Primavera Romena na Mostra e outras bossas pra maratona cinéfila de SP

Primavera Romena na Mostra e outras bossas pra maratona cinéfila de SP

Rodrigo Fonseca

18 Outubro 2017 | 03h01

Confissões afetivas são o tecido de “Ana, Meu Amor”, pérola romena da Mostra de SP em sua edição nº41

Rodrigo Fonseca
Termina nesta quarta a repescagem do 19º Festival do Rio, com uma projeção de um .doc delicioso, Ex Libris: Biblioteca Pública de Nova York, de Frederick Wiseman, às 20h30, no Estação NET Rio 5, que ocorre em solo carioca quase ao mesmo tempo em que, lá no Auditório do Ibirapuera, a 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo estará dando seus primeiros sinais de vida (muito inteligente. A abertura da maratona cinéfila paulista vai ser com Human Flow – Não Existe Lar Se Não Há Para Onde Onde Ir, do artista plástico e dissidente político chinês Ai Weiwei. E, já nesta quinta, um Mar Vermelho de atrações vai se abrir para o público de SP, começando por uma iguaria romena. Laureado com o Prêmio de Contribuição Artística (melhor montagem) no Festival de Berlim, o melodrama esturricado Ana, Meu Amor vai fazer sua primeira incursão por telas brasileiras neste 19/10, às 17h50, no Reserva Cultural.

Há mais de uma década, a Romênia virou a pátria cinematográfica do desconserto e, com este tratado sobre dependência afetiva, aquele país finca uma vez mais sua bandeira autoral no peito da indústria audiovisual. Parece Cenas de Um Casamento (1973), de Bergman, só que com jovens na casa dos 20 poucos anos. Jovens acossados por instituições como a Saúde e a Educação, como é marca registrada da Primavera Romena, a onda mais sólida do cinema, entre as tendências de CEP determinado, dos últimos 15 anos. E seu artífice, o diretor Cãlin Peter Netzer, já foi laureado em Berlim, em 2013, por Instinto Materno, com um Urso de Ouro, firmando-se como um dos cineastas mais sólidos de sua pátria e de todo o Velho Mundo. É um cineasta que força seu público a purgar quase duas horas no interno da possessão romântica – vista sob uma ótica distanciada, mas que dói no nosso peito.

Prêmio de montagem em Berlim

Tem muita coisa não dita entre Ana (a majestosa Diana Cavaliotti) e Toma (Mircea Postelnicu, de alta voltagem trágica), dois estudantes de Letras que se conhecem na universidade e passam anos juntos, indo do querer na plenitude ao desmame lírico em uma aposta mútua na pertença.

“A palavra ‘mútuo’ é a chave de tudo aqui, pois é uma opção de ambos, por uma necessidade de sofrimento, a manutenção daquela história a dois”, disse Netzer, cuja narrativa embaralha presente, passado e uma sessão de análise na qual Toma tenta entender o que é inconsciente e o que é vida prática.

Ana e ele mal saíram da faculdade, mas optam por um casamento que vai embolando dissabores, ciúmes, rejeição dos pais, traumas antigos, a chegada de um bebê e o desapego. Há uma farpinha do filme contra Paulo Coelho, numa cena em que Toma, já formado, trabalhando para um jornal, esnoba o autor de O Diário de um Mago. Farpas caem também sobre a Igreja, que tem um papel sufocador sobre estes leitores da obra de Nietzsche, pois, diferentemente do filósofo, nem todos acreditam na morte de Deus ou no crepúsculo dos ídolos. Um padre, vivido pelo ator romeno Vlad Ivanov, é o primeiro a avisar a Toma de que um casal deve saber tudo (possível) um sobre o outro antes de dividirem o mesmo teto. Mas os conselhos do Senhor não são ouvidos. Os de Freud até são, mas as sessões de análise têm hora marcada, como o longa dos lembra, num gesto irônico: um diálogo. Há muitos diálogos bons, mas a aparência documental da fotografia tira o foco das palavras, sobretudo quando Toma vai entrando em uma decadência física.

