Pepitas brasileiras em Tiradentes e Berlim

Pepitas brasileiras em Tiradentes e Berlim

Rodrigo Fonseca

21 Janeiro 2016 | 14h36

“Urutau” é um ensaio sobre solidão com base em um assunto espinhoso, que promete incendiar Tiradentes: pedofilia

Eternizado nas retinas cinéfilas como um marco da ruptura de fronteiras entre ficção e documentário, Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, vai ser projetado amanhã, às 21h, no coração de Minas Gerais na abertura da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes, evento que inaugura o circuito nacional de festivais. Até o dia 30, serão projetados 35 longas e 81 curtas-metragens, o que aponta para uma diversidade de ofertas estéticas. Nesse menu, que inclui trabalhos recentes de mestres como Julio Bressane (Garoto) e Ruy Guerra (Quase Memória), destaca-se uma produção de DNA carioca de baixíssimo orçamento mas de farta inventividade em sua construção narrativa: Urutau. Com exibição agendada para o dia 25, às 18h, no Cine Tenda, o filme, dirigido pelo estreante Bernardo Cancella Nabuco, é uma promessa de polêmica. Sua trama é estruturada a partir do abuso sexual, com base na relação de um adolescente (Nicolas Sambraz) e um homem mais velho (papel de Gerson Delliano) com quem vive desde menino.

“Apesar de trazer à tona, em uma primeira análise, uma discussão importante acerca da pedofilia, pretendi, em Urutau, tratar também de outros temas que afligem, com recorrência, a existência humana, tais como a solidão, a culpa e o medo do desconhecido. Nesse contexto, inegavelmente, estão também presentes o desejo e a carência, sentimentos comuns a quase todos os indivíduos. Assim, ao longo do filme, quis mostrar que, mesmo exposto a relações patológicas e por vezes opressivas, o ser humano tem enormes dificuldades em romper com a situação de momento e iniciar uma nova jornada. Aliás, o conflito e a dualidade estão presentes em todo o filme. Deseja-se algo que, no minuto seguinte, pode ser deixado de lado”, diz Nabuco.

Com um domínio preciso dos enquadramentos e uma inquietação existencial de maturidade rara para um cineasta iniciante, Nabuco faz em Urutau um ensaio sobre a solidão a partir do desejo.

Urutau trata do eterno desejo do homem pela liberdade e sua difícil missão de saber lidar com ela quando adquirida”, explica o cineasta. “Por vezes, passamos uma vida inteira em busca de algo que nos falta. Contudo, infelizmente, quando temos a real oportunidade de uma transformação completa, não é raro perceber que temos enormes dificuldades de nos libertarmos dos problemas passados, que nos aprisionam eternamente, e seguirmos em frente, na busca por um recomeço”.

“Muito Romântico”: Brasil no Forum Expanded de Berlim

Sobre Berlim…

Foram divulgadas hoje as produções que integram a seção Forum Expanded, do 66º Festival de Berlim, reunindo exercícios de pesquisa de linguagem capazes de dialogar com a memória do Cinema e com as Artes Plásticas. O cinema brasileiro entrou nessa seleta com Ruína, de Gabraz Sanna, e com Muito Romântico, um projeto gestado ao longo de uma década por Melissa Dullius e Gustavo Jahn, com produção de Gustavo Beck. Este experimento de rearranjo de sensorialidades é fruto de uma viagem na qual Gustavo e Melissa deixaram o Brasil a bordo de um navio cargueiro. Eles cruzaram o oceano ao longo de um mês para se estabeleceram na Europa. Dali nasceu uma forma de narrativa capaz de mesclar Passado e Presente.

No Fórum Expanded haverá ainda, no setor de exposições, a exibição de A Mina dos Vagalumes, de Raphaël Grisey.

O Brasil integra também a seleta de curtas-metragens em concurso: Das Águas Que Passam, do capixaba Diego Zom. Comenta-se que até dia 25 serão conhecidos todos os filmes do evento, incluindo os da seleção Panorama, para o qual especula-se a presença de três longas com o Brasil em seu DNA. Corre um zumzumzum forte sobre a inclusão do documentário Curumim, de Marcos Prado, e o drama Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert, mas nada foi confirmado pela direção do evento alemão até agora.