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Nas asas de Wenders ou Porque ‘Tudo Vai Ficar Bem’ é um filme obrigatório
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Rodrigo Fonseca

08 Março 2016 | 10h53

Wim Wenders dirige James Franco em "Tudo Vai Ficar Bem": ficção mais contundente do cineasta em duas décadas

Wim Wenders dirige James Franco em “Tudo Vai Ficar Bem”: ficção mais contundente do cineasta em duas décadas

Cheira a novidade a tinta folhetinesca com que o alemão Ernst Wilhelm Wim Wenders tinge Tudo Vai Ficar Bem (Every Thing Will Be Fine), um ensaio sobre o luto que entra em cartaz a partir desta quinta no Brasil, com fôlego para dar nó em peitos abertos aos males da condição humana. Sua beleza reside numa reflexão sobre a melancolia e, em parte, num cuidado digno de ourives com detalhes do plano, da profundidade das cenas às bordas dos quadros, potencializados pelo empenho de um jovem ator dado a inquietudes: James Franco. Desde Tão Longe, Tão Perto (1993) não se via – na ficção – um Wenders tão possante… e tocante. Em meio à reprodutibilidade técnica do cinema – em tela grande, em suportes tamanho celular ou em qualquer NetFlix da vida – o melodrama perdeu sua aura e virou uma reiteração de fórmulas para renovar a História das lágrimas. Talvez por isso, só o “Walter Benjamin do audiovisual” – ou seja, o único cineasta interessado, tal qual o filósofo germânico, em pensar de modo crítico, sob bases existencialistas, a questão da Técnica – poderia repaginar o gênero com base na imersão nas mágoas de um artista fraturado por um delito cometido sem intenção.

 

Numa atuação silenciosa e dolorida, à altura de seu desempenho em 127 Horas, Franco é Tomas Elden, darling da indústria editorial que perde o domínio sobre os parágrafos de si mesmo ao atropelar e matar uma criança. O irmão do menino é a única testemunha do atropelamento, que se dá numa região nevada – as filmagens se deram em Québec, no Canadá -, e também do empenho de Tomas em ajudá-lo. A notícia dessa morte implode as emoções da mãe da vítima, Kate, construída por Charlotte como uma figura enigmática. Dali para diante, o impacto do acidente vai reverberar sob a vida de Tomas por anos a fio, desequilibrando sua relação com as diferentes mulheres que tentaram vedar os buracos em sua alma, mas cimentando sua força literária, que se exponencia a um limite máximo. Em paralelo, Kate estará a seu redor sempre, numa relação indefinível, entre a atração e o repúdio, até se alcochoar no Tempo como uma forma inusitada de amizade, ou quase.

Tomas é um escritor em luta contra o Luto

Tomas é um escritor em luta contra o Luto

É aí que a autoralidade de Wenders se faz valer, aproximando Tomas dos anjos de Asas do Desejo (1987), do andarilho de (sua obra-prima) Paris, Texas (1984) ou do jornalista imerso no esplendor da infância de Alice nas Cidades (1974). Todos eles careciam de pertença, ou seja, da sensação (física e metafísica) de se sentir parte de algo, de ter um abrigo. Pertença é a questão central da filmografia deste diretor que se bandeou para o documentário no galope dos anos 2000, ao perder a ressonância do aspecto rock’n’roll das narrativas ficcionais. Como assim? Em entrevistas diversas, Wenders disse ser parte de uma geração salva da depressão moral da História pelos acordes do rock: o cinema para ele, portanto, tem a dimensão progressiva de um LP do Yes ou um Dark Side of the Moon, do Pink Floyd. Desconexões com esta sensorialidade empurraram o diretor ao Real. Mas, depois de toda a excelência visual de Sal da Terra, codirigido por Juliano Salgado em 2014, a sensação de esgotamento da imagem em suas investigações da Realidade despertaram sua sede de fabulação. Ainda que por uma fábula sem mágicas, pautada apenas pelo feitiço da cicatrização de mágoas.

Charlotte Gainsbourg amplia a melancolia do filme

Charlotte Gainsbourg amplia a melancolia do filme

Seja nas franjas da filosofia (O Céu de Lisboa), seja nas raias do realismo político (Medo e Obsessão) ou seja em seus ensaios poéticos (Pina), Wenders filma em busca de gente desconectada frente a um mundo na qual elas são exceções às regras. Tomas é uma figura singular pela força de sua arte, pela veia literária. Mas em Tudo Vai Ficar Bem, ele embarca numa aventura para encontrar a transcendência além das palavras, conjugando o verbo “viver” na prosa da carne, do osso e do desastre, onde todos somos democraticamente passíveis de erros… e de acertos. Essa jornada parece solitária. Mas Wenders ameniza a solidão de Tomas fazendo de nós, plateia, seus parceiros de descoberta, acolhidos sob a manta da narrativa melodramática, que, há tempos, parecia esburacada pelo excesso de uso.

 

É um filme belíssimo de um mestre que regressa a seu lugar de grande ficcionista. Imperdível.

 

 

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