‘O Mecanismo’: direção inflamável

‘O Mecanismo’: direção inflamável

Rodrigo Fonseca

26 Março 2018 | 14h55

Rodrigo Fonseca
Amanheci o dia nas engrenagens de O Mecanismo, sem conseguir pregar os olhos episódio após episódio, impressionado pela maestria da série da Netflixno domínio pleno das ferramentas do thriller e no talento de Enrique Diaz para exponenciar o valor irônico de uma rubrica de texto. Não encaro Janete Ruscov como Dilma Rousseff nem João Higino como Lula: são Janete e João, pessoas de papel, sendo ela muito bem defendida por Sura Berditchevsky; e ele vivido com pathos de bufão por um iluminado Arthur Kohl. Cada vez que que a gente se aproxima do “vilão”, o doleiro Roberto Ibrahim, com o qualEnrique pinta e borda, num show de humanismo, percebemos nele sazonais virtudes. Da mesma forma, a cada palavra dos “mocinhos”, sobretudo da delegada Verena Cardoni (Carolina Abras, construindo uma anti-heroína brasileira de solidez inquestionável), sentimos desejo de justiça, sentimos senso de dever, mas vermos traços de imperfeições, de obsessões, de vaidades. E nada se põe de modo explícito, pelo verbo, por “roteiradas”, mas pela sensorialidade da câmera quase convulsiva de Lula Carvalho, que reflete as inconstâncias diante de uma matéria moral tão turva. A direção é impecável, seja dos episódios de Padilha seja de outros, com destaque para ótimo trabalho de Felipe Prado.

Entendo e respeito a indignação de quem se sentiu ofendido com o seriado, mas não tive a mesma sensação. Seja petralha ou coxinha, esquerda ou direita, você sairá da série desconjuntado pela progressão aritmética de desvios de dinheiro público e pela progressão geométrica de articulações de salvo-conduto para culpados. Há quem se irrite por potenciais sobreposições entre personagens e ente reais – é uma reação igual a dos que chamavam o Capitão Nascimento de fascista emTropa de Elite – e há que se respeitar esse incômodo, pois há ideologias em jogo. Mas ideologias não devem subir o grau da miopia, hoje em voga nas redes sociais, que ofusca as várias qualidades técnicas, narrativas e dramatúrgicas desta saga investigativa que dá a Selton Mello seu mais primoroso personagem desdeO Cheiro do Ralo (2006): o dublê de Frank Serpico chamado Marco Ruffo. Ele é o novo Cordeiro de Deus de um diretor que construiu uma das mais potentes filmografias do cinema mundial contemporâneo ao falar sobre imolações em nome da moral da exclusão.

Um assaltante era imolado em Ônibus 174 (2002) para que compreendêssemos o desgoverno da Segurança Social no Rio de Janeiro. A inocência de um aspirante ao Bope era imolada em Tropa de Elite (2007) em nome da manutenção dos ritos da convivência entre policiais e bandidos na capital carioca. Organismos eram imolados a quilos de açúcar batido com água no .doc Garapa (2009) para que a fome parecesse uma ilusão. Postulados antropológicos eram imolados em Segredos da Tribo (2010) em respeito ao decoro universitário. Um jovem era oferecido em sacrifício à festa das milícias em Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro (2010) para que a estrutura mafiosa brasileira se mantivesse. Um corpo orgânico era embalado em aço numa imolação em nome da ciência em RoboCop(2014). E os sonhos da integração latina eram cheirados numa bandeja, como se fossem um bezerro de ouro, em Narcos (2015). É sempre essa a homilia deJosé Padilha: o credo durkheimiano de que os “sistemas” exigem um autossacrifício para permanecerem funcionais. Ruffo vai pagar seu dízimo nessa reza. A Democracia brasileira também.     

Ruffo não é o salvador da pátria, assim como o Nascimento de Wagner Moura. Ele é tão vítima quanto todos nós, que custeamos a devassa de nossos bens… e de nossas utopias. O dito maniqueísmo da série se afoga na saliva dos que mentem e dos que bradam sua cruzada justiceira. Uns roubaram. Outros deixaram roubar. O preço é de todos.  

Saí da maratona reforçando certezas acerca do óbito da democracia brasileira durante as articulações do golpe. Encontrei na ficçãoconstruída por Padilha portas abertas para a dúvida: tudo é dúbio, tudo é maculado, tudo é chiaroscuro na Comédia Humana armada entre Brasília e as rotas de evasão de divisas. Mas encontrei o que de mais precioso o cinema dele nos dá em sua estrutura de múltiplas perspectivas na qual cada peça do tabuleiro é senhora de seu quadrado: a relativização das certezas. Há muito lodo político no pano de fundo. E é curioso – e muito prazeroso – ver uma narrativa audiovisual na qual é mais fácil encontrar referências filosóficas (como Durkheim e, sobretudo, Foucault) do que referências de grandes cineastas, fora Costa-Gavras, que sempre deve ser evocado quando se trata de Padilha. Ambos são odiados por uma certa ala do cinema por razões parecidas: ambos acreditam na afirmação como meio para gerar relativização; ambos são capazes de torcer nossas certezas morais sobre o que é direita e o que é esquerda; e ambos fizeram sucesso para além das esferas de suas nações mostrando o que de piorexiste nelas.

Jamais julgarei O Mecanismopor posições políticas pessoais. O que me interessa na série são dispositivos narrativos e excelência de linguagem. O mesmo vale para o novo longa-metragem de Padilha7 Dias em Entebbe, a ser lançado aqui em abril. E, em ambos os produtos, o que vemos é umcineasta em sua maturidadena lida com as ferramentas de sua arte: a imagem.