O que não se pode perder – de jeito nenhum – no Festival do Rio 2016

O que não se pode perder – de jeito nenhum – no Festival do Rio 2016

Rodrigo Fonseca

04 Outubro 2016 | 12h06

Cartaz estrangeiro de

Cartaz estrangeiro de “A Chegada”, filme abre-alas

RODRIGO FONSECA 


Dirigido pelo canadense Denis Villeneuve, a ficção científica A Chegada será exibida nesta quinta, na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, dando a largada para o Festival do Rio 2016, que abre as portas para o público nesta sexta, totalizando dez dias de programação pela frente. Confira a seguir o que não se pode perder…

 

  1. Toni Erdmann: Contemplado com o prêmio da Fipresci, a Federação Internacional de Críticos de Cinema, no Festival de Cannes, esta impagável comédia alemã sobre o acerto de contas de filha e pai, dirigida pela cineasta Maren Ade, é o longa-metragem mais cotado (desde já) ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2017, à força de sua narrativa surpreendente. A longa (e hilária) sequência de uma festinha sem roupa ficou para a História da Croisette como uma apoteose para o riso. Na trama, a empresária Ines (Sandra Hüller, numa atuação antológica) recebe a indesejada visita do homem que a gerou (e a quem ela não perdoa pelas ausências do passado): o pianista Winfried (Peter Simonischek, ótimo). Mas este fará de tudo para reaver o amor dela… até se disfarçar, criando um personagem padrão Zacarias dos Trapalhões.

    “Toni Erdmann”: favorito da crítica em Cannes, a comédia alemã desponta na briga pelo Oscar de filme estrangeiro

  2. A Região Selvagem: Máquina de exportar talentos de direção para Hollywood, tipo Alfonso Cuarón e Alejandro González Iñárritu, o México preservou em sua divisas um de seus mais ousados realizadores: Amat Escalante, ganhador do prêmio de melhor diretor em Cannes, em 2013, com o ensaio social policial Heli. Agora, por esta análise das neuroses sexuais e impotências corruptas de sua pátria, ele ganhou o prêmio de melhor diretor em Veneza. Erótico até o limite da perversão, esta produção investiga a atomização da instituição “família” a partir da aparição de um monstro que satisfaz os desejos de quem o procura atrás de prazer. Isso vai acontecer com uma jovem pobre, sogra de uma empresária excludente, ao descobrir que seu marido a trai com outro homem – não por acaso, o caso dele é o irmão dela.

    “A Região Selvagem”: México autoral

  3. Eis os Delírios do Mundo Conectado: Numa ascensão contínua de sua carreira como documentarista, mais avançada hoje do que sua porção ficcionista, o mestre alemão Werner Herzog (O Homem-Urso) surpreende mais uma vez nosso olhar com um ensaio reflexivo sobre a nossa dependência digital. Fiel à sua cruzada autoral (que nos deu, por exemplo, Aguirre – A Cólera dos Deuses) para flagrar a loucura nas instâncias mais institucionalizadas, o cineasta flagra o quanto o mundo virtual nos controla.

    O cartaz americano de

    O cartaz americano do novo Herzog: “Eis os Delírios do Mundo Conectado”

  4. De Palma: Avesso às convenções classistas e políticas de Hollywood, Brian de Palma foi alijado da indústria, mesmo sendo um dos mais potentes diretores que o cinema americano conheceu, com obras-primas como Dublê de Corpo (1984) no seu currículo. Neste documentário-tributo, Noah Baumbach e Jake Paltrow analisam o processo de direção do realizador de Os Intocáveis (1987), expondo as razões que fazem dele um mito autoral, incompreendido e rejeitado;

    Investigação documental sobre o diretor de

    Investigação documental sobre o diretor de “Os Intocáveis” em cartaz

  5. Ternos Caçadores: No auge de sua fama internacional, após a conquista do Urso de Prata em Berlim, por Os Fuzis (1964), o diretor moçambicano radicado no Brasil Ruy Alexandre Guerra Coelho Pereira filmou em Saint-Malo, na França, a saga do biólogo Allan (Sterling Hayden, ator-xodó de Kubrick), um estudioso de pássaros, às voltas com a chegada de um prisioneiro fugido em sua ilha. A seleção deste cult nos oferece uma raríssima chance de se conhecer em tela grande a porção mais cosmopolita da obra do realizador de Quase Memória;

    “Ternos Caçadores”: o jovem Ruy Guerra

  6. Barakah Com Barakah: Representante da Arábia Saudita na corrida pelo Oscar de filme estrangeiro de 2017, esta produção, acolhida com sucesso no Festival de Berlim, de onde saiu com um prêmio do júri ecumênico, narra com leveza a história de amor entre um pobretão, funcionário do aeroporto de Jidá, e uma ricaça, famosa por um vlog. Para se amarem, eles precisam driblar as tradições de seu país. Mas ambos são inteligentes o suficiente para isso. A direção é do estreante Mahmoud Sabbagh, que dialoga com toda a tradição das comédias românticas, apoiado na química comovente entre seus protagonistas: Fatima AlBanawi e Hisham Fageeh.

