‘Redemoinho’ é coroado no FESTin, Lisboa

‘Redemoinho’ é coroado no FESTin, Lisboa

Rodrigo Fonseca

07 Março 2018 | 10h43

À moda portuguesa: Gildo (Julio Andrade) encara Luzimar (Irandhir Santos) no olho do “Redemoinho”

Rodrigo Fonseca
Respeitado mundialmente como um dos mais rigorosos fóruns de debate da lusofonia pelas vias do audiovisual, o FESTin 2018: Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa encerrou nesta terça-feira sua 9ª edição anual consagrando um mergulho poético na realidade da classe operária mineira: o longa-metragem Redemoinho. Baseado na obra literária de Luiz Ruffato (Inferno Provisório), o drama pilotado pelo cineasta estreante José Luiz Villamarim (jovem nas telonas, mas cascudo na telinha, onde dirigiu sucessos como Amores Roubados e Avenida Brasil) conquistou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Direção na seara dos títulos de ficção. Entre os documentários, o corado com os louros da vitória foi o doce Saudade, de Paulo Caldas.

Confira a seguir a lista de premiados:

Categoria de Longa-metragem de ficção:

Melhor longa-metragem: “Redemoinho” de José Villamarim

Melhor realizador: José Villamarim por “Redemoinho”

Melhor atriz: Grace Passô por “Praça Paris”

Melhor ator: Marat Descartes por “Mulher do pai”

Melhor filme – Júri da Crítica: “Açúcar” de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira

Menção honrosa de longa-metragem – Júri da crítica: “Mulher do pai” de Cristiane Oliveira

Melhor filme – Júri Popular: “Como nossos pais” de Laís Bodanzky

 

Categoria de Curta-metragem:

Melhor curta-metragem: “A gis” de Thiago Carvalhaes

Menção honrosa de curta-metragem: “África na Europa” de Atcho Express e “Carga” de Luis Campos

Melhor curta-metragem – Júri Popular: “Hospital da memória” de Pedro Paula de Andrade

“Saudade”: Vânia Debs garante a poesia na montagem deste .doc

Categoria Documentário:

Melhor Documentário: “Saudade” de Paulo Caldas

Menção honrosa de Documentários: “Serviçais das memórias à identidade” de Nilton Medeiros

Melhor documentário – Júri Popular: “Serviçais das memórias à identidade” de Nilton Medeiros

Categoria Infanto-Juvenil: 

Melhor filme – Júri popular infantil: “Como surgiram as estrelas” de Renato Barbieri e Adriana Meirelles

Sobre Redemoinho

Irandhir Santos na Minas de Ruffato

Pátria do pioneiro da brasilidade nas telas do cinema verde e amarelo, o diretor Humberto Mauro (1897-1983), a cidade mineira de Cataguases, imortalizada nas telas como instância poética de invenção de uma identidade nacional, voltou a ser palco para a transcendência e para a busca de novos rumos narrativos para o cinema com Redemoinho, longa-metragem de estreia do diretor de TV José Luiz Villamarim como cineasta. Escalado no fim de 2016 para a mostra Ópera Prima do Festival de Havana, em Cuba, esta delicada produção conquistou o Prêmio Especial do Júri no Festival do Rio daquele ano onde fez sua estreia mundial, após uma longa espera. Durante quase de dois anos falou-se do projeto no circuito nacional. Na competição carioca, ele ainda recebeu o prêmio de melhor ator, dado a Julio Andrade.

Desde 2014 reinava entre as classes audiovisuais do Brasil a curiosidade de saber como o responsável por hits televisivos como a novela Avenida Brasil (2012) e as minisséries Amores Roubados (2014) e Justiça (2016) sair-se-ia com outro léxico. E valeu esperar, pois este drama natalino baseado em tramas do segundo volume de Inferno Provisório, a Comédia Humana de Luiz Ruffato, fez jus à expectativa ao iluminar o Cine Roxy com procedimentos de linguagem mais próximos de uma certa estética iraniana que dos filmes do Brasil. Mais do que impactar pela sisudez de uma Minas operária (sem o barroquismo com o qual as Gerais costumam ser retratadas), a produção impactou por uma estrutura de roteiro sofisticadíssima. Na dramaturgia de George Moura o eixo central – o reencontro de dois velhos amigos – é arejado por microsituações que lhe servem de satélites, estruturadas simbolicamente quase como flashes do correr da vida, algumas servindo para esclarecer dúvidas, outras abrindo caminhos autônomos, num processo de diálogo com a prosa de Ruffato.

