O que não se deve perder no Festival do Rio 2017

O que não se deve perder no Festival do Rio 2017

Rodrigo Fonseca

01 Outubro 2017 | 12h27

Premiado em San Sebastián no sábado, dia 31/12, “Alanis”, da diretora Anahí Berneri, joga luz sobre a cena da prostituição argentina

Rodrigo Fonseca
Prepara o caderninho de anotações de dicas que o Festival do Rio vem aí: a maratona começa quinta, com uma projeção só para convidados, no Odeon, do Leão de Ouro de Veneza, a fantasia A Forma da Água. Quem dirige é Guillermo Del Toro, carregando os planos de fabulação. Daí, o evento vai “pra galera” a partir de sexta, começando com o obrigatório thriller indigenista americano Terra Selvagem (Wind River), que terá sessão no Kinoplex São Luiz às 16h30 e 21h30 do dia 6. Quem dirige é Taylor Sheridan, colocando Jeremy Renner pra caçar os assassinos de uma nativa. Dele em diante, é festa cinéfila até 15 de outubro, sendo que lá para o fim nos ficou o dever cívico de curtir a metafísica reflexão de Fellipe Gamarano Barbosa sobre a necessidade do desterro em Gabriel e a Montanha, um exercício poético de etnografia e saudade, laureado em Cannes, na Semana da Crítica. A atuação de João Pedro Zappa, que você confere no dia 11, no Odeon, é de lacrimejar retinas. Se o P de Pop tivesse que escolher um só filme – fora esses – que não se pode perder por nada, este seria:

 

A Fábrica de Nada, de Pedro Pinho: Laureado em Cannes com o prêmio da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica (Fipresci), a honraria da crítica, este experimento à moda portuguesa já valeria por uma frase: “O mundo não se divide mais entre Direita e Esquerda, mas sim entre aqueles que se submetem e aqueles dispostos a abrir mão de seus sonhos, dos telefones celulares, das viagens à Lua”. Mas ele nos dá mais do que ela. Na trama, um grupo de operários se encrespa com a administração de sua indústria (de elevadores) ao percebe que alguém da gerência está roubando máquinas e matérias-primas. Incomodados, eles fazem um levante, que tem um ônus: todos serão obrigados a permanecer em seus postos, sem nada para fazer, enquanto prosseguem as negociações para uma demissão coletiva. No ócio, acontecimentos e ritos nada usuais tomam conta do lugar, expressos como musical, drama, comédia absurda e documentário.


 

E daí temos, entre filmes que vimos e apostas quentes, o seguinte:

 

Dalida” tem o tempero de Sveva Alviti

Dalida, de Lisa Azuelos: Mesmo sendo cafona até dizer chega, num formato repolhoso de folhetim do SBT, esta biografia da cantora ítalo-egípcia Iolanda Cristina Gigliotti  (1933-1987) conquista nossa atenção e nosso respeito à força do desempenho da força da natureza Sveva Alviti. E a sequência regada a Il Venait d’Avoir 18 ans dilacera qualquer peito carente;

 Alanis, de Anahí Berneri: Sensação de San Sebastián, este drama sociológico hecho en Argentina mexeu com os brios locais, sobretudo o das feministas mais aguerridas por escancarar a realidade de garotas de programa que abraçam o ofício com orgulho. O projeto contou com a bênção e o apoio da Associação das Mulheres Meretrizes, um grupo criado por prostitutas para descriminalizar a profissão. Laureada com o prêmio de melhor direção (para Anahí) e de melhor atriz (para a dionisíaca atuação de Sofía Gala Castiglione), a trama acompanha os percalços de uma jovem, batizada em tributo à cantora e diva pop Alanis Morrissette. A protagonista aqui faz do corpo seu instrumento de trabalho;

 Em Pedaços, de Fatih Akin: Retrato em branco e preto da histeria terrorista em solo europeu, este thriller trágico do teuto-alemão Fatih Akin pôs Diane Krüger no posto das grandes atrizes do planeta na atualidade ao render a ela o prêmio de atuação em Cannes. Ela é uma viúva que busca vingança contra a célula neonazista que matou seu marido e seu filho, mergulhando no redemoinho da violência; 

No apogeu da forma em sua trajetória como documentarista, o crítico Nelson Hoineff toca o lado A e o lado B de Agnaldo Timóteo em “Eu, Pecador”

