‘O Insulto’: a flor do Líbano no Oscar 2018

‘O Insulto’: a flor do Líbano no Oscar 2018

Rodrigo Fonseca

07 Fevereiro 2018 | 00h09

 

Rodrigo Fonseca

Saí com os nervos em frangalhos e os hormônios da reflexão fervendo da projeção do thriller político (fantasiado metade de estudo antropológico e metade de enquete sociológica) “L’Insulte”, de Ziad Doueiri, no Estação Net Botafogo: trata-se do concorrente libanês ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2018. Ó… difícil pensar em um longa-metragem mais necessário do que este entre os indicados deste ano da festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. E olha que A Forma da Água, Três Anúncios Para Um Crime e Me Chame Pelo Seu Nome são imprescindíveis para os novos tempos. Mas é que em “O Insulto”, em cartaz por aqui a partir desta quinta, Doueiri tem uma aeróbica dramatúrgica única para ir do micro ao macro. E, com ela, arranja um jeito matreiro de espelhar todo o ódio deste mundo numa história acerca do acerto de contas entre um mecânico e um operário por conta de uma calha. Bom… não é DE FATO a tal calha, e sim o rancor dos cristãos do Líbano pelos palestinos. Ao levar esse rancor para um episódio cotidiano, o cineasta – parceiro de Quentin Tarantino em “Um Drink no Inferno” e “Jackie Brown”, nos quais operou câmera – expõe entranhas históricas infeccionadas desde os anos 1970, num tratado sobre intolerância. Sua maestria nos planos de tribunal – em que o fiel a Cristo Toni (Adel Karam) cobra desculpas de Yasser (o genial Kamel El Basha) e de todo povo da Palestina por um cano instalado em sua propriedade – lembra o André Cayatte de “Somos Todos Assassinos”. Só que num ritmo e numa inflamação ética que lembram Costa-Gavras. Basha foi premiado no Festival de Veneza por sua silenciosa atuação neste longa, que conta com o polemista argelino Rachid Bouchareb (Dias de Glória) em sua produção. O modo como a geografia espacial citadina entra na narrativa, como um palco para um espetáculo de brutalidades é de um arrojo singular.