Notas sobre ‘Iran’, um ensaio sobre a solidão do ator

Notas sobre ‘Iran’, um ensaio sobre a solidão do ator

Rodrigo Fonseca

09 Outubro 2017 | 12h17

A partir de liturgias de Irandhir Santos, Walter Carvalho cria “Iran”, radical exercício de observação de fluxos

Rodrigo Fonseca
Tem um barulho esquisito, gutural, tipo um rééééé ou ráááá de limpar pigarros, que serve de música para Iran, um óvni sensorial com textura e conceito típicos das artes pláticas visto no domingo na Première Brasil do Festival do Rio, trombando contra o menu gustativo padrão de documentários do evento. É um troço em branco, preto, rabiscos em papel, dormentes de trilho, engenhocas de trem. Um troço que ganha sentido (político, sobretudo) na tela, como cinema, graça a junção de objetos e de tensões arranjada por Walter Carvalho. O sentido vem de uma percepção: o animal mais indomável do zoológico de vidro que se tornou a comédia humana nossa de cada dia é o ator. O bicho em questão, de quem vem o filme, é Irandhir Santos, profeta de sua própria história nas telas e de uma História de acertos na estética do ruído, da peleja. A partir dos ritos de preparação de Irandhir pra entrar em cena, Carvalho descasca camadas poéticas capazes de gerar um ensaio sinestésico sobre a solidão de alguém que interpreta outrem para sobreviver. É um ensaio sobre modos de estar, que embora pareça seguir um conceito de instalação, se quer filme, pede a tela grande e não uma galeria de centro cultural ou museu.

Walter Carvalho assina a direção e a fotografia em P&B

O que temos diante de nós é um spin-off do cult Redemoinho, usando imagens de bastidor deste longa de 2016, dirigido por José Luiz Villamarim a partir da prosa de Luiz Ruffato. Palavras de Ruffato ou do roteirista George Moura, Iran dispensa. Só ficam letras escritas e murmúrios. Fica Irandhir andando de bicicleta e se exercitando, sem que isso gere narrativa formal de travessia. É uma natureza experimental, que exponencia a busca recente de Carvalho, como realizador, investigando potências craitivas de artistas, sejam eles músicos (Raul – O Começo, O Fim e o Meio), poetas (Manter a Linha da Cordilheira Sem o Desmaio da Planície), menestréis (Brincante) ou… atores. Nesses outros filmes, víamos ainda uma estrutura de aproximação com entrevista, com observação direta de ações práticas. Tudo isso cai em Iran: sai o todo e fica a parte. A metonímia é a lei.

Maior fotografo de nosso cinema na atualidade, o diretor paraibano gera um fluxo visual de um preto e branco arrebatador. Em termos plásticos, nada visto até aqui na Première teve tanto vigor ou engenho – na ficção, só o Grapette As Boas Maneiras. Mas encarar este experimento exige paciência. Muita… o próprio Carvalho usou o termo “crespo” para referir-se à sua forma gongólica, que não se apresenta de modo retilíneo. Mas é possível se extrair dele um prazer sensorial dos mais cálidos em sua contemplação sobre o Tempo, um tempo que nasce biológico (no corpo de Irandhir) e vira um tempo metafísico, ontológico. É algo que lembra o que Mario Peixoto fez em Limite (1931): um olhar sobre o fluxo e um pensamento a partir da lírica que o fluxo gera.

2017 tem sido um ano bom – na tela – pra Carvalho por múltiplas razões. Primeiro, seu Um Filme de Cinema caiu no boca a boca e virou assunto entre os cinéfilos, tendo bombado sessões de debate no Rio, em diferentes espaços. Depois, em O Filme da Minha Vida, dirigido por Selton Mello, ele soltou o melhor de si naquela que talvez seja a melhor fotografia do ano do cinema brasileiro, na ficção. E a novela Os Dias Eram Assim, que ele ajudou a conceituar, virou um dos maiores achados da Rede Globo. Agora, Iran vem curar sua verve de risco, esticada aqui ao máximo. O máximo deste momento… até a próxima transgressão.

Ainda no Festival do Rio

Foi uma sensação no Centro do Rio a projeção hors-concours do documentário Eu, Pecador, de Nelson Hoineff, sobre o cantor Agnaldo Timóteo. Há quem diga se tratar do mais visceral longa documental de todo o evento, que termina neste domingo. Na tela, Hoineff (crítico que anda em seu apogeu como documentarista) passa a limpo as polêmicas em torno do cantor, envolvendo política e sexualidade. A exibição foi uma festa para a música romântica e para o humor.

“Depois Daquela Montanha”: love story

Fora o excepcional Zama, experimento argentino de Lucrecia Martel, que tem um DNA brasileiro via produtora Vânia Catani e os atores Matheus Nachtergaele, Mariana Nunes e Evandro Melo, a maior surpresa gringa do evento até agora é uma love story com pinta de aventura neve, brega até o osso: Depois Daquela Montanha. Dirigido por Hany Abu-Assad (de Paradise Now), The Mountain Between Us (no original) fala do périplo pela sobrevivência de uma fotógrafa (Kate Winslet) e um médico (Idris Elba, sempre impecável) numa inóspita região nevada. Foi um sucesso de público em sua estreia nos EUA, com US$ 10 milhões de bilheteria.