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Soluços com ‘Brooklyn’, taquicardia com ‘Solace’ e muito ‘brrrrrr’ com o frio de Berlim
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Rodrigo Fonseca

10 Fevereiro 2016 | 21h57

Saoirse Ronan no abraço de Emory Cohen em "Brooklyn": o quindim do Oscar 2016

Saoirse Ronan no abraço de Emory Cohen em “Brooklyn”: o quindim do Oscar 2016 estreia nesta quinta no Brasil

De um azulão quase celestial, embora marejado pela evasão de sua Irlanda natal, os olhos da jovem Eilis, protagonista de Brooklyn, locomovem-se numa aeróbica capaz de desafiar todas as leis da física ao receber uma notícia ruim que deve permanecer em segredo nesta nossa conversa, para não adiantar nada da trama roteirizada por Nick Hornby. Basta você saber que a maneira como Saoirse Ronan traduz a desestabilização de Eilis nesta cena do longa-metragem – previsto para estrear nesta quinta no Brasil – é o bastante para ilustrar o quanto a atriz nova-iorquina de 21 anos amadureceu de Desejo e Reparação (2007) para cá. Sob névoa e ventos com fio de navalha (de tanto frio e umidade), Berlim soluçou com esta estrela em tempo de madurez profissional e com todo o filme. Dirigido por John Crowley (de Circuito fechado), ele é o quindim do Oscar 2016. Em cartaz numa Alemanha pré-Berlinale em sua versão original, cheia de glicose, esta love story decalcada do romance homônimo de Colm Tóibín faturou US$ 32 milhões nos EUA e papou três indicações ao Oscar (para Hornby, para Saoirse e para seus produtores), embora perigue não levar estatueta alguma. Até pelo fato de que, entre os independentes do ano, o xodó (merecidamente) é O Quarto de Jack, que vai (e precisa) oscarizar Brie Larson. Mas bem podia sobrar algo – além de aplausos – para esta aula de folhetim, representante da estética da simplicidade.

Primo distante do Carol, de Todd Haynes, aparentado a este por também retratar os represamentos afetivos dos anos 1950, Brooklyn se concentra no amadurecimento do coração de Eilis, vendedora que sai da Irlanda para tentar a sorte em solo americano. Não há ponderações sobre as formas de exclusão na América, não se discute a Guerra Fria que congela o planeta na época em questão e, tampouco, encontram-se viradas morais ou experimentações de linguagem. É cinema clássico-narrativo, de começo, meio e fim bem demarcados com offs apenas para tracejar a leituras de cartas. É um novelão de 1h50m, sobre pessoas emocionalmente zeradas que amam, confundem-se, perdem-se e tentam… Mel e agrião. Receita boa para a gripe do esnobismo que anda a desprezar a eficiência em prol de uma pirotecnia por vezes oca. Aqui é tudo na base só da visceralidade de Saoirse, do carisma de Emory Cohen (no papel de Tony, bombeiro hidráulico italiano por quem Eilis se apaixona) e do ultrarromantismo de Domhnall Gleeson, na pele do irlandês que bagunçará o miocárdio da mocinha. Nada mais. E já é muito, graças a economia franciscana da pena de Hornby e da direção de Crowley.

Eilin cai nas graças do conterrâneo de Irlanda vivido pelo onipresente ator Domhnall Gleeson

Eilis cai nas graças do conterrâneo de Irlanda vivido pelo onipresente (e excelente) ator Domhnall Gleeson

Repare bem que Gleeson está em alguns dos mais importantes concorrentes deste Oscar. Ele ajuda DiCaprio no memorável O Regresso, ele é o vilão Hux em Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força e ainda brilha em Ex-Machina: Instinto Artificial, pelo qual Alex Garland ganhou o Directors Guild Award de cineasta revelação no sábado. Filho do ator Brendan Gleeson (o Alastor Moody de Harry Potter), ele ainda contracena com Tom Cruise em Mena, de Doug Liman, que está a caminho. Ao entrar em Brooklyn, ele bangunça o peito de Eilis e a nossa torcida por Tony. Percebe-se uma ingenuidade na maneira de Crowley conjugar os verbos fílmicos que evoca o John Ford de Como Era Verde o Meu Vale (1941) e de Depois do Vendaval (1952). E por aí vamos…

 Já sobre Solace, que no Brasil chamar-se-á Presságios de um Crime, visto durante um voo Brasil-Alemanha (causando um roer de unhas do prólogo ao desfecho)Bom…

