Mostra de SP: Marina Person e João Miguel iluminam um inventário de cicatrizes

Mostra de SP: Marina Person e João Miguel iluminam um inventário de cicatrizes

Rodrigo Fonseca

24 Outubro 2016 | 13h12

“Canção da Volta”: existe o amor e existe a vida, sua inimiga, como nos lembra este balanço de uma vida a dois fraturada

RODRIGO FONSECA

Fraturado em sua intimidade doméstica após a tentativa de suicídio de sua mulher, o apresentador de TV Edu, protagonista de Canção da Volta, telefona para a emissora onde trabalha, numa tarde na qual seu pote de lágrimas ficou até a borda de mágoa, e avisa: “Me cobre aí, pois não posso ir”. Do outro lado da linha, uma voz retruca: “Mas onde você está?”. Tomando emprestada toda a angústia que o olhar de seu intérprete, o baiano João Miguel, é capaz de transmitir, Edu vira o fone para um biombo de vidro, de onde espia um round de uma luta de boxe de academia, e fala: “Em casa… Eu tô em casa”. A metáfora serve de desabafo: o apartamento onde o personagem vive com a esposa, Julia (Marina Person) e com seus dois filhos virou um ringue sem árbitro para a prática amadora da sobrevivência a dois. Não há como se mesurar a que ponto vai chegar o conflito entre eles no primeiro longa-metragem de ficção do diretor Gustavo Rosa de Moura, que, com estreia marcada para 3 de novembro, para antes na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo nesta quinta, dia 27, às 21h40, no Cine Caixa Belas Artes. A própria estrutura de montagem por vezes parece embaralhar as cartas desse tarô imune às clarividências cotidianas, fazendo parecer que eventos que já vimos estão fora de ordem, como, por exemplo, uma malfadada ida em família à praia. Mas está tudo certinho, no seu lugar – narrativo, claro, por que dentro daquele lugar tudo virou do avesso. A questão é que estamos diante de um filme de descobertas, não de certezas. Edu é um soldado com um rastreador de minas à espera de quando Julia vai explodir, arrancando de Marina uma atuação de doer no nosso rim.

Com mais duas exibições na Mostra, programadas no Espaço Itaú Frei Caneca para os dias 29 (15h30) e 1º de novembro (19h50), Canção da Volta é tão experimental para Marina (que, após uma incursão competente na direção, com Califórnia, mergulha de cabeça na atuação), quanto para Rosa de Moura. Enquanto ela deixa a persona (sem trocadilhos) de VJ para trás em busca de uma instância nova, ele afasta-se daquela geometria documental que fez sua fama em Cildo (2009) para se abrir a trilhas menos formalistas e ortodoxas. Como documentarista, ele partia de pessoas (como os ases do riso de Piadeiros, de 2015) para construir dispositivos de observação de modos de ser e modos de estar – todos muito sofisticados. Aqui, neste drama sobre praticidades, edificado como um inventário de cicatrizes sentimentais, as estruturas geométricas de seu corpo a corpo com o real não se sustentam. Em seu lugar, abre-se uma progressão aritmética de possibilidades de tolerância ao desamparo, com uma mulher em busca de voltar a si mesmo e com um marido confrontado com a impotência de não ser mais capaz de vedar as fraturas no dique de seu amor.


Tem um quêzinho de documentário claro nas cenas de entrevistas de Edu com bambas da nossa Literatura. Em seu programa – padrão TV Cultura ou Arte 1 – um papo com Bernardo Carvalho é mais do que um punhado de diálogos sobre prosa: é um olhar delicado sobre o ofício de escrever. O mesmo se passa com (a tensa) conversa com Paulo Lins sobre Cidade de Deus. Realidade pura como um facho numa ficção de grandes atores.

Instantes de graça na fotografia de Flora Dias

Instantes de graça na fotografia de Flora Dias

Um tanto ausente das telas que, desde Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), pegaram gosto por sua habilidade de se desconstruir, João Miguel volta aqui sem a carga social à qual costuma ser associado muitas vezes neste nosso cinema que prefere Sociologia à Psicanálise. Seu Eduardo é um sujeito cheio de retidões que a vida tenta esmurrar, a fim de vencê-lo por nocaute. Mas o que torna este personagem único é que ele é um sujeito afirmativo, sem dúvidas ao conjugar verbos como querer, entrevistar, fazer e amar (Júlia, sobretudo, mesmo quando todos parecem insistir que ele a abandone). Numa genealogia cinematográfica, seu personagem encontra eco no monumental Dr. Hirsch, vivido por Peter Finch em Domingo Maldito (1971), de John Schleisenger: são intelectuais cientes de suas escolhas e de seus quereres a quem a vida tenta impor uma outra moral, que devasse suas intimidades e seus desejos. Edu é louco por Julia, mas, num momento de solidão mais atávico, não se contém diante da estagiária Mari (Poliana Pieratti, uma força da natureza em quem o cinema precisa ficar de olho). Ele tem fraquezas e sucumbe àquelas que o tragam de maneira mais avassaladora.

Julia, por sua vez, lança-se na dança e num labirinto de possibilidades de prazeres e alegrias aos quais é apresentada após tentar (e falhar no) suicídio. Sai por aí, dizendo que vai encontrar amigas, mas vai buscar outras formas de autodescoberta. Tudo é novo, menos as obrigações com seus dois rebentos, a pequena Maria (Stella Hodge) e o adolescente Lucas, vivido com gana por Francisco Miguez, de As Melhores Coisas do Mundo (2010), numa evolução interpretativa gritante. Aliás, Lucas e Edu terão um dos muitos combates do filme – quiçá o melhor! – para nos lembrar que paternidade é um dos muitos substantivos que estão em constante xeque naquele lar.

Não existe muito lugar para alívio em Canção da Volta, só espaço a guerra declarada entre um amor que teve seu prazo de validade vencido à revelia da vontade dos amantes. Por isso, na fotografia (nada óbvia) de Flora Dias, um tom bruxuleado, ocre, sorumbático se faz ver e viver: venceu a conta da luz emotiva daquelas pessoas. São tempos de sombra. Mas mesmo na penumbra mais densa ainda é possível segurar a mão de quem precisa, inclusive a nossa, que encontramos nas histórias de amor espelhos para nossas práticas, nossas teorias e nossas potências.

Canção da Volta não desafina em seu esforço de contextualizar ruínas, chegando a acordes que quebram com a inércia do gênero, sem enveredar pelo melodrama, sem perder sua universalidade. Dói, mas nos alimenta.