Tem Abel Ferrara em dose dupla no Festival do Rio

Tem Abel Ferrara em dose dupla no Festival do Rio

Rodrigo Fonseca

03 Outubro 2017 | 14h10

Rodrigo Fonseca
Indicado três vezes à Palma de Ouro em seus 46 anos de carreira como realizador, Abel Ferrara foi o culpado pela mais saborosa epifania sensorial vivida por Cannes em 2017 com o .doc Ao Vivo na França (Alive in France), autorretrato que mais parece autoficção ao abrir os lados A e B da intimidade do mais maldito dos indies americanos. Seu óvni narrativo está prestes a causar o mesmo efeito no Festival do Rio, onde será exibido nesta sexta, dia 6, às 23h30, no Estação Net Rio, abrindo a seleta da seção Midnight da maratona carioca. Foi na Quinzena dos Realizadores que o cultuado realizador de O Rei de Nova York (1990) mostrou estar no auge de sua forma documental ao registrar os bastidores de um concerto em Paris, com as músicas de seus filmes. No mesmo dia, um pouco antes, às 15h30, o Festival exibe, no Instituto Moreira Salles, outro longa do cineasta: Piazza Vittorio, sobre o cotidiano de Roma.

“Comecei no cinema pela porta dos curtas-metragens, em 1971, quando explorar esse formato era a escola ideal para quem quisesse aprender a filmar. Quem veio depois, na década de 1980, encontrou um modelo autoral pronto. Esse modelo foi a minha geração que criou” ”, disse Ferrara ao P de Pop em Cannes. “De certa forma, esse meu documentário sobre Paris é uma visita à influência da cultura europeia mais revolucionária sob artistas da minha idade, que se formaram depois de toda a contracultura da década de 1960. Esse filme carrega parte das lembranças de uma juventude, a minha juventude, que descobriu o rock’n’roll e o cinema de Fassbinder ao mesmo tempo. Uma geração que saia de Easy Rider e caía na mão de Herzog, fumando a melhor erva do mundo. Só podia sair coisa boa daí”.

Abel Ferrara exercita seus dotes musicais em “Ao Vivo na França”, um dos docs de sua autoria na seleção do Festival do Rio

Contagiante em seu mergulho na cena musical da noite parisiense, Ao Vivo na França apresenta um recorte quase folclórico do diretor. Sua narrativa esta para o rock e o jazz como Pina (2011), de Wim Wenders, estava para a dança. O jogo visual estroboscópico com as entranhas dos clubes Salo e Silencio, ambientes que “hospedam” o cineasta e seus amigos, gera uma sinestesia marcada pela policromia, sufocante, mas excitante.

 “Não vejo muita diferença entre o que está em Alive in France e o que faço em thrillers policiais, nos episódios de Miami Vice que rodei ou em ficções científicas existenciais que dirigi. Na minha cabeça, todo filme carrega uma medula documental. Alguns usam atores que encenam, outros usam atores que vivem: um é questão de ‘estar’; o outro é questão de ‘ser’. A partir do momento que você tenta registrar uma realidade ou reproduzi-la, não importa qual for, você está documentando uma manifestação humana, seja dramática ou cômica. Existem diferenças estruturais entre filmes”, diz o septuagenário Ferrara, que começou sua trajetória na direção filmando curtas Nick’s Film (1971), The Hold Up (1972) e Could This Be Love (1973). “Na prática, meu cinema se preocupa com pessoas que estão procurando entendimento, seja pelas vias da droga, do budismo, do sexo, da fraternidade…”.

 

Aos 70 anos, o realizador explora em “Piazza Vittorio” o cotidiano de Roma

Em suas investigações antropológicas e arquitetônicas em Piazza Vittorio, a câmera de Ferrara cruza com parceiros habituais do diretor como o ator Willem Dafoe com quem ele sempre filma. “Fazer cinema de turma amplia o nosso senso de liderança e o nosso espírito de equipe”, diz. “Gosto de estar com meu bando”.