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Oportuno, necessário, obrigatório: ‘Fuocoammare’ chegou à Berlinale para ganhar
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Rodrigo Fonseca

13 Fevereiro 2016 | 13h52

Produção italiana, dirigida pelo premiado realizador de "Sacro Gra" (2013), "Fuocoammare" revê toda a tradição realista do cinema italiano ao construir um mosaico sobre o drama dos refuciados

Produção italiana, dirigida pelo premiado realizador de “Sacro Gra” (2013), “Fuocoammare” revê toda a tradição realista do cinema italiano ao construir um mosaico sobre o drama dos refuciados: o tema do momento no mundo

Com cerca de 6 mil habitantes dedicados, em sua maioria, à agricultura e à pesca, sob as bênçãos das águas do Mediterrâneo, a Ilha de Lampedusa, no sul da Itália, entrou a partir deste sábado, 13 de fevereiro, no imaginário do planisfério cinéfilo ao se tornar palco (e objeto) do filme mais aplaudido da Berlinale 2016 até agora: Fuocoammare. É, desde já, o longa-metragem mais comentado (e elogiado), tendo chegado aqui à capital alemã, na disputa pelo Urso de Ouro, com uma faixa de “Já ganhou”, por dar voz, carne e dor ao assunto do momento na cidade – e, quiçá, no planeta – a condição dos refugiados políticos. Nascido na Eritreia, na África, sob nacionalidade italiana, o diretor Gianfranco Rosi veio aqui já com o prestígio em alta, por conta do respeito que conquistou mundialmente após receber o Leão de Ouro, em Veneza, em 2013, por Sacro GRA. Mas sua respeitabilidade tende a aumentar em função do debate que seu novo documentário inflamou em território germânico. E não é só afinação com uma discussão oportuna: é um trabalho de estrutura narrativa arrebatadora. É poema e denúncia.

“Existe uma tragédia ocorrendo neste momento diante dos nossos olhos e somos todos responsáveis por ela”, disse o cineasta de 51 anos na Berlinale.

O pequeno Samuelle e seu mundinho mediterrâneo

O pequeno Samuelle e seu mundinho mediterrâneo

Construído como uma colcha de retalhos sobre situações cotidianas de Lampedusa, Fuocoammare define para si uma espécie de protagonista: o menino Samuele. Aos 12 anos, sempre com um estilingue em punho, ele desfruta da paisagem mediterrânea ao seu redor comendo espaguete com lula, subindo em árvores, escalando formações rochosas e acompanhando, com uma ingenuidade quase infantil (tão infantil quanto a nossa) a chegada contínua de africanos que se refugiam naquele oásis insular. Alguns chegam feridos, muitos ficaram doentes, quase todos estão esfomeados. Ouvem-se gritos, choros, lamentos em línguas distintas. Samuelle incorpora a tragédia como se fosse parte de seu dia a dia. Uma onda a mais no mar. A alienação é retratada por Rosi em respeito ao universo lúdico de sua idade. Sabemos quem ele é, entramos em sua casa, participamos de sua brincadeira.

O mundo de Samuel tem pouco mais do que 20 quilômetros quadrados. Mas cabe o Mundo com o “M” de todas as maldades relativas à exclusão naquele cantinho céu. Com planos-sequência de uma elegância formal rara, o filme dialoga com toda a tradição neorrealista da Itália para mostra uma “cidade aberta” ao holocausto da expatriação. Há camadas diversas no documentário. Platôs a serem escalados com calma (e com prazer) ou, por vezes, com horror. Mas o diretor não se deixa flertar com o sensacionalismo. Suas imagens não são signos fechados. Há uma reflexão nova a cada plano. Assim como Samuelle tem suas idiossincrasias, como o fato de sentir uma falta de ar paranóica, o longa vai revelando as nossas, em relação ao altruísmo e a negligências silenciosas, cometidas sem a nossa consciência.

 

O ranking de Berlim até agora:

Fuocoammare

  1. Fuocoammare, de Gianfranco Rosi;
  2. Midnight Special, de Jeff Nichols;
  3. Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert
  4. Posto Avançado do Progresso, de Hugo Vieira da Silva;
  5. Shepherds and Butchers, de Oliver Schmitz.

É importante ressaltar o quanto o longa de Jeff Nichols fez bem a este festival: eventos deste tipo são pouco afeitos a filmes-espetáculo como a ficção científica Midnight Special, cuja habilidade em driblar convenções hollywoodianas de escrita de roteiro traz um frescor para a seara do cinema de gênero. A atuação de Michael Shannon é irretocável. Numa corrida frenética, pontuada pela violência, ele é Roy, um pai capaz de tudo para impedir que o Governo se apodere de seu filho, portador de poderes paranormais. As analogias com Contatos Imediatos do Terceiro Grau são inevitáveis e merecidas. São indícios da erudição cinéfila de um realizador em maturação em sua estrada de cronista da paranoia, que ele pavimenta desde O Abrigo (2011).

Michael Shannon e Kirsten Dunst em "Midnight Special"

Michael Shannon e Kirsten Dunst em “Midnight Special”

O Troféu Chucrute de pior, até agora, segue com:

Boris Sans Béatrice, do canadense Denis Côté.

 

E haja fôlego porque, no dia 18, tem a sessão de oito horas de duração do filipino A Lullaby to the Sorrowful Mystery, de Lav Diaz. Aff…

 

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