Noitão regado a Stanley Kubrick devolve obras-primas às telas de SP

Noitão regado a Stanley Kubrick devolve obras-primas às telas de SP

Rodrigo Fonseca

20 Outubro 2016 | 10h03

“Laranja Mecânica” (1971) é um dos destaques do Noitão kubrickiano na Caixa Belas Artes, na Consolação

RODRIGO FONSECA

Se o Rio de Janeiro agora tem uma maratona fixa de horror (em forma de zumbis) no Circuito Estação, São Paulo tem o Noitão, micareta cinéfila que vara madrugada no  Caixa Belas Artes (ali na Rua da Consolação, 2423), exibindo três cults ou clássicos em fileira: nesta sexta, na segunda encarnação do evento, o cardápio traz Stanley Kubrick (1928-1999) de cabo a rabo. A partir das 23h30, duas salas do cinema serão ocupadas com marcos do diretor, todos em cópias remasterizadas digitalmente: Laranja Mecânica (1971), O Iluminado (1980) e De Olhos Bem Fechados (1999).

O que dizer desse gênio? Bom…

Reza a lenda que, em seu retiro nos confins da Inglaterra, avesso aos assédios de Hollywood, Stanley Kubrick certa vez foi procurado por um produtor americano que conseguiu descobrir seu endereço numa conversa com um dos empregados do diretor. Ele apareceu na casa do cineasta levando um projeto milionário, com consentimento de um grande estúdio para oferecer um milhão a ele por seu trabalho. O homem teve acesso à casa do diretor, conversou com um mordomo e este foi avisar ao Sr. Kubrick da visita, que viera direto de Los Angeles. O mordomo desceu, pediu que o produtor se sentasse e esperasse por cerca de uma hora, oferecendo-lhe uísque e acepipes da melhor qualidade. Passou-se uma hora e Kubrick não desceu. Em seu lugar veio o mordomo, com uma passagem para Los Angeles não. Ele entregou o bilhete ao produtor e disse a ele: “O senhor Kubrick lamenta pela sua espera e pela circunstância e lhe agradece. Ele mandou que lhe comprasse esta passagem e demitiu o homem que o trouxe aqui. Por favor, pedimos que o senhor se retire e nunca mais volte, nem conte a ninguém este endereço”.

Kubrick com Jack Nicholson no set de

Kubrick com Jack Nicholson no set de “O Iluminado”, um marco do terror

Verdade ou não, o que temos aqui é mitologia. A mitologia de um cineasta único, que construiu seu legado numa reflexão muito próxima à questão do Poder, seja o Poder político (Dr. Fantástico), o aristocrático (Barry Lyndon), o mental (O Iluminado), o perverso (Laranja Mecânica), o da guerra (Nascido para Matar) ou o do sexo (Lolita e De Olhos Bem Fechados). Brincando por entre gêneros dos mais distintos, a arrancar deles o que lhe há de mais sólido, Kubrick executou no cinema uma autópsia em corpo vivo das sociedades anglo-saxônicas, num espelho com o passado (Spartacus) ou numa sintonia com o presente (O Grande Golpe) de modo a retratar formas de descontrole. Algumas são institucionais. Outra, individuais. Mas a mecânica dele carregava algo de Kafka: metamorfoses no qual o excesso de castração convertia homens em baratas ou monstros. E grandes atores (Jack Nicholson, Peter Sellers, George C. Scott, James Mason, Tom Cruise, Sterling Hayden) deram a ele argamassa para essa construção kafkiana de um castelo de obsessões.

Kubrick vinha da fotografia, do still jornalístico, do tempo daquilo que Roland Barthes chamava de “o lugar do foi aí”, ou seja, do embalsamamento de um instante. No obturador ele aprendeu a enquadrar o mundo flagrando, em seus quadros, aquilo que está por trás de um gesto, na sublimação (ora lírica, ora violenta) dos impasses nossos de todo dia.