Tambellini nas raias da Glória e da Graça

Tambellini nas raias da Glória e da Graça

Rodrigo Fonseca

19 Janeiro 2016 | 16h26

Flávio Tambellini dá instruções à atriz Carolina Ferraz  no set de

Flávio Tambellini dá instruções à atriz Carolina Ferraz no set de “A Glória e a Graça”, rodado no Rio, no fim de 2015

Recém-chegado de uma estirada no Deserto do Atacama, já com o compromisso de preparar o lançamento do premiado Campo Grande, que produziu para a cineasta Sandra Kogut, Flávio R. Tambellini se debruça agora sobre as primeiras imagens do que pode ser o filme de virada (e de apoteose) para sua carreira como realizador: o drama A Glória e a Graça. Sinônimo de esmero e capricho em sua atividade como produtor, tendo no currículo cults e sucessos, de Terra Estrangeira (1995) a Carandiru (2003), Tambellini aplicou seu cabedal de conhecimentos sobre linguagem e narrativa em prol de um enredo sobre novos arranjos familiares em tempos de revisão das identidades transexuais e de luta pelo respeito ao modo LGBT de ser e de amar. No novo longa-metragem dirigido por Tambellini, Carolina Ferraz  interpreta o travesti Glória, dona de um restaurante no Rio. Sua irmã, Graça (Sandra Corveloni), com quem não tem contato há 13 anos, descobre que tem pouco tempo de vida e a procura para aproximá-la dos sobrinhos, que não têm mais ninguém. O processo de reaproximação entre as duas gerou uma viagem sensorial (e existencial) pelos signos da feminilidade e da fraternidade, com um passaporte emotivo de carimbos almodovarianos.
Nesta entrevista, Tambellini, que já passeou, como diretor, pelo suspense, com Bufo & Spallanzani (2001), e comédia romântica, via Malu de Bicicleta (2010), fala sobre novas representações possíveis para o amor e adianta como fica a carreira de Campo Grande, que será exibido dia 24 de janeiro (este domingo) às 21h, na 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes (22 a 30/01).

 

As irmãs: Sandra Corvelloni e La Ferraz

As “irmãs” Sandra Corveloni e Ferraz: fraternidade LGBT

Há um tônus muito almodovariano na descrição da trama de A Glória e a Graça. A referência do melodrama salta aos olhos nessa relação de tempestades familiares, reencontros e acertos de conta entre irmãos. De que maneira seu filme dialoga com a tradição e com a modernidade desse gênero? Qual é o lugar do melodrama hoje no cinema brasileiro?
FLAVIO R. TAMBELLI – O melodrama está dentro de nós. Buscamos entender as questões vitais que nos movem e nos deparamos com o improvável. Desde que nascemos, caminhamos para a Morte, mas, mesmo assim, somos surpreendidos por acontecimentos e situações que reviram a nossa vida. A Glória e a Graça bebe da fonte de Almodóvar, mas reverencia também o alemão Douglas Sirk, o mestre do melodrama em Hollywood. Acredito que cinema é emoção e fazer um bom melodrama é tão difícil quanto fazer uma boa comédia. O que Woody Allen faz é melodrama, o neo-realismo permeava o melodrama, Bergman ia por aí também. O cinema brasileiro de Cacá Diegues, Walter Lima Jr., Babenco e Nelson Pereira dos Santos estiveram por aí. A Glória e a Graça é um melodrama pop, que trata de transexuais, doenças mortais, bullying, mas também tem humor e preserva sua esperança no ser humano.

Depois de um thriller, um drama existencial e de uma comédia romântica, você se vê agora às voltas com a aspereza de um gênero talhado para as lágrimas. De que maneira essa multiplicidade de gêneros lapida o seu olhar de diretor? Que cinema você busca fazer?
TAMBELLINI – O meu cinema, independentemente do gênero, fala das pessoas e das relações humanas. Gosto de contar histórias e também de inserir a geografia da cidade nelas. Foi assim em Bufo & Spallanzani, rodado em Copacabana, Centro do Rio e Jardim Botânico. Foi assim em O Passageiro: Segredos de Adulto, que eu filmei na área rica da cidade do Rio, mas também na Lapa e em comunidades. Veio depois Malu de Bicicleta, que trata das diferenças entre Rio e SP. Adoro cinema de gênero. Não tenho o menor problema com isso, pois ele te dá vários níveis de leitura para o mesmo filme.

Palavra de cineasta:

Palavras do cineasta Tambellini: “Ser produtor me mostrou como o ego e a insegurança desperdiçam dinheiro”

Como a carreira de produtor que você construiu ajuda na lapidação da sua estética como realizador?
TAMBELLINI – Comecei no cinema como assistente de direção de Bruno Barreto, Babenco, Stanley Donen e John Boorman. Dirigi o curta-metragem Tim Maia em 1984, nesses tempos de assistente. Ser produtor é uma continuidade. Busco recursos, mas também trabalho no roteiro, elenco e finalização. Ser produtor me mostrou como o ego e a insegurança desperdiçam dinheiro. Como diretor, filmo rápido e direciono os gastos para que eles apareçam na tela. Sempre gostei de produzir primeiros filmes e o fiz com vários diretores: Andrucha Waddington, Alice de Andrade, Aluizio Abranches, Monique Gardenberg, Mini Kerti, João Jardim, Flávia Castro, Christiane Jatahy, José Henrique Fonseca,Sandra Kogut…

“Campo Grande”: sessão neste domingo em Tiradentes

Quais serão seus novos passos na produção? O que dizer de “Campo Grande”, de Sandra Kogut? Qual será a carreira dele?
TAMBELLINI – A Tambellini Filmes esta produzindo o longa 10 Segundos, sobre a vida de Eder Jofre com direção de Rogério Gomes, o Papinha, em coprodução com a Globo Filmes, Breno Silveira, Chico Abréia e Thomas Stravos. Esse filme vai acontecer. Em seguida, temos Malês, dirigido por Antonio Pitanga, com uma constelação de atores negros, e, em seguida, Leite Derramado, baseado no livro do Chico Buarque, a ser dirigido por Lula Buarque. O filme Campo Grande, da Sandra Kogut, será lançado no primeiro semestre de 2016. Ele é uma poderosa história de abandono num Rio de Janeiro em obras e caótico. Foi exibido em Toronto, foi prêmio de melhor montagem no Festival do Rio, acabou de ganhar melhor direção em Cuba, será projetado na Mostra de Tiradentes, e, com certeza, terá uma carreira internacional.