O Grande Dragão do Ceará

O Grande Dragão do Ceará

Rodrigo Fonseca

07 Janeiro 2016 | 22h41

O Shaolim do Sertão

Faltam menos de 20 dias para o fim das filmagens de O Shaolim do Sertão, misto de filme-tributo às artes marciais e comédia rasgada, todo filmado no Ceará, temperado apetitosamente com a manteiga de garrafa narrativa de Halder Gomes, campeão de bilheteria com Cine Holliúdy (2013), preparado para fazer a concorrência beijar o tatame de novo. Ente Quixadá e Fortaleza, ele roda, desde dezembro, a saga de Aluísio Li(duíno), um fã de filmes de kung fu que acredita (ou gostaria de) ser o próprio Bruce Lee e pode pagar com o próprio sangue (de mentirinha) por esse seu ideal. E sobrou para Edmilson Filho (de Loucas para Casar) a tarefa de ser o Van Damme cearense deste Kill Bill sabor macaxeira, orçado em R$ 4 milhões, que traz o eterno trapalhão em seu elenco, ao lado de humoristas como Fafy Siqueira e Marcos Veras e do cantor Falcão, num impagável papel de sábio made in China.

“Nos anos 1970 e 80, as salas de cinema eram a nossa janela para o mundo e elas despertaram a paixão de muita gente aqui no Ceará à força da popularidade que os filmes de artes marciais tinham. Conheci muita gente que andava com roupas típicas da China, com estilo dos quimonos de lutador, acreditando serem Bruce Lee. Mais do que fazer rir e mais do que retratar com esmero a magia das lutas, este filme resgata um momento mais cosmopolita do Nordeste, em que olhávamos para fora, muito antenados com as modas do mundo, explica Halder, um realizador de 48 anos que é mestre tae-kwon-do, foi dono de academia e trabalhou como dublê nos EUA.

Um sonho O Shaolim do Sertão já permitiu que ele realizasse: dirigir Dedé, no papel de um padeiro pai da mocinha, Anésia Shirley, vivida por Bruna Hamú.

“Quando eu vi Cine Holliúdy, eu fiquei encantado pela delicadeza de sua direção e me senti muito gratificado de poder filmar uma comédia no Nordeste, sobretudo uma que aborda a magia do circo”, disse Dedé, referindo-se a uma sequência que roda no dia 14 ligada a um picadeiro, numa alusão do longa de Halder às tradições populares da cultura brasileira.

Ambientada nos anos 1980, a trama de O Shaolim do Sertão recria os dias em que os programas de TV de telecatch, luta livre e ancestrais afins do vale-tudo escassearam, forçando lutadores de todos os cantos do Brasil e da América do Sul a sair errantes pelo Brasil, desafiando valentões nas pequenas cidades. É contra eles que Aluísio Li vai cerrar os punhos, a fim de proteger Anésia. Esta é disputada pelo playboy da cidade, ou melhor… agroboy… Armandinho, vivido por Veras.

“Meu maior desafio, mais penoso do que as lutas, foi a caracterização de época do Sertão, para reproduzir o cotidiano de 1982, a partir de uma fotografia realista”, diz o diretor, que empregou no projeto  todo o know-how coreográfico de lutas que adquiriu como instrutor de artes marciais e como dublê. “Como Aluísio é o doidinho da cidade, ele acha que luta, mas tem movimentos caricatos. Mas em sonhos, nos quais é um mestre, veremos artes marciais de primeira, com todas as técnicas de kung fu, uma vez que Edmilson luta de verdade. Ele é faixa preta de tae-kwon-do, foi tricampeão brasileiro e ainda praticou kung fu por muito tempo”.

O cineasta no Cine Ceará (foto de Rogério Resende)

O cineasta no Cine Ceará (foto de Rogério Resende)

Para encarnar Tony Tora Pleura, o valentão da cidade, Halder escalou um bamba do esporte: o santista Fábio Goulart, o primeiro medalhista de ouro no tae-kwon-do do Brasil em Jogos Pan-Americanos. Ele venceu a competição em Porto Rico, em 1990 e ganhou na edição de Havana, Cuba, em 1991.

“Falei que queria que ele aumentasse 15 quilos de músculo para o filme e Fábio fez o que pedi, ficando assustador. Atletas são muito disciplinados. Logo, aprendem rápido o que fazer no set, mesmo sem nunca terem atuado. A presença dele ressalta um momento histórico singular das artes marciais brasileiras no exterior”, diz o diretor, apaixonado por pintura, que pretende abordar o universo das artes plásticas em um próximo projeto: Vermelho Monet.

Além disso, ele já está envolvido no projeto de Cine Holliúdy 2 e na comédia Bem-vindo a Quixeramobim. Acalanta ainda o projeto de um documentário sobre os ícones das artes marciais de Hollywood, entrevistando figuras como Loren Avedon, Don The Dragon Wilson e o deus Chuck Norris.

“Os filmes de artes marciais despertaram minha paixão pelo cinema”, diz. “Filmo na fé nesse amor”.

p.s.: Já que o papo é brasilidade, vamos dar uma bossinha em música, em MPB. Já escutou Pedrinho do Cavaco? Não? Então… escuta, rapidinho… Quincy Jones, rei do som que cuidou dos acordes das cerimônias do Oscar por anos a fio, disse certa vez que o guri seria o maior músico do planeta. Tire a limpo ouvindo seu novo trabalho, Vem Comigo Ser Feliz.

https://www.youtube.com/watch?v=Pry0EZP-1So

p.s.2: Se o assunto é música, anota aí: dia 23, às 22h30m, o Metropolitan, no Rio de Janeiro, recebe o show Legião Urbana XXX Anos, com Dado Vila-Lobos e Marcelo Bonfá relembrando os clássicos que beatificaram Renato Russo.

p.s.3: Semana que vem estreia Creed – Nascido para Lutar, de Ryan Coogler, que, neste domingo, pode dar a Sylvester Stallone um merecido Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante.

p.s.4: Bombando à frente de Os Oito Odiados, a obra-prima de Quentin Tarantino, Kurt Russell fez antes um outro faroeste nota 10 que merece uma vaguinha em circuito no Brasil: Boné Tomahawk, de S. Craig Zahler. Na trama, quatro pistoleiros tentam resgatar um grupo de reféns de canibais.

Kurt Russell em

Kurt Russell em “Bone Tomahawk”

p.s.5: Caiu na minha mão aqui um gibi paulistano bem provocante chamado Apagão: Cidade Sem Lei/ Luz, de Raphael Fernandes e Camaleão, que lembra Warriors: Os Selvagens da Noite, de Walter Hill. Fineza.  Já na seara dos quadrinhos de horror, a Marvel, via Panini, despejou nas bancas Império dos Mortos, uma saga com roteiro do mestre dos zumbis George A. Romero e arte de Alex Maleev. O desenho é coxo, mas a prosa compensa.