O nocaute de Pigossi e Juliana Lohmann no realismo

O nocaute de Pigossi e Juliana Lohmann no realismo

Rodrigo Fonseca

14 Outubro 2017 | 12h52

Afinados, Juliana Lhomann e Marco Pigossi revivem a trajetória de um casal acossado pelo crime em “A Última Chance”

Rodrigo Fonseca
Dramaturgias esportivas são, em geral, narrativas de redenção, cuja jornada tem como ponto de chegada a vitória (ou a loucura, no caso do precioso Heleno). Porém “vitória” é uma palavra prostituta em A Última Chance, um prazeroso exercício de criativo de veteranos talentos do nosso cinema (o diretor Paulo Thiago, fotógrafo Antonio Luiz Mendes) que se apresenta como uma espécie de ensaio poético (de lírica seca) sobre a perseverança. Existem engasgos e derrapadas na edição de certas cenas, sobretudo em algumas sequências de luta, mas nada disso dilui o efeito de imersão que o filme gera, ao desromantizar (ao limite do sufoco) a saga de um campeão de muay thai e ao focar mais (e melhor) numa geopolítica carioca invisível à mídia ficcional. É um filme com ethos de documento sobre a vida sub-urbana, sobre o periférico, o RJ excluído. Nos 45 minutos do segundo tempo do Festival do Rio 2017, o galã Marco Pigossi subiu num ringue para uma luta com o Realismo e extraiu da peleja não apenas uma atuação vívida (a inteligência no uso de seu ferramental cênico é mais atraente do que o tônus trágico de seu personagem), mas também um senso rico de reflexão sobre a exclusão. Seus nocautes só se equiparam ao que a brasa chamada Juliana Lohmann incendeia em cena, compondo uma mulher que desafia convenções arquetípicas. É um frescor ver os dois em cena, como casal, numa trama cujo argumento tem o dedo (e a sabedoria) do escritor Julio Ludemir (de Lembrancinha do Adeus).

Fábio Leão em combate no ringue

Uma câmera observadora, seca, abre mão do sépia e do cinza jornalistíscos para se embrenhar por uma Vila Kennedy recriada por Paulo Thiago – numa comunhão de olhares com a fotografia de Antonio Luiz Mendes – no registro de ambientes por onde o ex-presidiário e instrutor de lutas marciais Fábio Leão (papel que Pigossi devora) passa numa epopeia de desacertos, crimes e chutes perfeitos. Dono de um histórico de 20 anos de crime, Leão virou bamba do MMA e passou a ensinar muay thai, primeiro para crianças, depois para presos. O filme dá um mergulho no bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro onde ele cresceu com uma lupa fenotípica: algo do abandono social local favoreceu a falha trágica dentro dele que o impele ao crime. A medida dessa falha DELE são as boas almas que o cercam, sobretudo Luciana (Juliana, beirando o tom das mulheres neorrealistas, como a Carmela de Paisà), a mãe (Helena Varvaki) e o amigo Bruno (Erom Cordeiro, sempre no ponto certo). Apesar desses dois, ele entra e sai da trilha do mal sempre que sua fraqueza interna e um vetor chamado Pobreza (estamos no realismo, não esqueça) batem à sua porta.

Em 2015, Leão voltou a ser detido por porte de arma. Mas a prisão foi cercada de controvérsias acerca do passado do lutador. Ele começou com furtos, aos 9 anos, e, aos 17, virou uma liderança do tráfico carioca, envolvido com clonagem de carros. Na prisão, ele muda de vida, convertendo-se a um credo evangélico e iniciando seus treinos para lutar e lecionar, a fim de cuidar da filha com Luciana. O filme não entra em seus delitos de agora. Mas também não fica em seus combates. Não é Rocky, um Lutador e sim uma discussão sobre como perseverar diante dos próprios erros. Dá pra sentir nos procedimentos cinematográficos de Paulo Thiago a influência de Rocco e Seus Irmãos (1960). Pigossi é seu Alain Delon de subúrbio. Seu Renato Salvatori é Jackson Antunes, perfeito no papel de um Papai Noel dos pobres, um político com meios tortos.

Essa influência se nota porque a cinefilia segue o diretor mineiro em seus 50 anos no ofício. A Última Chance é a estreia dele no terreno da violência urbana do Rio, tema que ele regurgita sem os ácidos do filão favela movie. E isso dá a ele um frescor e dá ao filme um azeite de raro sabor. Como vem de um histórico de diferentes gêneros, indo da crônica policial (Águia na Cabeça) a épicos rurais de unho intimista (caso do memorável Os Senhores da Terra), Paulo Thiago encara o universo à sua frente com liberdade para subverter expectativas. E encontra em Juliana e em Pigossi parceiros de luta bons de briga. Com eles, gera uma história sobre um Brasil que pode dar certo. Algo muito bem-vindo.

Neste domingo, o Festival do Rio exibe A Última Chance de novo, às 16h15, no Roxy.