O monumental cinema de Wang Bing em Cannes

O monumental cinema de Wang Bing em Cannes

Rodrigo Fonseca

09 Maio 2018 | 21h57

“Dead Souls”:cicatrizes chinesas

Rodrigo Fonseca
Em dia de Marvel na Croisette, com Pantera Negra no Cinéma de la Plage, e de afago a Martin Scorsese na entrega da Carroça de Ouro de 2018, Cannes abriu seu flanco para uma ousadia: um documentário de OITO horas de duração, vindo da China. Dead Souls é um trabalho inédito do chinês Wang Bing (do soberbo A Oeste dos Trilhos) sobre exilados políticos que, há 60 anos, mofam no deserto de Gobi. Por razões óbvias de metragem, o longa não entra na peleja pela Palma, mas concorre ao troféi L’Oleil d’Or, dado em 2017 a Agnès Varda, pelo doce Visages, Villages, e em 2016 a Eryk Rocha, por Cinema Novo. Seu maior rival promete ser o trabalho inédito de Wim Wenders sobre o Vaticano: Pope Francis – A Man of his Word.

Tônica investigativa similar a de Bing dá norte a um dos títulos mais esperados da mostra Semana da Crítica: o desenho animado documental Chris the Swiss. Nele, a cineasta suíça Anja Kofmel reconstitui a morte de seu primo, um jornalista que pesquisava a guerra entre os povos da extinta Iugoslávia. Também há recursos de animação em Samouni Road, do italiano Stefano Savona, incluído na Quinzena dos Realizadores. Nele, o diretor anima depoimentos de moradores de uma zona rural vizinha à Faixa de Gaza que foi destruída por conflitos armados.

O melhor filme de Cannes até agora é Wildlife, recriação da América de 1960 pelas afiadas mãos de Paul Dano, ator de Pequena Miss Sunshine (2006), que se mostra um diretor mais do que refinado ao lidar com cicatrizes morais e afirmação feminina. O drama sobre a ruína de um casal (Carey Mulligan, sublime, e Jake Gyllenhaal) fez reluzir a abertura da Semana da Crítica.  

Ainda acerca das seções paralelas de Cannes, o grande destaque deste fim de semana, nesta sexta, é a projeção de duas coproduções brasileiras: entramos em dobradinha com Portugal em Diamantino, atração da Semana sobre um jogador similar a Cristiano Ronaldo; e vamos pra Quinzena dos Realizadores com Los Silêncios, tendo Enrique Diaz nos confins da Colômbia, sob a direção de Beatriz Seigner.

Na competição pela Palma de Ouro, tudo segue morno: depois do desastrado Todos Lo Saben, filmado em Madri pelo iraniano Asghar Farhadi, o balneário amargou as lágrimas apelativas do drama egípcio Yomeddine, de A. B. Ahawky, diretor estreante nascido no Cairo. No filme dele, com cara de We Are The World, um ex-interno de um leprosário embarca numa jornada em busca de uma vida mais feliz. Na quinta, a cidade recebe, L’Été, do russo Kirill Serebrennikov, e Plaire, Aimer et Courir Vite, do (insuportável) francês Christophe Honoré.