    “Barakah com Barakah”: amor saudita

  7. Lúcia McCartney, Uma Garota de Programa: Entre todos os diretores do Cinema Novo brasileiro, David Eulálio Neves (1938-1994) é o menos estudado e, quiçá, o menos compreendido em sua potência como realizador, em parte por ter dedicado sua vida – nos anos 1960 – a ajudar os colegas de movimento. Mas neste thriller policial de 1971, com base na literatura de Rubem Fonseca, é possível compreender todo o brilhantismo de sua composição de planos. E tem Paulo Villaça (1933-1992), o eterno Bandido da Luz Vermelha, numa versão (livre) do advogado e faz-tudo Mandrake, o anti-herói nº1 do escritor.

    Lúcia mcCartney, Uma Garota de Programa: David Neves assina a direção

    Lúcia McCartney, Uma Garota de Programa: David Neves assina a direção

  8. Drácula: Se a ideia do Festival do Rio é festejar a memória macabra da Universal, no investimento que o estúdio fez no terror no início do século XX, nada mais justo do que rever o melhor desses exercícios pelas veredas do horror: a versão de Tod Browning para o romance de Bram Stoker, tendo o húngaro Béla Ferenc Dezsõ Blaskó (1882-1956), ou melhor, Bela Lugosi, como seu conde bebedor de sangue. A atuação de Bela deve ser estudada para quem precisa entender a representação do Mal.

    Bela Lugosi, vampiro Universal

    Bela Lugosi, vampiro Universal

  9. Nocturama: Filme-sensação do Festival de San Sebastián, este jogral do terror joga luz sobre o engenho criativo do diretor francês Bertrand Bonello (Saint Laurent) a partir de uma narrativa labiríntica, a partir da qual um grupo de adolescentes de Paris, sem um projeto político aparente, espalha explosivos plásticos por toda a cidade, demolindo símbolos (e a moral) da França.

    “Nocturama”: o jogral do terror

  10. Wiener-Dog: Mesmo sem o prestígio de que desfrutava nos tempos de Felicidade (1998), Todd Solondz, o mais pessimista dos diretores da seara indie dos EUA, volta aqui com seu humor negro em riste, trazendo Danny DeVito como um roteirista e professor de dramaturgia derrotado, às voltas com o desprezo alheio. O filme é uma colagem de quatro historietas alinhadas pelo amor dos personagens a seus cães, inclusive um salsichinha chamado Câncer.

“Wiener-Dog”: Solondz de quatro patas

Não há como se posicionar ainda em relação às produções brasileiras em concurso, com uma exceção: o azeitado Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé, porque este o P de Pop já viu, lá em San Sebastián, na Espanha, de onde ele saiu com uma menção honrosa entre os filmes de coprodução. O desempenho de José Dumont é de lavar a alma, não apenas pelo regresso do homem que virou suco ao écran, mas pelo coeficiente de riso alcançado por seu personagem, Apolo. Espécie de agitador cultural teatral, ele é um dos moradores de uma hospedaria para onde convergem refugiados estrangeiros e um time sem teto de São Paulo. Vimos também, lá em Berlim, o possante Curumim, o exercício mais maduro de Marcos Prado (Estamira) como realizador, expresso como um ensaio sobre (e contra) a pena de morte, estruturado a partir das horas finas de um surfista brasileiro (Marco Archer) morto na Indonésia. Notabilizamos também aqui um curta de pura invenção, egresso do Ceará: Janaína Overdrive, sobre uma heroína trans em Nordeste à la Blade Runner.

“Curumim”: morte na Indonésia

No mais, só restam apostas e uma curiosidade mais alentada por certos filmes. Os ímãs de atenção, por aqui, neste momento, ficam com:

  1. a estreia do talentoso diretor de TV José Luiz Villamarim como cineasta no drama de CEP mineiro Redemoinho, com roteiro de George Moura;
  2. a imersão de Andrucha Waddington no thriller hospitalar com Sob Pressão, o que traz o cineasta (um dos mais sofisticados do país em termos do trato com o quadro, com o plano) para uma seara urbana de ação;
  3. o amadurecimento artístico na medida de risco do comediante Marcos Veras, ao assumir um papel dramático na versão para as telas de O Filho Eterno;
  4. a chance de (re)ver Nelson Xavier, um dos maiores atores deste país, num posto de protagonista em Comeback, fazendo um matador de aluguel;
  5. a imersão do baiano Sérgio Machado (de Cidade Baixa) no terreiro do boxe com A Luta do Século;
  6. a estreia na direção de longas de Cristiane Oliveira, realizadora de ótimos curtas, como Messalina (2004) e Hóspedes (2009), em Mulher do Pai, com a dinamite humana Marat Descartes na pele de um cego às voltas com o desejo;

Ainda falando de Brasil, na seara fora de concurso, é obrigatória a oportunidade de rever Lavoura Arcaica em tela grande, na comemoração de seus 15 anos. Igualmente imprescindível é a chance de ver nas telonas cariocas o longa ganhador de Gramado, lá em agosto: BR 716, do mestre (agora octogenário) Domingos Oliveira, que revelou ao cinema a talentosa Glauce Guima.

Tome fôlego e se prepare. A maratona carioca vai começar.