‘O Animal Cordial’ é o retrato preciso deste Brasil medieval

‘O Animal Cordial’ é o retrato preciso deste Brasil medieval

Rodrigo Fonseca

11 Outubro 2017 | 13h01

Produção da RT Features, “O Animal Cordial” cindiu opiniões no Festival do Rio, na briga pelo Redentor

Rodrigo Fonseca
Deu uma saudade danada do mitológico crítico José Carlos Avellar (1936-2016), na noite de terça, no Cinépolis Lagoon, quando terminou a experiência cinematográfica mais suicida da Première Brasil do Festival do Rio 2017 – o afrodisíaco regado a dendê O Animal Cordial – e, em meio a expressões embatucadas pela dúvida, pelo asco diante da brutalidade ou pelo preconceito contra o pop, faltava aquele abraço de congregação entre as partes rachadas pela divergência. Aquele abraço da troca de olhares. Aquele abraço que o Avellar sabia dar tão bem: e suspeito de que ele sairia tão embevecido quanto eu diante do domínio absurdo que Gabriela Amaral Almeida tem das ferramentas dramatúrgicas do filão que visita. Tão embevecido quanto reagia a Lynne Ramsay (e seu monumental Precisamos Falar Sobre o Kevin), com quem a lógica da diretora baiana tem lá suas interseções indiretas. Houve, sim, conversas ao fim da projeção, mas aquelas conversas setorizadas… poucas rodinhas… e não aquela roda gigante heterogênea do papo aberto. Foi o mesmo fenômeno que se na segunda, após a cascata provocativa do filmaço Açúcar: a dispersão… mas aquela dispersão de quem não quer falar do que não faz parte de seu universo… no caso, o pop. O quadro era bem parecido com o que vi em Cannes ao fim da projeção de Melancolia (2011), de Lars von Trier.

No que veio o apocalipse moral, Avellar apertou meu braço e disse: “Como a Europa está doente”. E de fato, pelo que hoje se vê na Espanha cindida, pra pegar apenas um caso, a doença do Velho Mundo piorou. Mas aqui não é diferente: de um lado, temos a difteria econômica da recessão, e, do outro, o tétano político que nos acomete desde o impeachment. Pra piorar, veio a onda medieval que converteu pastores em alcaides e decretou a peste negra nos museus. Diante desse quadro, nada mais legítimo do que um filme como O Animal Cordial, talvez o mais preciso retrato do nosso país neste segundo. Segundo no qual a barbárie passou a ser legitimada pelo Estado. O “Cale-se” virou o verbo de ação no AI5 silencioso que começa a ser armado diante de nós. Frente a ele, nada mais justo do que aparecer um “filme-furúculo”, um carnegão que estoura em pus na representação do desgoverno em nossa volta. Um carnegão que eleva aos céus uma mulher – a harpia Luciana Paes – e joga aos porões do machismo instaurado um burguês clássico – Murilo Benício, em seu melhor momento nas telas. Mais atual do que isso, não sei dizer o que seria. Nem mais político.

Ecos de Cronenberg marcam o filme de Gabriela Amaral Almeida, que extrai atuações impecáveis de Luciana Paes e Murilo Benício

E… aliás… a sintonia com o presente se dá ainda pela afinação com o vernáculo do terror, gênero do momento em função do grand guignol que virou o Brasil. É o ano do horror no Festival do Rio, vide As Boas Maneiras e Motorrad. São sintomas do câncer ético que nos corrói o pâncreas, na metástase de um subdesenvolvimento gourmet e… laico (apesar de quebrar terreiros de candomblé e umbanda).

 Na trama de O Animal Cordial – cujo clima bizarro conversa com o do cult nacional Quando Eu Era Vivo, de Marco Dutra, e com vários filmes de David Cronenberg, em especial Enraivecida: A Fúria do Sexo -, Benício vive Inácio, um empresário cujo restaurante tem uma clientela nada polida. Camila Morgado encarna (com o vigor de sempre) uma das frequentadoras. E não esconde seu desdém para com o jeito contido, mais humilde, de uma das funcionárias, Sara (a força da natureza Luciana Paes, em estado de graça). Tem ainda o cliente que sofre indigestões com alho (Ernani Moraes) enquanto se prepara um coelho lá dentro. Na cozinha, há também embates dos trabalhadores com Inácio: o chef Djair (Irandhir Santos) é quem mais se incomoda com o patrão. A maneira como todos são tratados dá o tom da crítica social do qual Gabriela, na direção, parte para construir um ensaio sobre a intolerância nossa de cada dia: quando dois ladrões entram no local, Inácio, armado, reage. E sua reação abre deixa para um sangrento ritual de descarrego e de afirmação de forças.

Com um elenco monumental de coadjuvantes (tipo Humberto Carrão, Jiddu Pinheiro, Ariclenes Barroso), O Animal Cordial executa uma espécie de genealogia da moral brasileira, arregimentando funções sociais de um feudalismo disfarçado pelas CLT. Há o servo e o suserano, num feudo que fede a carnes mortas, no qual o descontrole do dono encobre trevas muito nebulosas, em depuração ao longo de anos de neuroses. Evocando ainda que não conscientemente a tradição italiana do terror, o giallo – com alusão sobretudo a Dario Argento e Mario Bava -, Gabriela consegue aqui produzir um marxismo tardio, paradoxalmente frankfurtiano  e MTVístico ao mesmo tempo, sendo meio Thriller de Michael Jackson (1983), meio Adorno (o do livro Minima Moralia, 1951), desopilando com isso ranços políticos que sempre travaram nosso cinema de gênero. Um veio travado por uma culpa 68ista de aversão ao pop.

Na construção do embate de forças, a cineasta conta com o devir diabólico de Inácio, a quem Benício esculpe com cuidado de ourives. Ele nos dá “o” personagem masculino desta Première Brasil, e faz jus ao capítulo do livro O Voo Cego do Ator no Cinema Brasileiro, que a escritora Nikita Paula dedicou a ele. Ali, o foco era seu desempenho em Os Matadores (1997), encarado como algo inovador na composição do realismo. Aqui, no furacão do horror grapette de Gabriela, o realismo é mais selvagem. Talvez mais do que nossa fantasia possa supor… ou segurar.

Antes de passar por aqui, o filme de Gabriela representou nossa psiquê fraturada em telas estrangeiras, sob o título de Friendly Beast, tendo sido aclamado Fantasia Film Festival, em Montreal. Espero que a aclamação aconteça aqui. E que Benício vença.