Nordeste metrossexual

Nordeste metrossexual

Rodrigo Fonseca

05 Outubro 2015 | 10h56

Juliano Cazarré brilha em

Juliano Cazarré brilha em “Boi Neon”

Revistas de sacanagem viram material de trabalho nas mãos calejadas de Iremar, o protagonista de Boi Neon, filme ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza, exibido no domingo – um domingo de chuva –, no Rio, na seleção competitiva da Première Brasil 2015. Os calos de Iremar não têm a ver com sublimação do sexo pelo popular “cinco contra um” e tampouco o “trabalho” que ele faz com a Playboy e afins envolve bobiças solitárias. Iremar trata de bois das vaquejadas do Nordeste, mas sonha mesmo em ser estilista e criar sua própria linha de roupas, que ele costura com empenho espartano. Nas publicações meladas que caem em seu poder, ele desenha calcinhas, espartilhos, lingeries provocantes. A imensidão suarenta a seu redor ceva nele o desejo de costurar, na agulha e na máquina. O corpo de gladiador, de músculos regados a litros de testosterona, molda-se ao ofício de confeccionar roupas. E ninguém estranha o Golias costureiro, sobretudo a sagrada família que ele forma com os demais funcionários da indústria da vaquejada, a começar pela caminhoneira Galega e a filha desta, Cacá. Iremar é o primeiro a dizer que Galega é “bronca” e ela aceita.

Por esse alinhamento – estranho à primeira vista aos olhos dos padrões de gênero do Brasil -, ninguém naquele agrupamento se choca com a chegada de Júnior, mais um ajudante para a lida com os bois, que ostenta vasta cabeleira alisada a chapinha. Nada é diferente. Todo mundo vira “da casa”. É assim o Nordeste retratado pelo cineasta pernambucano Gabriel Mascaro. Realizador de Ventos de Agosto, ele  hoje é encarado como o mais ousado entre seus conterrâneos na leva de realizadores vindo de Recife e arredores após as gerações de Cláudio Assis/ Lírio Ferreira e de Kleber Mendonça Filho. E a Première rendeu-se a ele na noite de domingo num apinhado Cinépolis Lagoon. Até gritos de “Bravo!” houve.

“Muito sensível, Boi Neon é, entre os longas do Mascaro, seu filme mais acessível a um público amplo, com uma narrativa agradável. Ele não fica só no registro banal: tem encontros, tem humor”, elogiava o escritor e professor da UFRJ Denílson Lopes ao fim da sessão.

Coprodução com o Uruguai, o longa de Gabriel Mascaro é fotografado por Diego García

Coprodução com o Uruguai, o longa de Gabriel Mascaro é fotografado por Diego García

São muitos os méritos que fazem de Boi Neon um dos filmes mais maduros do cinema brasileiro nos últimos 30 anos, a começar pela retidão de olhar de seu diretor para a floresta de signos que compõe a representação da sexualidade brasileira. Nele, há homens femininos – mas que devoram suas parceiras com uma fome de anteontem – e mulheres masculinas – mas que se derretem de vaidade diante de uma calcinha cavada. O primeiro caso, o caso de Iremar, é encarnado por Juliano Cazarré, um ator apaixonado por provações, capaz de transcender arquétipos de estrelato em prol de uma busca estética, aqui no auge de sua potência. O segundo caso, o de Galega, é defendido por Maeve Jinkings, um dos legados mais valiosos que o filme O Som ao Redor deixou para a cinefilia nacional: atriz de risco e de carisma, cuja beleza se agiganta na tela.
Galega e Iremar são parte de uma tribo onde há gente de barriga saliente, gente de cabeleira emplumada e uma menininha de língua feroz: Cacá (a pequena Alyne Santana). Eles são os saltimbancos das vaquejadas. Uma família rodante.  “Mais do que uma inversão dos sexos, este filme propõe uma diluição desta questão identitária. Eu tento diluir a identidade dos gêneros, desconstruindo expectativas e mostrando um novo arranjo de família possível, fora da estrutura padrão do Brasil”, diz Mascaro, o primeiro diretor a ser encarado como favorito a prêmios na Première de 2015, com fôlego para se tornar a melhor dos últimos anos.

Maeve Jinkings é a Galega, caminhoneira

Maeve Jinkings é a Galega, caminhoneira “bronca” das vaquejadas

Previsto para estrear em março, Boi Neon é parente distante de dois filmes italianos de épocas distintas, ambos dedicados à observação de práticas profissionais e de liturgias familiares em regiões interioranas, longe do progresso: As Maravilhas (2014), de Alice Rohrwacher, e A Árvore dos Tamancos (1978), de Ermanno Olmi. Em Mascaro, assim como nesses longas aqui citados, há o desejo de radiografar a vaquejada como um microcosmo. Por isso, recorre-se à linguagem documental, em imagens de arquivo dessas festas onde bois viram fetiches, de pão e de circo, num Coliseu bovino. Na montagem de Fernando Epstein e Eduardo Serrano, o sotaque documental se equaliza com o ficcional, sendo este desenhado pela fotografia de Diego García num jogo cromático capaz de embaralhar nossos sentidos. O ápice da sensorialidade se dá numa sequência de sexo – sobre a qual não se deve revelar muito -, que deixou Veneza a salivar… e o Festival do Rio também, na certeza de ter visto um espetáculo fílmico raro, para ficar nas retinas.

 

 

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