Premiado em Cannes, ‘Cinema Novo’ leva às telas a estética da resistência

Premiado em Cannes, ‘Cinema Novo’ leva às telas a estética da resistência

Rodrigo Fonseca

18 Outubro 2016 | 11h37

Cena de

Cena de “Cinema Novo”, de Eryk Rocha, que estreia em novembro, mas tem sessão nesta quarta na repescagem do Festival do Rio

RODRIGO FONSECA
Sobrou ainda, até quarta à noite, uma esperança para os que não viram nada do Festival do Rio de poder conferir o melhor do evento, na habitual repescagem, que escalou para a tarde desta terça um marco contemporâneo do Brasil nas telas, dono da mais importante láurea conquistada pelo nosso país em Cannes nos últimos 45 anos: Cinema Novo, de Eryk Rocha. Previsto para estrear no dia 3 de novembro, o longa-metragem conquistou na Croisette o troféu L’Oeil d’Or, dado ao melhor documentário em projeção por lá (não por acaso, o maior e mais nobre festival do mundo). Quem estiver pelo Rio, pode conferir sua excelência numa exibição às 16h, no Ponto Cine, em Guadalupe, seguida do curta-metragem Os Cravos e a Rocha. Mas vai ter sessão dele também na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (de 20 de outubro a 2 de novembro): dia 31, às 20h40m, no Espaço Itaú – Sala Frei Caneca 2 e no dia do encerramento, às 20h20m, na Cinesala. É curioso pensar que há 47 anos Cannes deu ao pai de Eryk, a força da natureza Glauber Rocha (1939-1981) o prêmio de melhor diretor por O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969): no solo mítico do balneário francês, ambos abriram veias infectadas pelo veneno político.


Cerca de 130 filmes rodados no Brasil entre Rio 40 Graus (1955) e Iracema – Uma Transa Amazônica (1975) são amalgamados na colagem sensorial de Cinema Novo. O resultado corriqueiro de aritméticas como esta, feita pelo realizador de Intervalo Clandestino (2005), resultam, em geral, numa colcha de signos fragmentados – um puzzle – no qual cada peça entra ali apenas como um código remissivo. Ou seja, elas entram num filme como um lembrete ao espectador de que são partes de um outro corpo, no caso, de um curta ou longa-metragem, e entram ali com o intuito único de te fazer procurar o filme em questão. Quase sempre esse processo gera Frankensteins museológicos. Mas com Eryk não funciona bem assim.

'Macunaíma' é um dos longas abordados no documentário

‘Macunaíma’ é um dos longas abordados no documentário

Trechos de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de A Falecida (1964), de Macunaima (1969) não entram ali como metonímias, como partes de diferentes e históricos todos de uma cinematografia, a do Brasil nos anos 1960. Na brilhante montagem orquestrada por Renato Vallone, os trechos ganham uma transcendente autonomia. Antonio das Mortes cruza para os soldados de Os Fuzis (1964), que cortam para O Padre e a Moça (1965), que marca passos de seu contemporâneo Menino de Engenho, mas todos vão, pouco a pouco, desapegando-se de suas raízes, ganhando outros contornos plásticos, virando outras coisas, como se transformados em outra coisa que não os filmes nos quais foram gerados. Parece um exercício de prosopopeia fílmica, ou seja, de animar imagens, dando a elas outra vidas, num deslizamento poético parecido com o que Arthur Rimbaud fez na literatura com Voyelles, ao dar uma personificação a um grupo de vogais.
Com autonomias, as cenas que vemos na telona – com uma plasticidade primorosa – parecem se desarticular do som, no qual ouvimos depoimentos colhidos em diferentes décadas pelos artífices do movimento cinemanovista brasileiro: Glauber Rocha, Leon HirszmanPaulo Cezar Saraceni,Arnaldo JaborJoaquim Pedro de Andrade,Luiz Carlos Barreto e Cacá Diegues. Figura (visual) e fundo (banda sonora) correm em paralelo, como ser Eryk buscasse desierarquizar os arquivos à sua frente e libertar cada um de sua sina informativa. Não estamos diante de uma aula, muito menos diante de uma exumação de cadáver ideológico. Estamos diante de uma sinestesia, onde a semântica dos anos 1960 é moída num triturador documental que não busca o registro e sim um procedimento vertoviano de espatifar aparências e libertar essências.

Bem próximo do que Apichatpong Weerasethakul faz em sua arte visual para galeria, como Os Fantasmas de Nabua, o filme Cinema Novo usa espectros como lanternas para iluminar o presente. A musculatura retesada dos grandes longas que resgatou, como Terra em Transe ou São Bernardo, são indícios de uma ginástica simbólica que dura até hoje de ressignificar o Brasil numa alquimia entre teorias e pragmatismos, entre Guimarães Rosa e a Midia Ninja tentando achar uma identidade que não dependa de nossas metrópoles (Portugal, Londres, EUA). O Cinema Novo, o movimento, surgiu para cortar cordões umbilicais coloniais. Para fazer justiça a esse feito, o obrigatório documentário de Eryk também precisava sai do ninho, cortar os vínculos com as imagens matriciais e gerar uma micareta imagética, polifônica e épica. Fica como herança a indignação e o amor por uma noção utópica de Brasil que parece cada vez mais distante da gente.

p.s.: Nesta quarta, às 21h, no Cine Roxy, de Copacabana, a repescagem do Festival do Rio reprisa um dos títulos latino-americanos mais concorridos da maratona: A Região Selvagem, do mexicano Amat Escalante. Máquina de exportar talentos de direção para Hollywood, tipo Alfonso Cuarón e Alejandro González Iñárritu, o México preservou em sua divisas um de seus mais ousados realizadores: Amat Escalante, ganhador do prêmio de melhor diretor em Cannes, em 2013, com o ensaio social policial Heli. Agora, por esta análise das neuroses sexuais e impotências corruptas de sua pátria, ele ganhou o prêmio de melhor diretor em Veneza. Erótico até o limite da perversão, esta produção investiga a atomização da instituição “família” a partir da aparição de um monstro que satisfaz os desejos de quem o procura atrás de prazer. Isso vai acontecer com uma jovem pobre, sogra de uma empresária excludente, ao descobrir que seu marido a trai com outro homem – não por acaso, o caso dele é o irmão dela.