‘O Filme da Minha Vida’: paleontologia do amor

‘O Filme da Minha Vida’: paleontologia do amor

Rodrigo Fonseca

03 Agosto 2017 | 12h22

Walter Caravlho prepara o plano na Serra Gaúcha, usando o trem no qual Tony Terranova (Johnny Massaro) vai viver os sabores e dissabores do amadurecimento no comovente “O Filme da Minha Vida”
(fotos de divulgação/ Paula Huven)

Rodrigo Fonseca
Parte da mística (e da mítica) que faz de O Filme da Minha Vida um dos trabalhos de maior vigor – como narrativa imagética – do cinema brasileiro de 2017 se deve ao colorido quase esfumaçado, esmaecido, amarronzado, de seus planos, sugerindo que estamos diante de virtudes históricas (entre elas a inocência juvenil) que estão em desaparição. Não que a descoberta afetiva dos jovens de hoje seja muito distinta da dos jovens de 1960… Mas é que as representações dos afetos ali expressas aparecem filtradas (num grau poético) por referências que remontam ao próprio cinema. Um cinema deslocado das lógicas mercadológicas de nosso tempo. Um cinema que presta tributo a uma Europa de dias antigos, de anos passados, de ideologias hoje defuntas, em especial, uma certa Itália, a de Ettore Scola (em Nós Que Nos Amávamos Tanto) e a de Bertolucci (em 1900; e ainda em Os Sonhadores, com uma Paris onírica). Cada ar que Tony Terranova (o professor de Francês vivido pelo Jean-Pierre Léaud dos anos 2000, Johnny Massaro) puxa, para aliviar o pigarro dos cigarros que traga, carrega o pó de películas que fossilizaram nossas idealizações amorosas. São fósseis de um tipo de amor romântico que se despegou dos folhetins impressos para ser ressignificado como movimento pelo Cinema. A palenteologia desses dinossauros é dada nesta produção da Bananeira Filmes pela delicada superposição de retinas entre Selton Mello (na direção) e Walter Carvalho (na fotografia).

Colegas em Lavoura Arcaica (2001), para citar um monumento estético que resistiu à erosão do cinismo pós-moderno, Selton e Walter se reúnem aqui numa alquimia definitiva, gerando um “banho químico” sobre as imagens que captaram na Serra Gaúcha a partir da leitura de Um Pai de Cinema, de Antonio Skármeta, autor chileno, famoso por obras como O Carteiro e o Poeta. Onde havia uma série de registros de um Brasil interiorano eles buscaram a fantasmagoria da tradição dos romances cinematográficos de formação. Tem Truffaut, tem Lelouch, tem Rohmer, tem O Candelabro Italiano. Tem um efeito de estamos al di là dei limiti del mondo, como dizia a canção de Emilio Pericoli.

O pai ausente (Vincent Cassel) e Paco (Selton Mello)

Prestes a lançar Um Filme de Cinema (24 de agosto), seu documentário sobre o poder autorregenarativo do plano fílmico, Carvalho vai ser homenageado neste domingo no Cine Ceará (5 a 11 de agosto), em Fortaleza, pelo conjunto de uma obra que nasceu da observação do Real e da desconstrução poética deste. Irmão mais novo de Vladimir Carvalho, documentarista responsável pela obra-prima O País de São Saruê (1971), Waltinho aprendeu com seu mano mais velho que a Realidade só vira discurso (e gera ação, reação) se transformada em linguagem. Gerar linguagem é o dever de quem lida com a câmera, na troca com o diretor. Linguagem (uma linguagem de melancolia, mas de uma melancolia sem amargura) é o que nasce da troca entre ele e Selton em O Filme da Minha Vida, tendo na figura de um maquinista de trem (Rolando Boldrim, cujo rosto parece uma paisagem de Ansel Adams) a síntese do olhar sobre um mundo que vai, mas nem sempre volta.

É o maquinista quem conduz Terranova em suas andanças profissionais e afetivas, em busca do amadurecimento e do coração de Luna (Bruna Linzmeyer), enquanto lida com a saudade de um pai (Vincent Cassel, em delicada atuação) sumido, cujo abraço era um abrigo. Selton gosta de falar de abrigos vazios. Havia abraço partido em Feliz Natal (sua obra-prima) e em O Palhaço. Esse abraço carente de complemento faz dele um autor, à direção. E Carvalho amplia, na foto, o eco de seu discurso, sobre perseveranças, nas formas mais amorosas. Formas em risco de extinção. De um filme a outro, a busca é a mesma, mas o azeite nas engrenagens ficou mais fino. As tomadas correm com mais leveza. Existe dor, mas ela é menos aguda do que na ceia natalina do primeiro longa, e não porque ele tenha se arrefecido, mas sim porque ele amadureceu e busca o que há de vivo sob as cicatrizes. De quebra, ele ainda tua, fazendo de Paco (seu personagem), um criador de porcos que serve de escudeiro a Terranova, um misto (único) de Sancho Pança com Iago, um João da Ega em dias de Silvério dos Reis.

Carvalho, por sua vez, encontra-se aqui num ambiente de menos ira do que a de seus melhores filmes de anos recentes (Baixio das Bestas, Entre Vales). E com a chance de revolver toda a tradição do amor no cinema, a partir de uma crônica encantatória sobre a pertinência dos quereres, ele deixe que a linguagem – aquela, que aprendeu fazendo docs com o irmão – emule da paixão todo um embotamento diante do lugar comum realista do audiovisual contemporâneo. Sai o natural, entra o ideal. E o ideal tem som de Sergio Reis, de Nina Simone e de outros presentes que embevecem nossos tímpanos.

Cotação: Ótimo