É o silêncio que reina senhorial nesta narrativa, na qual a direção de fotografia feita por Walter Carvalho (talvez a mais ousada de sua carreira, em anos recentes, desde Baixio das Bestas) dá tanto valor a rebites de pontes e a ribanceiras quanto à gente ao seu redor. É um filme de clima, de construção climática, onde as revelações do enredo chocam menos do que os desabafos de inquietação frente a um lugar onde o Tempo escorre pela chuva que esfria ímpetos de renovação. É também filme de assombração, pelo fantasma de um menino morto que pesa no mormaço local. Mas não é um filme de causalidade: no ritual de observação orquestrado por Villamarim a partir das palavras de Moura e das lentes de Carvalho as ações não correm em P.A. (progressão aritmética) nem P. G. (progressão geométrica), pois, nem sempre, um fato deflagará outro, nem sempre uma ação esperará reação.

Ali é Minas. Uma Minas secular. Uma Minas que não sem pressa, pois viciou-se na segurança da rotina. Uma Minas vista de seu ventre social, mas sem uma politização. Vimos nos últimos dez anos aquele estado renascer nos experimentos nas franjas de uma certa videoarte, com a produtora Teia, com A Falta Que Me Faz (2009), de Marília Rocha, com as ruminações de Girimunho, de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr. Mas há nas Gerais de Villamarim uma mistura ardida de metafísica e carnalidade, de ausência e de pertença, de pouca metáfora e muita metonímia: temos partes representando o todo, vestígios indicando onde estão os cadáveres de sentido. E temos uma das cenas mais belas do nosso cinema, na qual Camila Amado deposita em águas egressas do leito do Rio Pomba flores para o filho morto, pedindo para que ele volte.

Cássia Kis Magro no melhor filme do FESTin 2018

Numa genealogia cinéfila, o parente mais próximo de Redemoinho, no discurso e na investigação de mundo, seria o italiano As Maravilhas (2014), de Alice Rohrwacher, sobre uma família de genes etruscos. Mas a gente pisa, com Villamarim, em um chão esturricado que lembra o do Irã que o cinema de lá nos apresentou.

É difícil não pensar no Jafar Panahi de Ouro Carmin (2003) ao acompanharmos as andanças do que parece ser o protagonista, o operário Luzimar (Irandhir Santos), da tecelagem onde bate ponto até sua casa, onde a mulher (Dira Paes) o espera com a ceia de Natal e com um segredo. Mas no meio de seu caminho há uma pedra, Gildo (Julio Andrade), amigo das peladas de infância, ligado de alguma forte à perda do tal menino, da qual se sabe bem pouco (e da qual saberemos apenas o necessário para galvanizar a sensação de nó na garganta de todos). Gildo convida Luzimar para uma cerveja e dela outra e outra e outra numa sucessão de goles para regar a necessidade soterrada de ambos de deixar as angústias tomarem um ar.

Mas não espere soluções, nem mistérios, nem conflitos redefinidores. Redenção é uma palavra absoluta. O mundo de Ruffato, não: é provisório ao pé da letra. Absoluto, em Redominho, só se manifesta em dois pontos. A) Na certeza de que dois dos maiores atores deste nosso país (Irandhir e Andrade) vão entregar o melhor de si num embate que não fala a língua da dialética, nem da retórica: são os instintos primais que darão as cartas ali; b) Na percepção de que Villamarim teve uma estreia apoteótica, lançando-se como realizador no ápice da forma e da fome, permitindo uma reinvenção contextual a um planisfério que nos deu O Padre e a Moça (1965), A Casa Assassinada (1970) e Cabaré Mineiro (1979), entregando algo que parece, à primeira vista, um filme definitivo sobre alguma coisa que finge ser amizade, mas se chama rancor.