O equívoco ‘Spotlight’

O equívoco ‘Spotlight’

Rodrigo Fonseca

05 Janeiro 2016 | 15h55

Spotlight vaçle

Denúncia e reflexão nem sempre caminham juntos na prática do Jornalismo, como se vê em SpotlightSegredos Revelados, o maior equívoco dramatúrgico da temporada de Oscars 2016, que tem tudo para levar o Globo de Ouro de melhor filme (drama) pra casa neste domingo, às custas de muito lobby e retórica de marketing. A estreia deste rascunho de cinema aqui no Brasil é nesta quinta-feira. O elenco estelar é parte de seu chamariz. E, inegavelmente, Michael Keaton está antológico em cena, como um editor na cabeça de uma equipe de apuradores. Mas a grandeza na atuação dele não basta para dirimir a avalanche de clichês, frases de efeito e maniqueísmos desta reconstituição de uma cobertura feita pelo jornal The Boston Globe acerca de crimes eclesiásticos. O esforço de reproduzir a reportagem que revelou abusos sexuais de padres da Igreja Católica nos EUA alarga a cisão entre o verbo “denunciar” e o verbo “refletir nas causas e consequências de uma primeira página sensacionalista”.

O cisma que se processou entre as manchetes acusatórias e o pensamento crítico capaz de justificá-las veio com a espetacularização da notícia, a partir dos anos 1980. À época, teóricos como Pierre Bourdieu e Jean Baudrillard desvelaram a transparência do mal na emissão da notícia e apontaram para o valor da dialética (tese vs. antítese) em oposição à retórica da manipulação. O cinema, sobretudo no planisfério do documentário, entendeu o recado e passou a compensar os lapsos e os engessamentos do cotidiano jornalístico com narrativas investigativas, tipo Roger & Eu (1989), de Michael Moore, ou mesmo o brasileiríssimo Ilha das Flores (Urso de Prata em Berlim em 1990), de Jorge Furtado. Mas a ficção trazida pelo ator e diretor Tom McCarthy retrocede no tempo, incorrendo na superficialidade.

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Elenco estelar desperdiçado

 

Realizador de filmes substanciosos como O Agente da Estação (2003) e O Visitante (2007), McCarthy constrói em Spotlight um piquete moralista retratando o Catolicismo como uma instituição e não como uma prática de fé, tendo como “gancho” a lutas de uma equipe de repórteres de Boston para tornar públicos abusos sexuais cometidos por padres. Assume para isso um semblante de thriller, embora empregue mal a cartilha do gênero, o que torna suas 2h08m de projeção sonolentas, tropeçando na incapacidade de dominar diferentes frentes de personagem.

No intuito de retratar o dia a dia dos jornais, o longa-metragem enfia o pé no fosso da displicência ética – palavrinha que é repetida inúmeras vezes em cena, mas sem peso algum – e esquece de uma ferramenta essencial a um repórter: ouvir outro lado, colher múltiplas versões, duvidar dos fatos absolutos. No roteiro pífio que McCarthy escreveu com Josh Singer (da série Fringe), não há lugar para que a Igreja seja ouvida, ainda que por um representante indireto. Ouvem-se vítimas, ouvem-se advogados ligados à Arquidiocese e um padre que assume suas “infrações de juventude” sem superego algum. Mas não há, na engenharia kafkiana da direção para dar à burocracia o posto de vilã, um contraponto ao que é investigado. Indefensáveis são os crimes de pedofilia, em toda e qualquer latitude. Mas, há que se dar rosto aos infratores, dar a eles carne para que se entendam suas doenças, reconhecer e discutir cada neurose, sobretudo por ela se repetir num mesmo ambiente, o contingente clerical, com tanta frequência. Um personagem, em entrevista telefônica, chega a falar numa epidemia. Mas Spotlight não consegue dar esse tratamento àqueles que acusa. Num esforço de realismo – que não passa de um naturalismo “naturalzinho” -, para retratar os feitos dos jornalistas do Boston Globe com veracidade, o filme não substancializa seus demônios. Deixa seus “heróis” numa causa quase franciscana, pouco crível.

No âmbito cinematográfico, fora a letargia na edição, de uma preguiça tão burocrática quanto a indolência dos funcionários jurídicos em seu foco, Spotlight naufraga na dramaturgia em um roteiro que chapa quase todos os personagens a uma causa. Até um ator requintado como Mark Ruffalo, no papel do repórter luso-americano Mike Rezendes, acaba esmagado pela falta de tridimensionalidade. A ideologia justiceira de seu personagem se apresenta na tela por meio de faniquitos e chiliques. O mesmo se dá com a jornalista encarnada por Rachel McAdams, cuja passagem pela trama é retilínea, sem qualquer humanidade. Vida só existe no advogado com DNA da Armênia vivido por Stanley Tucci (um dos atores mais brilhantes nos EUA) e no show de Keaton, que domina cada sequência, com tiques como coçar a bochecha ou apoiar o queixo no punho quando escuta uma boçalidade. É a confirmação do talento que ele esbanjou em Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância) num ambiente que lhe soa familiar. Afinal, em 1994, ele era o destaque de O Jornal (1994).

Estima-se que ele vá concorrer e quiçá ganhar o Oscar de melhor coadjuvante por Spotlight. É o candidato mais forte depois de Sylvester Stallone, mágico em Creed – Nascido para Lutar, e Mark Rylance, o X9 de Pontes dos Espiões. Embora o maior trabalho nessa categoria seja o do eterno Rocky, Keaton seria um vencedor digno. Ele é a maior virtude de uma aula de polêmica barata.

p.s.: No dia 9, às 10h, aqui no Rio, no Estação Net Botafogo 1, três entidades do Jornalismo brasileiro – Fernando Molica (O Dia), Marcelo Beraba (O Estado de SP) e Juan Arias (El País) – vão estar debatendo Spotlight com a plateia, após uma sessão. Quem sabe eles possam nos iluminar acerca das qualidades do filme de Tom McCarthy.

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