0

Rodrigo Fonseca

30 Março 2016 | 08h26

Fred (Michael Caine) e Mick (Harvey Keitel) fitam a "grande beleza" na comédia dramática "Juventude", que estreia nesta quinta no Brasil

Fred (Michael Caine) e Mick (Harvey Keitel) fitam a “grande beleza” na comédia dramática “Juventude”, do italiano Paolo Sorrentino, que estreia nesta quinta no Brasil

De uma doçura felliniana ao contextualizar as vicissitudes da “melhor idade” sob a ótica do companheirismo, Juventude (Youth) é um espetáculo de leveza, que arranca da tela grande, a partir da fotografia de Luca Bigazzi, toda a potencialidade física (e até metafísica) oferecida por aquele retângulo no qual sonhos se traduzem em imagens. O cansaço orgânico e mesmo afetivo dos personagens se desenha nos planos do cineasta Paolo Sorrentino (do seminal Il Divo) numa medida oposta, ou seja: com vigor jovial. Se seu monumental A Grande Beleza (2013) era o cinema da descrença e da ressaca, aqui Sorrentino nos entrega o cinema do encanto e da conciliação, mostrando que Michael Caine pode ultrapassar as fronteiras do sublime quando está afim.

Discussão sobre anemias emocionais e ideológicas expressa numa produção de 12,5 milhões de euros, Juventude põe Caine na pele do maestro Fred Ballinger e Keitel no papel do cineasta Mick Boyle. Fred não quer mais reger mais concerto algum. Mick, pelo contrário, ensaia a preparação de um filme sobre rugas emotivas. Os dois estão na casa dos 80 anos, curtindo as memórias e os impasses da idade em um hotel nos Alpes Suíços, enquadrado pela câmera de Sorrentino como uma espécie de paraíso. Ali, os dois terão a chance de rever o que sobrou: de tempo, de tesão, de fome de viver, de disposição para sonhar. Indicada ao Globo de Ouro pelo filme, Jane Fonda entra e sai e rapidinho de cena, no papel de Brenda Morel, uma estrela decadente que tem ataques de afetação.

Jane Fonda vive Brenda: indicação ao Globo de Ouro

Jane Fonda vive Brenda: indicação ao Globo de Ouro

Brenda quer abandonar o cinema para fazer TV, alegando que um papel na televisão pode lhe “custear uma casa em Miami”. Neste momento no qual o cinema (aquele com “C” maiúsculo) briga pela defesa da excelência da imagem em tela grande, clamando por uma conciliação com outras plataformas de exibição alimentadas por House of Cards e Game of Thrones, a discussão trazida por Juventude sintetiza um brado sobre o esplendor que só a dimensão agigantada do cinema consegue refletir.

A amizade é o único patrimônio imune ao Tempo

A amizade é o único patrimônio imune ao Tempo

De quebra, num flerte com a tradição italiana de diretores como Luchino Visconti e Valerio Zurlini, Sorrentino usa a mulher como um signo de todas as revoluções e todas as essencialidades, sem medo da nudez e sem medo da sensualidade. O Belo, conceito perseguido por toda a história da Filosofia, materializa-se, para o diretor, nas formas do Feminino… e na forma de um estado-nação imune a hierarquias e aristocracias chamado Amizade. Fred perdeu muito: paixões, projetos e até o viço. Mas Mick ficou. E, na lógica italiana, expressa no título um filme da década de 1980, com Terence Hill e Bud Spencer, quem encontra um amigo encontra um tesouro. É dessa riqueza que Sorrentino fala, na poesia de um filme que aquece o peito.

 

Comentários