Os achados da Mostra de SP 2017 até agora

Os achados da Mostra de SP 2017 até agora

Rodrigo Fonseca

23 Outubro 2017 | 02h33

Trine Dyrholm solta demônios ao cantar em “Nico, 1988”: Horizontes premiados em Veneza

Rodrigo Fonseca
Sobrou coisa boa no primeiro fim de semana da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo edição 41. Confira o que mais brilhou e quais terão novas sessões:

Nico, 1988, de Susanna Nichiarelli: Romana de berço, a diretora do tenso Cosmonauta (2009) nos brindou com o melhor filme do fim de semana inicial da 41º Mostra de SP. Chega a dar nó no peito a atuação da dinamarquesa Trine Dyrholm (A Comunidade) na pele trincada da cantora de hits como These Days. A musa do Velvet Underground é vista aqui sem maquiagens, sem perspectivas de melhora. A trama conta os últimos dois dias dela, que nasceu Christa Päffgen a.k.a Nico, mas se deixou carcomer pelas drogas. Vai ter bis dele nesta segunda, às 20h10, no Playarte Marabá. Perde não.

Sobrenatural, de Juan Figueroa: Não espere diálogos ou uma trama em aceleração do diretor de Fazedor de Montanhas (2008). Sob muito silêncio, acompanhamos o ritual de um velho toureiro antes de entrar na arena uma vez mais. Imagens de arquivo dão a medida de quem foi aquele homem em uma juventude que parece há muito sumida. Uma nova exibição está marcada para o dia 31, às 18h, no Playarte Splendor Paulista.

O ator José de Abreu tem seu melhor desempenho no cinema, em 30 anos, em “Antes Que Eu Me Esqueça”

Antes Que Eu Me Esqueça, de Tiago Arakilian: Desde Anjos do Arrabalde (1987), José de Abreu não recebia do cinema brasileiro um personagem com o tamanho de seu ferramental dramático – o que muda agora na interpretação do juiz Polidoro. Ausente dos tribunais, o magistrado resolve bancar a reforma de uma casa de strip-tease em Copacabana. Caberá ao filho com quem ele não se dá há anos, o músico Paulo (Danton Mello) ajudar seu velho, especialmente na peleja contra o Alzheimer. Guta Stresser dá um show de humor na pele da garota de programa Joelma e ainda rola participação de Dedé Santana. A montagem de Quito Ribeiro administra bem a gravitação da narrativa do riso ao melodrama. Tem mais duas doses desta dramédia na Mostra: nesta quarta, às 16h40, no CineSesc, e no dia 1º, às 14h, no CineArte 2.

4 Dias, de Michalis Giagkounidis: Clara Grammatiki ilumina a tela com seu rosto de flor correndo pela Grécia, com uma câmera na mão, a documentar expressões de estranhos. Mas um rapaz vai cair de amores por ela enquanto a moça nos leva por um circuito de assombros, misérias e excentricidades de um estado grego arruinado. Tem mais uma prova dele no domingo, às 14h, no Espaço Itaú Augusta.

“Esplendor”; Naomi Kawase no auge

Bikini Moon, de Milcho Manchevski: Trabalho zero km do realizador macedônio que desafiou as teses deleuzianas sobre “imagem-tempo” com Antes da Chuva (1994). Em sua trama, uma sem-teto dos EUA atrai olhares de uma equipe de documentaristas, que desejam representar a vida dela como um conto de fadas. Mas ela vai subverter o projeto do grupo. Tem mais nesta segunda, às 19h, no Espaço Itaú Frei Caneca.

 Não Devore Meu Coração, de Felipe Bragança: Mais fabular (e mais virulento) de todos os mergulhos recentes do cinema nacional do Centro-Oeste, com um roteiro lotado de falas poéticas, o filme do diretor carioca (conhecido por projetos como A Alegria) é uma azeitada mistura de Meu Primeiro Amor com O Selvagem da Motocicleta, temperado a litros de catuaba. Numa reinvenção de seu arquétipo de galã, Cauã Reymond, atual astro rei da TV brasileira, vive o motociclista Fernando a.k.a. Dezembro, integrante explosivo de uma gangue na fronteira entre Brasil e Paraguai. Tem uma overdose dele nesta quinta, no circuito SPcine, às 19h30. E há mais uma sessão no dia 31 na Cinesala, às 19h45.

Vênus, de Lea Glob e Mette Carla Albrechtsen: Parceira de Petra Costa em Olmo e a Gaivota (2015), a dinamarquesa Lea Glob se une a uma jovem curta-metragista a fim de documentar palavras e corpos de mulheres convidadas para estrelarem um filme erótico com base nos relatos que elas trouxerem. O resultado é um jogral entre fato, ficção, memória, exagero e nudez. O Espaço Itaú de Cinema da Augusta exibe este .doc de novo nesta quarta, às 16h.

Esplendor, de Naomi Kawase: Dia 31 é a última chance para conferir toda a potência poética desta ode à imagem feita pela realizadora de A Floresta dos Lamentos (2007): tem sessão às 20h10 no Espaço Itaú Frei Caneca. Mais do que uma história de paixão, ao retratar o enlace entre uma jovem cineasta (responsável por preparar filmes para deficientes visuais) e um fotógrafo que está perdendo a visão, o novo filme da diretora de Sabor da Vida (2015) é um ensaio sobre transcendência pela imagem e a importância do audiovisual para a preservação de um tempo e de um ethos. Ganhou o Prêmio do Júri Ecumênico em Cannes.