Hopkins encara Farrell em "Presságios de um Crime"

Hopkins encara Farrell em “Presságios de um Crime”

Você se lembra da última vez, desde Amistad (1997), de Spielberg, em que uma interpretação de sir Anthony Hopkins tenha te chacoalhado o fígado? Não vale dizer Você Vai Encontrar o Homem dos Seus Sonhos (2010), de Woody Allen, no qual ele está ótimo apenas por fazer chacota de si mesmo. Seu desempenho no injustiçado 360 (2012), o drama poliédrico de Fernando Meirelles, também era bom, mas nada que chegue à altura da devastação por ele perpetrada no papel de um psiônico no novo longa de Afonso Poyart, com lançamento marcado para 25 de fevereiro no Brasil. Dá gosto se sentir surpreendido de novo pelo homem que celebrizou o canibal Hannibal Lecter em O Silêncio dos Inocentes em 1991. No piloto automático há cerca de duas décadas, talvez por falta de roteiros (e personagens) desafiadores, o galês de 78 anos pega o que começa como um coadjuvante e o eleva à condição de protagonista em um filme afinado com a (melhor) linhagem do thriller de suspense, com corpinho de CSI e medula similar a de sucessos como Beijos Que Matam (1997), com Morgan Freeman.

Nem o canibal ofusca a beleza de Abbie Cornish

Nem o canibal ofusca a beleza do mulherão Abbie Cornish

Ação aqui é a conta-gotas, com exceção do trecho final, no qual a vertigem reina. É uma novidade ver o realizador de 2 Coelhos (2012) fazer da palavra a musculatura mais retesada de sua narrativa e não uma gramática de cortes e fusões. Como forma de assinatura formal (consciente ou não), Poyart trouxe de volta a estrutura de narrar cheia de vinhetas que marcou seu (subestimado) longa de estreia. Por vinhetas, entenda a recorrência de imagens soltas de pessoas sangrando, de assassinatos, de infortúnios afins, distribuídas longitudinalmente por toda a extensão de Presságios. O recurso é feito por Poyart com elegância plástica. Logo, não cansa e alcança o efeito de traduzir a clarividência de John Clancy (Hopkins, soberbo), um cientista aposentado de seus estudos da psiquê criminosa, famoso por ter visões premonitórias. Seu dever é não deixar o psicopata Ambrose (Colin Farrell) matar de novo.

Clancy começa na trama apenas como sendo uma muleta para a investigação sob o comando do agente Merriweather (Jeffrey Dean Morgan, ótimo ator que ainda não encontrou seu espaço na Meca de Hollywood) e sua parceira Katherine, vivida por Abbie Cornish, uma deusa perdida na Terra. De tão linda – talvez a mais linda em solo hollywoodiano hoje -, ela tira a concentração de qualquer um. Mas como Presságios… tem o que dizer, Poyart se segura. É um exercício de tensão, meio hitchcockiano aqui, meio David Fincher ali. Mas na mistura de Intriga Internacional com Seven, Poyart põe (e harmoniza) sua voz própria, falando, de modo autoral, de seu tema: o perdão. E é Clancy/ Hopkins quem sutura estas artérias autorais abertas com um bisturi da precisão, dando pontos num enredo bíblico, sobre um matador com aura de Cordeiro de Deus.

p.s.: Após a projeção de Ave, César!, dos irmãos Coen, na capital alemã, na tarde desta quinta, 11/2, será dada a largada para a disputa pelo Urso de Ouro de 2016, que já tem uma situação anedótica para atrair os holofotes da mídia e dos exibidores de filmes sem $$ no bolso. Um dos concorrentes ao prêmio máximo da 66ª Berlinale, A Lullaby to the Sorrowful Mistery, do filipino Lav Diaz, tem nada menos do que 482 minutos de duração: nada menos do que oito horas e mais um tequinho de imersão metafísica nos ecos políticos da Ásia. O projeto, que será exibido com uma hora de intervalo, narra os esforços do premiado diretor de Norte, o Fim da História (2013) e de Do Que Vem Antes (2014) para descobrir resquícios da mitologia em torno do libertador de seu país, Andrés Bonifácio, na luta contra o imperialismo dos espanhóis. Um clima de “Já ganhou!” perigosamente prematuro já cerca a produção, com sessão aqui no dia 18.

"Lullaby to the Sorrowful Mistery": 482 minutos

“Lullaby to the Sorrowful Mistery”: 482 minutos de estética filipina na briga pelo Urso de Ouro na Berlinale

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