo qual ele ganha o prêmio de melhor diretor em Cannes. O escritor, professor da Universidade de Manitoba, detalha, com um molho investigativo, todas as excentricidades de PTA nos sets, a começar por seu detalhismo histérico nos filmes de reconstituição de época (aos quais se dedica há uma década), sempre preocupado em explorar o espaço físico e geopolítico à sua volta. O livro reflete ainda sobre as escolhas artísticas de seu biografado sob um prisma industrial, tentando entender as opções que o levaram a sair de um tipo de narrativa mais “aberta”, com uma centelha massificada, como é o caso de Boogie Nights (1997), para um storytelling intimista e aberto a múltiplas interpretações como Vício Inerente (2014), sem perder a essência do risco. É, portanto, um livro sobre escolhas, a partir de um artista que se assemelha a seus personagens em seu isolamento (não se trata de um diretor de patotas, de oba-oba midiático) e na aposta que faz no limite entre o lírico e o mítico. Taí uma leitura de respeito, que editoras nacionais como a Cia das Letras deveriam nos oferecer na língua portuguesa, de carona na estreia de Trama Fantasma.       

Às vésperas da Berlinale começar, o P de Pop caiu da água Perrier pro vinho barato mais enjoativo da paróquia ao pegar carona no trem desgovernado O Passageiro (The Commuter), apostando no carisma de Liam Neeson. Neste Ferrorama da Estrela, o bom ator irlandês desperdiça seu talento numa trama hitchcockiana (olha o Alfred aí de novo!) na linha “homem errado no lugar errado”. Nela, um corretor de seguros que acaba de ser despedido é forçado a entrar numa gincana ferroviária envolvendo uma recompensa de US$ 25 mil. A direção (equivocada) é de Jaume Collet-Serra, espanhol que dirigiu Nesson em Desconhecido (2011).

E, enfim… amanhã, quinta-feira, 15 de fevereiro, começa o Festival de Berlim .68. Por todos os lados da capital da Alemanha para onde se olhe há cartazes envidraçados de Ilha de Cachorros, a animação em stop motion pilotada pelo texano Wes Anderson, ambientada num Japão futurista. Prevista para estrear em 23 de março nos EUA e em 14 de junho no Brasil, esta fábula distópica com Greta Gerwig, Bryan Cranston e Scarlett Johansson entre seus dubladores vai inaugurar uma maratona cinéfila, com 19 filmes em competição pelo Urso de Ouro e mais uma penca de troféus prateados. Wes está no páreo também. Concorrem com ele o ensaio religioso La Prière, de Cédric Kahn; o suspense Eva, do francês Benôit Jacquot; o drama Don’t Worry, He Won’t Get Far On Foot, do americano Gus Van Sant (com Joaquin Phoenix na cadeira de rodas); o musical de quatro horas de duração Season of The Devil, do filipino Lav Diaz (um ímã vivo de prêmios); e Transit (Alemanha), de Christian Petzold, considerado o maior cineasta da indústria audiovisual germânica na atualidade. Tem ainda outros 14 concorrentes, dos quais quatro são dirigidos por mulheres: delas, a italiana Laura Bispuri é quem chega com maior cacife com Figlia Mia, estrelado por Valeria Golino (de Top Gang). 7 Dias em Entebbe, do carioca José Padilha, entra no evento fora de concurso, prometendo polêmica ao tratar do conflito Israel x Palestina.