‘Saudade’ é um fado nos acordes de Humberto Mauro

‘Saudade’ é um fado nos acordes de Humberto Mauro

Rodrigo Fonseca

22 Outubro 2017 | 13h45

Paulo Caldas (de óculos) nas filmagens de “Saudade” em solo africano: produção arrancou lágrimas em sua projeção na Mostra de SP neste sábado

Rodrigo Fonseca
Coisa mais linda do cancioneiro lusófono, a fadista Ana Moura, canta uma coisa mais ou menos assim sobre “saudade”, palavra náufraga que serve de título ao .doc rasga-coração de Paulo Caldas que fez gente fungar de banzo na Mostra de São Paulo num sábado etílico:

Quer o destino que eu não creia no destino

E o meu fado é nem ter fado nenhum

Cantá-lo bem sem sequer o ter sentido

Senti-lo como ninguém, mas não ter sentido algum

 

Ai que tristeza, esta minha alegria

Ai que alegria, esta tão grande tristeza

Esperar que um dia eu não espere mais um dia

Por aquele que nunca vem e que aqui esteve presente

 

Ai que saudade

Que eu tenho de ter saudade

Saudades de ter alguém

Que aqui está e não existe

Sentir-me triste

Só por me sentir tão bem

E alegre sentir-me bem

Só por eu andar tão triste

 

Tem paradoxo a rodo aí no Desfado desse rouxinol, como em qualquer lugar onde esse substantivo pontiagudo que causa tétano chamado saudade seja o foco das atenções. No filme de Caldas, derivado de um projeto de série homônimo para o Arte 1, agendado para 2018, o historiador Duval Muniz diz que “a saudade é ontológica”. O ator luso-africano Miguel Hurst faz poesia ao pensar sobre o verbete que só existe na Língua Portuguesa, ao citar o aroma de uma comida de sua infância: “O cheiro provoca algo tão vazio quanto as palavras que você não disse”. Bráulio Tavares, escritor, vai no mesmo pretérito de imperfeita perfeição: “Quem vive só para o presente é uma casa sem alicerces”. E o trovador Antonio Marinho crava a faca: “Não ter saudade de nada é não ter nada na vida”. Frases como essas, dignas de anotação, pululam tela afora nas andanças de Caldas na fabricação deste road movie que é também river movie e ainda plane movie, lapidando-se como verse movie. Na soma das parcelas, temos a sinestesia de uma certeza: as redes abertas pelo longa-metragem não se dão na virtualidade, via Google, e sim no pé no chão, na caminhada, na viagem, na troca de abraços, no aperto de muitas mãos. A escritora Adriana Falcão, a fotógrafa Adelaide Ivánova, a coreógrafa Ana Guerra Marques, roteirista Marta Nehring, o cineasta Ruy Guerra e o romancista Milton Hatoum são alguns dos entrevistados que integram as quase 300 horas de material filmado, decantados em cerca de dois anos de edição pelo olho de lince e as mãos de fada da montadora Vânia Debs.

Ruy Guerra fala sobre a Morte no longa

Há planos de digressões sensoriais alternados com fala… com litros de saliva quente que faz ferver dores das mais diversas vesículas afetivas. Tudo ganha identidade visual na filtragem do Real e da fabulação confessional feita pelo fotógrafo Pedro Sotero. Realizador de Os Fuzis (1964), Guerra mistura saudade com finitude: “A Morte é a inimiga do futuro”. Já o também cineasta Miguel Gonçalves Mendes faz um exercício de geopolítica, ao apontar a medula melancólica da alma lusitana: “Após 48 anos de ditadura, compramos o papel de vítima”. Já Hatoum usa a metáfora científica da bílis negra para fazer referência à sensação de desterro. Essa diversidade de signos, definições e reflexões são o saúdo mais precioso deste exercício documental perfumado a Humberto Mauro na aptidão para extrair poesia das situações mais simples, na habilidade de ser didático sem cair numa ladainha professoral e na retidão com que investe na brasilidade. É um tripé mauriano, parecido com o que se via em Engenhos e Usinas (1955) e outros curtas do Lumière de Cataguases.

Vânia Debs garante traços de poesia na montagem deste .doc que vai virar série

Conhecido pelo cruzado de direita Deserto Feliz (2007) e pelo ganho de esquerda País do Desejo (2011), Caldas retoma aqui a trilha documental poética de seu O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas (2000) e mostra uma vez mais o quanto é capaz de driblar chavões de si mesmo, reinventando-se a cada filme. A delicadeza de Vânia só galvaniza a maneira (autoral) com que o cineasta se debruça sobre relatos de sobrevivência e de reinvenção. E, após a projeção, Saudade rendeu saudade da fase de formação do novo cinema nordestino, na qual ele apareceu, ao lado de Lírio Ferreira, com Baile Perfumado (1996). Mas antes, há três pilares que fundaram a identidade pós-moderna do Nordeste em nosso cinema: SuperOutro (1989), de Edgard Navarro; That’s a Lero-Lero (1994), de Amin Stepple e do já citado Lírio; de Mr. Abrakadabra (1996), de José Araripe Jr. São os pilares de uma estética inquieta, que faz da poesia seu norte.

“Abaixo a Gravidade”, irmão caçula do Superoutro de Edgard Navarro

Aliás, falando de Navarro, seu novo trabalho, Abaixo a Gravidade, terá sessão nesta segunda na Mostra de São Paulo, às 21h20 no Cine Caixa Belas Artes. Na trama, o solitário Bené (Everaldo Pontes) é flechado pelo Cupido e resolve tentar a sorte na cidade grande. Mas Cupido é moleque teimoso.
Vai ter mais Saudade também na segunda, às 16h, no Cinearte. No dia 26 rola mais uma projeção, no Espaço Itaú Frei Caneca, às 15h20.