‘TOC’ no SXSW: Tatá Werneck nos ‘States’

‘TOC’ no SXSW: Tatá Werneck nos ‘States’

Rodrigo Fonseca

01 Fevereiro 2018 | 11h10

Tatá Werneck ilumina a tela em “TOC”

Rodrigo Fonseca
Quase um ano após sua estreia no circuito nacional, a comédia TOC (Transtornada Obsessiva Compulsiva), com Tatá Werneck, vai representar o Brasil no festival South By Southwest (SXSW), em Austin, no Texas, agendado de 9 a 18 de março. Dirigido por Paulinho Caruso e Teodoro Poppovic, o longa-metragem será exibido na seção Narrative Spotlight com o título Neurotic Quest for Serenity, retratando as agruras de uma jovem comediante. No evento serão exibidas produções esperadas como A Quiet Place (Um Lugar Silencioso), do ator John Krasinski, e Paradox, escrito e dirigido pela atriz Daryl Hannah.

O que se falou sobre TOC… Bem..

“Neurotic Quest for Serenity”: melhor exemplar do millennial besteirol

Rir com Tatá é lugar comum. E, no anárquico filme de Paulinho Caruso e Teodoro Poppovic, gargalha-se aos quilos com a moça. Mas não é só, pois, diluída numa (auto)crítica aos vícios do filão neochanchada e à cultura das celebridades (sobretudo as da web), existe a refinada construção de uma psiquê fraturada pela superexposição… e pela solidão.  O ataque ao culto dos astros instantâneos ganha ainda mais pólvora com o onanista Caio (Bruno Gagliasso), um ator viciado em masturbação que acossa Tatá. Mas, não, TOC não é um drama e sim a mais abusada, explosiva e suicida comédia brasileira de largo alcance da década, só ombreada – em parâmetros mais adultos, igualmente cítricos e cínicos – ao borracho O Roubo da Taça, de Caito Ortiz. Sua conexão com o riso dificulta – dado o preconceito contra o ethos cômico – seu reconhecimento, mas é difícil pensar num longa-metragem nacional popular que se ponha tanto à prova, que arrisque tanto na dramaturgia, sem descuidar da plasticidade, desafiando as convenções (sobretudo as sociais) de personagens femininos do país na tela grande.

Tem Michel Gondry e um cheirinho do seminal Como Se Fosse a Primeira Vez (2004), com Adam Sandler, nesta trama sobre Kika, atriz em ascensão na TV, na publicidade e na www, que, ao lançar um livro, às vésperas de sua escalação para um posto central na próxima novela das 21h, entra numa espiral de derrotas. Até bater de frente com a atriz cômica principal do cinema verde e amarelo, Ingrid Guimarães (numa delícia de metalinguagem), ela bate – e sem freio. Cada trombada com a vida leva a jovem a repensar sua própria condição, salpicando o roteiro de existencialismo e dando a Tatá uma personagem que é uma cordilheira de camadas de sentidos. Só sua passagem por um programa de variedades, ao lado de um macaco prego, apresentado por uma aspirante a Luciana Gimenez (vivido pela espoleta Luciana Paes) já valeria cada trocado do ingresso. Mas o enredo evoluirá além da comicidade, trafegando por veredas do suspense investigativo e do amor.

Daniel Furlan com Tatá: par romântico

Entra lá pelas tantas uma construção de par romântico, desromantizada, na figura do livreiro Vladimir (Daniel Furlan, ótimo), capaz de evocar a paixonite entre Scarlett Johansson e Bill Murray no sacrossanto Encontros e Desencontros (2003). Escorre mel quando só se espera fel ou trapalhada, pois tudo na construção de Caruso e Poppovic se pauta pelo inusitado, com o cuidado de plastificar seus protagonistas e também os seus coadjuvantes com uma resina pós-moderna, sintonizada com as inquietações morais dos jovens de hoje. Seu faro mira o cheiro digital de uma nova plateia, que não se vê representada na neochanchada, cujo foco não é geracional e sim sociológico e econômico, de olho nas classes C e D, que, sob a bolha de crédito da Era Lula e Dilma, teve sua chance de inclusão cartesiana do “consumo, logo existo”. Para os adolescentes com quem Tatá deseja falar, o conflito vai além do bolso – embora este também doa. Há preocupações amorosas, há questões de aceitação, há as novas modalidades do exercício da individualidade, mas tudo isso consolido sob parâmetros do mi mi mi nietzschiano dos millennials, a Geração Y, alfabetizada pela internet.

 

Na mesma canoa onde Caruso e Poppovic remam contra o clichê da comédia nativa, movendo as ondas do que poderia ser chamado de millennial besteirol (ou millennial mambo) estão Julia Rezende (da franquia Meu Passado me Condena), Pedro Amorim (de Mato Sem Cachorro), Ian SBF (com o genial Entre Abelhas), Matheus Souza (de Apenas o Fim) e a dupla Rilson Baco e Felipe Bretas (de O Último Virgem). Protegidos sob um guarda-chuva de “cinema de gênero” ensopado de referências de Judd Apatow (Ligeiramente Grávidos), todos eles, os millennials, estão oxigenando um terreno sufocado de chavões, trazendo referências da Era Ploc e dos anos 2000, de Chaves Freaks and Geeks, para agregar novas audiências.

 

Em geral, desde o início dos anos 2000, quando Daniel Filho ensinou a Retomada a fazer comédia blockbuster com A Partilha (2001), reclama-se muito do descuido dos nossos bardos da gargalhada com o visual, com a plástica dos longas-metragens, num sinal de que o apuro verbal é maior do que o capricho cenotécnico e fotográfico  – dos novos dínamos do gênero aqui elencados, Amorim costumava ser encarado como o mais atento ao arranjo formal. Mas, agora, Caruso e Poppovic também merecem esse elogio, pela força plástica de TOC (cuja montagem é um vulcão que lhe incrementa o timbre pop). Temos, talvez, a mais subversiva das comédias nacionais dos últimos anos. Que os americanos reconheçam isso no SXSW.