Tiradentes consagra o ‘aldeiabuster’

Tiradentes consagra o ‘aldeiabuster’

Rodrigo Fonseca

23 Janeiro 2016 | 15h10

Andrea Tonacci com o índio Carapiru na filmagem de

Andrea Tonacci com o índio Carapiru na filmagem de “Serras da Desordem”: dez anos de ousadia à margem do mercado

Acaba de ser consolidada a primeira vitória da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes, iniciada na noite desta sexta-feira, com a projeção comemorativa dos dez anos do já clássico Serras da Desordem: a consagração de um jargão a um só tempo provocativo e celebrativo das múltiplas diversidades autorais do audiovisual brasileiro, o jargão “aldeiamovie”. Corruptela de blockbuster, conceito-cimento do mercado exibidor, o termo foi popularizado na cidade mineira pelo diretor ítalo-paulistano Andrea Tonacci, mito da resistência experimental nacional nas telas, responsável pela existência do filme de abertura do evento. Sua fala se deve a uma discussão sobre a viabilidade de formas de expressão cinematográfica que persistam além da busca por bilheterias. Sua fala reflete diferentes nichos de público – aldeias – que garantam a subsistência e até mesmo a eternidade de produções pautadas pela invenção, como se supõem os 35 longas e 81 curtas do cardápio de Tiradentes em 2016.

“A sensação que eu tenho ao pensar em filmes como os que estão nesta cidade é de que nós mesmos devemos distribuir nossos filmes”, diz Tonacci, mitificado ao lançar Bang Bang em 1970. “Serrasestá no canal Curta!, passou na TV Brasil, ganhou prêmio em Gramado… ou seja, ele foi visto. Está sendo visto. Isso é ter uma audiência. De quanto? Isso eu não sei. Não sei quantos pontos deu na TV. Mas ele vive. Virou uma aldeiabuster. Existe um tipo de cinema que é xingado de não comercial dentro do pensamento contemporâneo de criação de uma indústria. Mas é importante que o Estado passe a considerá-lo, para não pensar apenas naquilo que é comercial.

13 Serras da desordem

Objeto de dissertações e teses, tema de livro, alvo de culto, Serras da Desordem é um exercício poético de desconstrução dos cânones da narrativa documental brasileira corrente com base nos rumos que o índio Carapiru tomou em sua vida ao se afastar de sua tribo e estabelecer uma relação com outras etnias. Seu movimento é mediado por situações políticas, que ilustram o abandono estatal frente a culturas indígenas.

“Na minha relação com o cinema, eu não busco identificações e sim algo que me surpreenda e me faça questionar, com a certeza de que qualquer coisa que se coloca à sua frente é Tempo”, diz o diretor, que já está trabalhando em um novo roteiro de ficção e, em paralelo, debruça-se sobre a legendagem de imagens de povos indígenas que registou entre 1989 e 1983. “Filmes são um reflexo da existência de um sentimento ao longo do tempo”.

Virgínia Cavendish tem desempenho irretocável no sobrenatural

Virgínia Cavendish tem desempenho irretocável no sobrenatural “Através da Sombra”: alimento para o cinema de gênero, num diálogo com a tradição do horror 

Neste fim de semana, dias 23 e 24 de janeiro, Tiradentes projeta longas premiados como Campo Grande, de Sandra Kogut, e Quase Memória, de Ruy Guerra. Sábado será dedicado ao terror, com a exibição de dois exemplares do gênero. Às 22h, tem Através da Sombra, trabalho mais recente do cinemanovista Walter Lima Jr, marcado por um desempenho visceral de uma Virginia Cavendish à la Nicole Kidman em Os Outros, dando carne ao drama de uma educadora frente fantasmas que assombram duas crianças. À 0h vem uma das maiores promessas do ano na seara do sobrenatural em língua portuguesa: O Diabo Mora Aqui, de Dante Vescio e Rodrigo Gasparani.