Eu, Pecador, de Nelson Hoineff: Estudo de caso sobre o percurso do cantor Agnaldo Timóteo da fama nacional a um certo obscurantismo na mídia, feito a partir da ótica provocativa de um documentarista no apogeu de sua forma. Se tocar A Galeria do Amor, o momento Miles Davis de Timóteo, o longa já merece nossa consagração;

 Bom Comportamento, de Josh e Ben Safdie: Os mais cassavetianos diretores da leva indie chamada “cinema murmúrio” investem no thriller e arrancam do galã inglês Robert Pattinson “a” atuação de sua carreira: o vampiro de Crepúsculo vive um ladrão de quinta categoria correndo contra o tempo para salvar o irmão;

Corpo e Alma, de Ildikó Enyedi: Taí uma história de amor que não se viu antes, cujo tom original deu a ela o Urso de Ouro em Berlim. Uma love story entre raspas, restos e rios de sangue de bois que são abatidos diariamente no matadouro onde seus personagens – ela, uma taciturna e suicida fiscal de qualidade; ele, um administrador com um braço paralisado – desenvolvem algo próximo de um romance;

“Corpo e Alma”: alces e Urso dourado

120 Batimentos Por Minuto, de Robin Campillo: De rasgar corações, este drama recria as campanhas em defesa dos portadores de HIV na França, nos anos 1990: junta uma pá de causos sobre soropositivos às voltas com a Morte. Doído, mas primoroso na forma, com aura de filme-piquete, o longa virou sensação em Cannes em maio. Saiu de lá com o Grande Prêmio do Júri, a láurea da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) e uma legião de fãs;

 Berenice Procura, de Allan Fiterman: Uma entrada pro universo policial de Luiz Alfredo Garcia-Roza a partir de seu maior estandarte feminino, a taxista Berenice, vivida aqui por Claudia Abreu. Dizem por aí que seu roteiro é um primor;

A Ciambra, de Jonas Carpigiano: Com DNA brasileiro, uma vez que é fruto da parceria entre Martin Scorsese e a produtora paulista RT Features, o drama geracional italiano A Ciambra conquistou em Cannes o prêmio Europa Cinemas Label, um incentivo à sua circulação nas salas do Velho Mundo. Num diálogo estrito entre ficção e documentário, esta produção narra as peripécias de um menino da Calabria para ganhar a vida – sem sempre de modo honesto. Teve resenha na Croisette comparando-o a Os Incompreendidos (1959), de François Truffaut. Sua exibição em terras cannoises foi na Quinzena dos Realizadores;

O Diabo e o Padre Amorth, de William Friedkin: Mesmo se dizendo ateu convicto, o diretor de O Exorcista (1973) revisita o Diabo neste documentário sobre um veterano sacerdote especializado em peitar as forças das Trevas;

Luca Guadagnino dirige Armie Hammer em “Me Chame Pelo Seu Nome”

Me Chame Pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino: Com um punhado de bons filmes em seu enxuto currículo (tipo Interestelar) e já reservado para o próximo Woody Allen, o jovem Timothee Chalamet tem todas as credenciais para ser indicado ao Oscar por esta descabelada love story LGBT que arranca elogios e suspiros (mesmo de héteros convictos) por onde passa. Foi assim em Sundance, em Berlim e em San Sebastián. Ele é um músico em formação que cai de amores por um orientando (Armie Hammer) de seu pai na Itália dos anos 1980. O domínio do Tempo nesta narrativa é absurdo. Rodrigo Teixeira (de Alemão) é um dos produtores do longa, cotado para várias estatuetas da Academia hollywoodiana;

Menashe, de Joshua Z. Weinstein: Sensação no Festival de Berlim, onde integrou a seleção da seção Fórum, esta dramédia falada em iídiche retrata a luta de um judeu ortodoxo viúvo para preservar consigo a guarda de seu filho. Há um cuidado quase obsessivo da direção para evitar qualquer tangência com a caricatura, o que acaba facilitado pelo desempenho do ator Menashe Lustig na construção do papel principal. Com seu jeitão atrapalhado, o personagem é um convite a gargalhadas a cada novo deslize que comete.

Da competição, da Première Brasil, salivamos aqui por Iran, e toda a inquietação documental de Walter Carvalho; pelo desempenho de Murilo Benício em Animal Cordial; pelo som e pela fúria de Maeve Jinkins em Açúcar; pela reflexão ética de Silvio Tendler em Dedo na Ferida; e pelo potencial rigor dramatúrgico de Aos Teus Olhos, pra sacar a evolução de Carolina Jabor como realizadora. O resto, a gente descobre na prática.