‘Pororoca’ romena inunda a Mostra de SP de autoralidade

‘Pororoca’ romena inunda a Mostra de SP de autoralidade

Rodrigo Fonseca

23 Outubro 2017 | 11h34

Bogdan Dumitrache, coração desta “Pororoca”, foi laureado em San Sebastián como melhor ator por este drama de desestruturação familiar

Rodrigo Fonseca
Tem Romênia hoje na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o que é sempre um indício de bílis autoral a ser amargada (com prazer) na forma de uma narrativa não convencional, de relevância social (às vezes existencial) mais explícita: “a” atração desta segunda no evento é Pororoca, de Constantin Popescu. Tem projeção às 17h20 no Espaço Itaú Frei Caneca. E é grande: são 154 minutos nos quais Bogdan Dumitrache dá um show de visceralidade numa atuação coroada com o prêmio de melhor ator em San Sebastián, em setembro. Ele vive Tudor, um pai de família feliz, casado com a bela Cristina (Iulia Lumânare) e pai de duas meninas: Ilie (Stefan Raus) e Maria (Adela Marghidan). A harmonia deste trio é a razão de viver de Tudor até que, durante um passeio, Maria de perde. E, com o sumiço dela, o equilíbrio daquele clã vai junto. Uma tempestade afetiva se forma, regando instância de solidão antes invisíveis e deixando mais visíveis as clareiras da corrupção na Lei romena.

Há mais de uma década, a Romênia virou a pátria cinematográfica do desconserto e, com este tratado sobre dependência emotiva, aquele país finca uma vez mais sua bandeira autoral no peito da indústria audiovisual. Lembra O Quarto do Filho (2001) de Nanni Moretti. Há uma genealogia à qual Pororoca pertence. Ela se refere a esta noção de Primavera Romena, iniciada há 12 anos quando A Morte do Senhor Lazarescu (2005), Cristi Puiu, lançou uma nova modalidade de realismo social, típica da Romênia, na qual investigações quase sempre irônicas (muitas delas de ritmo tenso) sobre falências institucionais. O procedimento básico da Primavera supõe usar uma estética desdramatizada (poucas ações), em locações reais, filmadas com um olhar próximo do documentário, onde as tramas são sempre mote para que se aborde a decadência politica (e moral) daquela nação a partir dos escombros sociais deixados como herança pelo Comunismo. E isso sempre é arejado por um humor dos mais ácidos, como se via em um dos longas de que Popescu participou: o filme em episódios Contos da Era Dourada (2009). Desse projeto estético nasceram filmes cultuados como 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, ganhador da Palma de Ouro em 2007; California Dreamin’, de Cristian Nemescu; Instinto Materno, que deu o Urso de Ouro a Cãlin Peter Netzer em 2013; e O Tesouro (2015), de Corneliu Porumboiu; Sieranevada, do já citado Puiu; e Ana, Meu Amor, que é outra pepita desta Mostra.

Tem mais Pororoca na Mostra nesta terça, às 14h, no Espaço Itaú Augusta, e no Playarte Marabá dia 30, às 16h10.

p.s.: Outra pepita desta nesta segunda está agendada às 20h10, no Playarte Marabá: o genial Nico, 1988, de Susanna Nichiarelli. Romana de berço, a diretora do tenso Cosmonauta (2009) nos brindou com o melhor filme do fim de semana inicial da 41º Mostra de SP. Chega a dar nó no peito a atuação da dinamarquesa Trine Dyrholm (A Comunidade) na pele trincada da cantora de hits como These Days. A musa do Velvet Underground é vista aqui sem maquiagens, sem perspectivas de melhora. A trama conta os últimos dois dias dela, que nasceu Christa Päffgen a.k.a Nico, mas se deixou carcomer pelas drogas.