Saudação a Scorsese e outras boas de Cannes

Saudação a Scorsese e outras boas de Cannes

Rodrigo Fonseca

07 Maio 2018 | 16h21

Mais cinéfilo dos diretores dos EUA revelados dos anos 1970 pra cá, Martin Scorsese será homenageado com a Carroça de Ouro de Cannes

Rodrigo Fonseca
Faltam cerca de 20 horas para a programação oficial do 71º Festival de Cannes começar, com a projeção do primeiro dos 21 candidatos à Palma de Ouro de 2018: Todos Lo Saben, drama no qual o iraniano Asghar Farhadi joga o casal espanhol Penélope Cruz e Javier Bardem contra o argentino Ricardo Darín. Mas há já um evento que se destaca na expectativa da Croisette: a vinda de Martin Scorsese, fugido da ilha de edição onde monta The Irishman para a Netflix, a fim de receber um prêmio especial pelo conjunto de sua luminosa carreira em solo cannoise. Na abertura da Quinzena dos Realizadores, mostra paralela à corrida pela pela Palma, ele vai receber o troféu Carroça de Ouro, batizado a uma criação de um de seus mitos, Jean Renoir. E antes, Marty exibe um de seus pilares cinemanovistas, Caminhos Perigosos (Mean Streets), de 1973, com De Niro e Harvey Keitel. Na sequência, ele conversa com o público.

Igualmente esperada é a vinda do alemão Wim Wenders com um documentário inédito sobre o Papa Francisco. O projeto é o mais cotado ao prêmio L’Oeil d’Or, a Palma do Real. Ele se chama Pope Francis – A Man of His Word. Fique de olho também em:

“Mirai of the Future”: japanimation

“The State against Mandela and the others”, no qual Gilles Porte e Nicolas Champeaux, resgatam arquivos do julgamento do finado líder sul-africano, entre 1963 e 1964;

“Whitney”, um retrato afetivo do cineasta Kevin Macdonald (de “O Último Rei da Escócia”) sobre a cantora Whitney Houston, morta em 2012, aos 48 anos;

“Mirai of the Future, o trabalho mais recente do ás dos animês Mamoru Hosada, realizador do cult O Rapaz e o Monstro (2015), esta produção acompanha as viagens no tempo de um garotinho capaz de saltar de passado em passado acompanhado por uma versão juvenil de sua mãe;

O Grande Circo Místico”
, o filme que Cacá Diegues devia ao país desde Bye Bye, Brasil (lá de 1979), por sintetizar sua obra, por trazer a escrita do roteirista George Moura em seu apogeu e arrancar de Mariana Ximenes um desempenho histórico, cheio de sensualidade e tristeza;

“Los Silencios”, novo trabalho de Beatriz Seigner, cujo elenco tem a força da natureza Enrique Diaz em meio a um cruzamento de conflitos sul-americanos nas raias da Colômbia;

“Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”, que une Minas e Lisboa a partir da troca etnopop de olhares entre Renée Nader Messora e João Salaviza;

“BlackKklansman”, o novo ensaio de Spike Lee sobre racismo, a partir da história real do tira negro que conseguiu se infiltrar na KKK.

Uma das maiores preocupações de Cannes em 2018 será resolvida nesta quarta-feira. Às 14h do dia 9 (no horário francês) será resolvido o imbróglio judicial entre o produtor português Paulo Branco e o cineasta anglo-americano Terry Gilliam que pode (se pender para o lado luso) impedir a projeção do esperado The Man Who Killed Don Quixote no dia 19. Essa é a data do encerramento do festival, quando o longa sobre o delirante paladino seria exibido na Croisette fora de concurso, após a entrega da Palma, antes de entrar em circuito comercial, em 300 salas francesas. Branco levou Gilliam aos tribunais por divergências de orçamento, datas de finalização e direito patrimonial sobre o filme, que levou 18 anos para sair do papel. É o galês Jonathan Pryce (de 007 – O Amanhã Nunca Morre) quem encarna o Cavaleiro da Triste Figura nesta versão pop da prosa de Miguel de Cervantes.

Enquanto o festival não arranca, às vésperas da estreia de Todos Lo Saben, a cidade se contenta com os reclames publicitários de produções futuras, como é o caso do pôster estilizado de Rambo 5 ou das propagandas com Jean-Claude Van Damme em atuações híbridas de humor e dor. Mas há banners e instalações gigantes de Han Solo – Uma História Star Wars e de Missão Impossível: Efeito Fallout na orla da Croisette. É o poder da indústria que se faz presente.