Soderbergh assalta os holofotes do Festival do Rio

Soderbergh assalta os holofotes do Festival do Rio

Rodrigo Fonseca

05 Outubro 2017 | 10h56

Rodrigo Fonseca
Tem A Forma da Água (The Shape of Water) aberto ao povão esta noite, no CCLSR – Cine Odeon Net Claro, na Cinelândia, às 23h59, logo após a sessão de gala de abertura do Festival do Rio 2017, que começa sob os auspícios fabulares de Guillermo Del Toro com o filme laureado com o Leão de Ouro veneziano. Já nesta sexta, o menu de longas inéditos, nacionais e internacionais, vai se abrir ao público carioca até o dia 15, tendo já em sua arrancada uma das produções autorais americanas mais saborosas do ano: Logan Lucky – Roubo em Família, agendado pra 15h, no já citado Odeon. É o filme de regresso de Steven Soderbergh (do épico Che) aos cinemas após um hiato de quatro anos dedicado só à TV. E tem o 007 da vez, Daniel Craig, no timão, numa composição hilária. Ele vai trazer problemas para os irmãos Jimmy e Clyde Logan (Channing Tatum e Adam Driver), enquanto eles planejam um roubo durante a corrida de Nascar.

“Filme de assalto é um gênero já clássico em Hollywood, que ganhou corpo nos anos 1960, e que exige uma engenharia muito sofisticada de direção para dar conta de muitos personagens e muitas perspectivas”, disse Soderbergh em Cannes, ao P de Pop, quando o projeto estava se estruturando.

Daniel Craig interpreta um criminoso caricato no longa de Soderbergh

Em 54 anos de vida e 32 de carreira como realizador e produtor, Steven Andrew Soderbergh aprendeu que, no cinema, quanto mais experiente você fica, mais fácil é identificar desastres, mas não soluções. Mais jovem ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes por Sexo, Mentiras e Videotape (1989), ao ser laureado com 26 anos, este produtor, roteirista, fotógrafo, documentarista e diretor de ficções autorais já errou muitas vezes. Desceu ladeira abaixo na visibilidade popular ao longo da primeira metade dos anos 1990, embora tenha emplacado o cultuado Kafka em 1991. Passou anos amargando o desdém de ser um representante da pós-modernidade até empregar suas inusitadas visões de montagem na edição de Romance Perigoso (1998), que estabeleceu George Clooney como galã romântico no cinema. Os anos 2000 lhe trouxeram os melhores augúrios, na forma do sucesso de Erin Brockovich e no Oscar de melhor diretor, o qual conquistou comTraffic (2000), seu trabalho mais ousado como realizador.

“Insisti que uma ideia corajosa poderia render tanto quanto um superespetáculo”, disse ele ao Estadão ao finalizar Behind The Candelabra, pelo qual disputou a Palma de Ouro em 2013, para a HBO. “Vários fatores pesam no conservadorismo que hoje atinge os estúdios e também o público, afoito por super-heróis: gênero com o qual não tenho intimidade. Além da questão econômica e da evolução da teledramaturgia, há uma tendência nos EUA, que ficou como um mau legado do 11 de Setembro de 2001, de se apostar no escapismo, fazendo dele uma bússola para a arte. Sofro muito com  a sensação de que as pessoas vão ao cinema para se despreocupar e não para reagir”.

De 1989 até hoje, ele soma 30 longas-metragens, curtas e séries de sucesso como The Knick, com Clive Owen. O cineasta está trabalhando agora num telefilme com Sharon Stone chamado Mosaic, cujo cartaz de trabalho traz o nome de seu alter ego: Peter Andrews. Esta é a alcunha que ele usa ao fotografar, para poder manipular a câmera dos filmes ele mesmo. Show de humor, seu Logan Lucky – Roubo em Família dá um banho de domínio técnico de ângulos de câmera.