Há uma genealogia à qual Ana, Mon Amour pertence. Ela se refere a esta noção de Primavera Romena, iniciada há 12 anos quando A Morte do Senhor Lazarescu (2005), Cristi Puiu, lançou uma nova modalidade de realismo social, típica da Romênia, na qual investigações quase sempre irônicas (muitas delas de ritmo tenso) sobre falências institucionais. O procedimento básico da Primavera supõe usar uma estética desdramatizada (poucas ações), em locações reais, filmadas com um olhar próximo do documentário, onde as tramas são sempre mote para que se aborde a decadência politica (e moral) daquela nação a partir dos escombros sociais deixados como herança pelo Comunismo. E isso sempre é arejado por um humor dos mais ácidos. Desse projeto estético nasceram filmes cultuados como 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, ganhador da Palma de Ouro em 2007; California Dreamin’, de Cristian Nemescu; e O Tesouro (2015), de Corneliu Porumboiu, e Sieranevada, do já citado Puiu. O filmaço de Netzer é mais um (grande) exemplar desse cinema que exuma cicatrizes nacionais para ficar para a posteridade no planisfério da imagem.

“Três Anúncios Para Um Crime”

Ainda na quinta rola um potencial ganhador de Oscars: Três Anúncios Para Um Crime, agendado às 21h40, no Espaço Itaú Frei Caneca. Prêmio de melhor roteiro em Veneza e prêmio do júri popular em Toronto, a produção é batizada originalmente de Three Bilboards Outside Ebbing, Missouri e a direção é de Martin McDonagh (de Na Mira do Chefe). É de rasgar corações o desempenho de Frances McDormand. Ela vive uma vendedora que busca os culpados pela morte da filha. Pra isso, custeia três outdoors na saída de sua cidade cobrando a Polícia por sua inadimplência. Peter Dinklage, de Game of Thrones, tem uma atuação memorável como um pretendente de Frances.

“Outrage Coda”: Yakuza em chamas 

Para sexta, o evento guardou a melancolia de Lucky, comédia que marca a despedida de Harry Dean Staton, com sessão às 15h30 no Itaú Augusta. Já o Cinesesc projeta no dia 20, às 16h40, o descarrego chamado Félicité, pérola do cinema africano sob a direção de Alain Gomis, laureada com o Grande Prêmio do Júri na Berlinale. E pro dia 23, às 21h20, a atração imperdível é Outrage Coda, thriller mafioso de Takeshi Kitano, alocado no Itaú Frei Caneca também.

“O Beijo”, de Murilo Benício: rodriguiano

Nesta sexta, a Mostra exibirá às 21h30, no Espaço Itaú Augusta o que promete ser um dos mais radicais experimentos cinematográficos do ano: O Beijo, filme de estreia de Murilo Benício como realizador, baseado em Nelson Rodrigues. Mas tem mais coisa boa – e quente – nacional chegando, incluindo muitos títulos que farão sua primeira exibição pública no país, a exemplo de ANTES QUE EU ME ESQUEÇA, de Tiago Arakilian; AQUALOUCOS, de Victor Ribeiro; MEU TIO E O JOELHO DE PORCO, de Rafael Terpins; ORGANISMO, de Jeorge Pereira; A IMAGEM DA TOLERÂNCIA, de Joana Mariani e Paula Trabulsi; HÍBRIDOS, OS ESPÍRITOS DO BRASIL, de Priscilla Telmon e Vincent Moon; INAUDITO, de Gregorio Gananian; PRIMEIRO BAILARINO, de Felipe Braga; QUERIDA MAMÃE, de Jeremias Moreira; SAUDADE, de Paulo Caldas; e SOLDADOS DO ARAGUAIA, de Belisario Franca.