O artista Dujardin se recicla em ‘Le retour du Héros’

O artista Dujardin se recicla em ‘Le retour du Héros’

Rodrigo Fonseca

07 Maio 2018 | 21h36

Rodrigo Fonseca
Morninho, adoçado com moderação e de uma simpatia sem limite, Le Retour du Héros é um dos achados do cinema francês em 2018, coroado com uma bilheteria de arrancada estimada em quase 600 mil pagantes, atraídos pela grife Laurent Tirard na direção. Esse é o nome à frente do fenômeno O Pequeno Nicolau (2009). Soma-se ao padrão de qualidade reconhecido do cineasta a presença sempre luminosa de Jean Dujardin (de O Artista) como protagonista. Sua presença já está confirmado pelo Festival Varilux, que passa por 61 cidades nacionais a partir de 7 de junho, ficando em excursão até dia 20/6.
A premissa, pra encurtar, é assim: Dujardin vive Neuville, militar de alta patente da França do século XIX que pede em casamento a mão da filha mais jovem de uma família de ricaço$. Mas vai pra guerra assim que o casório é marcado. A noiva endoidece de amor. Para curá-la, Elisabeth, sua irmã mais velha (mais uma genial atuação de Mélanie Laurent), escreve cartas, fazendo-se passar pelo oficial fugido. A guria se cura na hora. Mas a fraude das cartas precisa parar. Para isso, a mana mais velha envia uma missiva suicida, como se fosse o noivo, anunciando que sua base será tomada pelas tropas austríacas, forçando-o a lutar até morrer. Por que ela pode fazer isso? Porque já tem um garotão de olho na cocota da irmã dela.

O que sai errado? O tal oficial desertou e volta pra assumir a noiva. A irmã consegue interceptá-lo e conta a verdade. Resultado: ele a chantageia. O cara, na verdade, é um bravateiro boquirroto, que se dá bem às custas de suas mentiras.
O que ele exige da irmã mais velha, em troca de seu silêncio? Primeiro, cumplicidade. Depois, amor.
É muita virada de roteiro, uma mais inteligente do que a outra.
Saindo da ilusão do vaudeville de Tirard caímos na real, uma real muito deprê quando se trata da Croisette: a crise castigou feio o balneário, fechando lojas tradicionais, esvaziando as ruas, triplicando a presença de mendigos. Multiplicou-se também a quantidade de PMs nas esquinas da Rue d’Antibes, a Av. Paulista local. No coração da zona portuária encontra-se um bimbo GG, circular, com o pôster de Todos Lo Saben, o filme de abertura do festival local em 2018. De um lado tem Penélope Cruz e do outro, Javier Bardem, um casal na vida real que se confronta na ficção mais uma vez. Uma década depois de Vicky Cristina Barcelona (2008), eles estão junto também no fulgurante Escobar, um thriller à moda Scarface que o casal espanhol fez sob a direção do conterrâneo Fernando León de Aronoa (de Segundas-feiras ao Sol). A montagem dá umas derrapadas, mas as sequências de ação são impecáveis na reconstituição do império de Pablo Escobar tendo como foco um caso de amor entre ele e uma apresentadora de TV vivida por Penélope.
Cinema de rua velho de guerra, um dos poucos remanescentes na Riviera Francesa, o Olympia, em Cannes, bomba mesmo às segundas à noite, nos dias que antecedem o festival local, seja com pipocas Marvel, seja produções mais adultas. Foi lá que o P de Pop curtiu Escobar, que se chama Amando Pablo por aqui.