‘O Crime de Gávea’ leva charme policial à TV

‘O Crime de Gávea’ leva charme policial à TV

Rodrigo Fonseca

04 Fevereiro 2018 | 09h15

Um dos mais prolíficos dramaturgos da TV no Brasil, Marcílio Moraes assina o roteiro de “O Crime da Gávea”, thriller carioca com perfume noir

Rodrigo Fonseca
Que joia rara para a dramaturgia audiovisual brasileira contemporânea é o inspetor Afrânio, o maior achado do filme O Crime da Gávea, que o Canal Brasil exibe neste domingo, às 20h40, resgatando o charme do cinema policial deste país. Policial de investigação, tipo Relatório de um Homem Casado (1974) ou A Próxima Vítima (1982), e não thriller social como Tropa de Elite (2007) e congêneres do filão favela movie. Sórdido, grosso, louco por turfe, ciente das limitações orçamentárias de um funcionário público carioca, avesso a marginais pobres e suficientemente esperto para extorquir uma graninha sem comprometer a eficiência investigativa, Afrânio, interpretado com palavras mascadas (e com um carisma arrebatador) por Celso Taddei (roteirista e redator final do programa Zorra!), é o estandarte da ética (ou da ausência dela) nesta produção escrita e produzida por um ás da teledramaturgia: Marcílio Moraes, autor de novelas como Vidas Opostas (2006). A direção é de André Warwar, que dialoga com precisão com a tradição do noir moderno, imprimindo um ritmo de reviravoltas que lembra Corpos Ardentes (1981), de Lawrence Kasdan. Há em seu longa-metragem amantes suados, intriga de morte, a busca por culpados entre desvalidos, uma crônica da noite na Zona Sul do Rio e Taddei numa atuação que nos ganha pelo terreno da surpresa – rosto pouco frequente na tela, ele desenha Afrânio como a encarnação da sordidez entre os homens da Lei.

Celso Taddei vive Afrânio: tira sórdido

Baseado no romance do próprio Marcílio sobre um caso de assassinato, O Crime da Gávea ganha o espectador pelo exercício azeitado da cartilha policialesca do “quem matou e por quê”, assumindo uma discreta metalinguagem que lembra Um Tiro na Noite (1981), de Deus… digo, de Brian De Palma. Um montador de filmes é o seu protagonista: Paulo (Ricardo Duque) é um editor que, ao chegar em casa, encontra o cadáver de sua mulher, Fabiana (Aline Fanju, um talento ainda pouco valorizado pelo cinema). Fabiana morreu vítima de um golpe de um abajur de ferro. Ela é rica de berço; ele, pobre. Suspeitas se levantam, mas logo se esvaem, conforme uma prova do assassínio – pegadas de lama de um sapato de sola de couro – demonstram não ter sido Paulo o culpado. Quem revela isso é Afrânio, após um inquérito no qual Taddei vence o espectador por nocaute: cada pergunta dele, vem calçada de ironia masoquistamente saborosa.


Lá pelas tantas, entra na trama um traficante (Silvio Guindane) como um potencial elemento para a equação de perversidade montada por Afrânio. E, nessa equação, a raiz quadrada da Morte pode ser a femme fatale Elisa (Simone Spoladore, sempre no ponto de fervura certo), amante de Paulo. Para complicar ainda mais o jogo de armar, um professor de roteiro (Roberto Birindelli), com quem Fabiana estudou, cruzará a rota de Paulo, bagunçando mais ainda suas certezas e as nossas. E ali o suspense cresce.

Simone Sopoladore é a femme fatale e Ricardo Duque vive o viúvo em busca de respostas

Fora a construção de sensualidade e de cinismo no exercício de gênero da direção de Warwar, O Crime da Gávea deixa como legado um dos personagens de maior azedume de nosso cinema recente, no olhar sobre a liturgia da Polícia, que é Afrânio. Antes dele, só o delegado encarnado por Milton Gonçalves em O Cobrador – In God We Trust (2006), de Paul Leduc, e o capitão Fábio, vivido por Milhem Cortaz no já citado Tropa de Elite, tinham tanta corrosão. E como é bom ver de volta (refeito com gás) um formato que, entre o fim dos anos 1960 e a segunda metade da década de 1980, gerou para o cinema brasileiro exercícios de estilo como Máscara da Traição (1969) e A Dama do Cine Shangai (1987).