Tiradentes no ventre da baleia

Tiradentes no ventre da baleia

Rodrigo Fonseca

25 Janeiro 2016 | 09h56

Laura Neiva vira refém de Jesuíta Barbosa em

Laura Neiva vira refém de Jesuíta Barbosa em “Jonas”

Agrilhoada ao horror no sábado, sob os sustos provocados por Através da Sombra, de Walter Lima Jr., e O Diabo Mora Aqui, de Dante Vescio e Rodrigo Gasparini, a Mostra de Tiradentes passou um domingo no ventre de uma baleia alegórica – metáfora para a exclusão em todas as formas produzidas pelo abismo social brasileiro – que invadiu sua tela durante a projeção de Jonas, longa-metragem de estreia de Lo Politi. Laureado com o prêmio especial do júri na seção Novos Rumos do Festival do Rio em 2015, esta produção paulistana de R$ 4,8 milhões, rodada na Vila Madalena, é forte candidata ao prêmio de público em solo mineiro frente ao aplauso em jorro que recebeu ao fim de 97 minutos de uma projeção na fervura máxima de perseguições, acertos de contas e batuques de uma escola de samba vencedora. Aliás, raras vezes a ficção nacional deu ao carnaval de São Paulo tamanha atenção (e reflexão), numa representação entre o documental e o fabular, fazendo da folia de Momo uma espécie de intervalo fantástico no cerne do real de uma metrópole partida pela violência do tráfico. À frente do projeto, em cena, vem um Jesuíta Barbosa de verve heróica, sobrevivendo a uma jornada de autoafirmação em uma tragicomédia de erros que mais parece uma mistura de Fargo, dos irmãos Coen, com Peixe Grande, de Tim Burton.

“Esta é a história de alguém cujo mundo desmorona, como se fosse uma alegoria de carnaval em chamas, sentindo-se naturalmente deslocado em todos os locais por onde passa e onde está, vítima de um preconceito às avessas, por ser um branco em uma realidade negra”, diz Lô Politi, estreante na direção de longas que, já em seu filme nº 1, cria uma narrativa febril, capaz de se impor no macrocosmo dos aldeiabusters (filmes autoralíssimos de orçamentos pigmeus mas de ambições estéticas agigantadas) de Tiradentes por não abrir concessões nem conciliações com a moral inerente a fábulas (e ao mercado). “É uma tragédia de erros num lugar de fantasia: o carnaval”.

Pé-rapado de berço, filho de uma empregada com dotes para a costura e de um bêbado fiel ao determinismo da pobreza, o personagem-título de Jonas tem, como o profeta bíblico, a tarefa de servir a um deus, a Acomodação Socioeconômica, e cumprir seus desígnios. No caso, sua “missão divina” inclui ganhar uns trocados servindo de vaporzinho a um traficante local, ajudar na confecção dos carros alegóricos de seu grêmio recreativo e observar a cocota riquinha a quem ama desde guri, Branca (Laura Neiva) ser possuída por outros, mais aristocráticos. Essa aristocracia é encarnada seja pelo namoradinho cheio da grana vivido por Chay Suede seja pelo líder do crime na Vila Madalena, Dandão, interpretado com distanciamento crítico pelo cantor Criolo. Em um rosário de impotências impostas pelo pacto social, Jonas é (bem) construído por Jesuíta com um desamparo quase truffautiano, que lembra o Antoine Doinel de Os Incompreendidos (1959). Frente ao carnaval, que despreza, ele cria em seu coração uma espécie de carrossel imaginário ao supor um possível enlace com Branca. Mas seu sonho de amor dura pouco. Dandão vai cobiçá-la. E este impõe (e exige) respeito.

Dandão (Criolo) num abraço de Judas com Jonas

Dandão (o cantor Criolo) num abraço de Judas com Jonas

Num surto de ciúme, Jonas invade a casa de Branca, enquanto essa se encontra aos amassos com o vilão, briga com seu “chefe” e acaba tirando a arma do bandido e disparando. Com o corpo de Dandão ensopado de sangue no chão a seus pés e com a silhueta de Branca estimulando seu desejo, sob os feromônios do perigo, o rapaz não vê outra opção que não levar a moça consigo, refém de sua força. Ele não pensa, faz, criando um turbilhão de equívocos enquanto cumpre a vocação bíblica de seu nome diante de uma baleia feita de lantejoulas que “nadara” pelo oceano de confetes do sambódromo paulista.

“Eu queria alguém que não gosta de carnaval, mas se vê às voltas com ele, e que, por uma sucessão de erros, encontra-se numa situação entre ter de decidir se entregar e aceitar a prisão ou buscar uma outra saída”, explica Lô, que fez carreira no cinema como assistente de direção nos anos 1980 e trabalhou com publicidade e TV. “Assim como Jonas, o carnaval de São Paulo, comparado com o Rio, também tem algo de deslocado. Parece um carnaval lado B. Mas tem seu fascínio, que eu cuidei para representar, na relação com meu fotógrafo, Alexandre Ermel, com o cuidado de que ele não parecesse bonito demais na tela”.

A baleia do carnaval paulistana

A baleia do carnaval paulistana

Entre diálogos com realizadores que representaram o confronto de indivíduos contra a impossibilidade da superação de estratificações financeiras, como o argentino Un Oso Rojo, de Adrián Israel Caetano, ou Em Fuga, do belga Lucas Belvaux, Jonas se destaca no atual cenário nacional por conjugar os verbos da cartilha do thriller sob a desinência do assombro social. Em meio ao batuque e às serpentinas, surge uma hipótese de se afirmar uma voz silenciada pela falta de dinheiro no bolso. Mas essa possibilidade nem sempre se articula com a redenção, num filme de raça, algumas vezes formalmente imperfeito, mas capaz de extrair algo de belo da tristeza. É um gesto similar ao que o mestre Paulo Cezar Saraceni fez em Natal da Portela (1988), igualmente triste, impuro e belo. Fica a analogia. Fica a dica.