‘Saint Amour’ é uma comédia das melhores safras

‘Saint Amour’ é uma comédia das melhores safras

Rodrigo Fonseca

24 Agosto 2017 | 22h22

Benoît Poelvoorde e Gérard Depardieu vivem filho e pai numa França rural em “Saint Amour”

Rodrigo Fonseca
Poucas vezes, em tempo de crise, seja financeira ou moral, a comédia amargou tempos duros quanto os que o filão enfrenta em 2017, sem emplacar um grande sucesso à altura da expectativa dos exibidores, seja no Brasil ou lá fora, inclusive em Hollywood, onde um exemplar atrás do outro da gargalhada naufragou. Entre os raros bons filmes de linha cômica que aportaram em nossas telas este ano, o mais fino (e vívido) se chama Saint AmourNa Rota do Vinho, já em cartaz em terreno nacional. Não se deixe levar pela preguiça de certas avaliações críticas: é daqueles filmes que desopilam até fígados com cirrose. Gérard Depardieu ilumina cada cena em que defende o papel de um criador de gado bonachão, viúvo, mas disposto a dar um trago na felicidade. Dirigida pela dupla Benoît Delépine e Gustave Kervern, esta produção foi uma sensação no Festival de Berlim de 2016, encerrando o evento pelo veio do riso. Na França, ele beirou 400 mil pagantes em duas semanas em cartaz no Velho Mundo.

Com uma disposição invejável para brilhar, Depardieu injeta dor e malícia na figura de Jean, pecuarista que sai em viagem pela rota francesa dos vinhos. Sua meta é botar nos eixos seu filho beberrão, Bruno, vivido pelo belga Benoît Poelvoorde, um dos comediantes de maior prestígio popular de toda a Europa na atualidade. O Novíssimo Testamento (2015) é um de seus melhores momentos.

Íntimos de Depardieu, a quem dirigiram em Mamute (2010), Delépine e Kervern põem o astro numa narrativa de leveza e ternura, classificada por todos na Berlinale de “fofa”, por seu olhar sobre a paternidade. A sacada do celular de Jean dá uma pontada no nosso peito, expondo o quão afiado o roteiro é, com leves toques de pornochanchada. É um olhar doce sobre uma França rural. E sobre as carências da condição masculina.