Mostra de SP exibe ‘Rocky Balboa’ português

Mostra de SP exibe ‘Rocky Balboa’ português

Rodrigo Fonseca

27 Outubro 2016 | 11h56

“São Jorge”: o nocaute do real

RODRIGO FONSECA
Portugal sempre encontrou na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo um lar pra chamar de seu, vide a inestimável contribuição que o evento deu na sedimentação das filmografias de Manoel de Oliveira (1908-2015) e de João César Monteiro (1934-2003) entre nós. E nesta 40ª edição, em meio a um menu invejável, sobrou lugar de honra para uma espécie de Rocky Balboa lusitano: o drama de boxe São Jorge, que saiu do Festival de Veneza, em setembro, com um prêmio de melhor ator para Nuno Lopes conquistado na mostra Orizzonti. Dirigido por Marco Martins, a produção será exibida nesta quinta, às 15h20, no Espaço Itaú Frei Caneca; no dia 1º, no às 17h, no MIS; e no dia 2, às 17h10, no Reserva Cultural, comprovando para os espectadores um talento brasileiro que surpreendeu a ala lusa e que anda brilhando a cada filme que faz: a atriz Mariana Nunes.

Construído como um coquetel rascante de fato e ficção, temperando sua narrativa com elementos da linguagem documental, o longa-metragem tira uma radiografia do impacto da crise econômica do início desta década sobre a economia portuguesa. Há um esforço de o diretor expor as mazelas financeiras que quase levaram Portugal à ruína como um alimento para o submundo do crime, expresso a partir de uma forma de contravenção que gravita nas franjas da legalidade: a agiotagem. Num ambiente de miserabilidade entre as classes mais desvalidas economicamente, degredados e fracassados de carteirinha são convocados a trabalharem como cobradores, fazendo dos punhos fechados uma ferramenta de extorsão. É nesse contexto que o pugilista Jorge (Nuno, numa atuação de doer no fígado) enxerga um caminho para reinventar a vida de insucessos que leva – mesmo abrindo mão da dignidade restante.   

 Seu objetivo não é vencer os torneios de boxe que tem pela frente. Isso seria fácil se ele tivesse alguma disciplina. O desafio é não perder a mulher, a brasileira Susana (Mariana, perfeita!), que quer voltar para este nosso cantinho das Américas, levando com ela o filho do casal. Perder o guri é um pesadelo para este santo guerreiro de uma ala falida do Velho Mundo. Mas, a cada passo que dá, mais ele se afoga na pobreza e na desesperança, como um Balboa às avessas, mas igualmente apaixonado.

 

A secura extrema dos enquadramentos de Marco Martins e a edição esturricada, que dispensa qualquer rasgo de melodrama, torna São Jorge um exercício de realismo social fundamental ao entendimento das formas de representação de nossa antiga metrópole. Não é um cinema que nos derruba por nocaute, como O Touro Indomável (1980), mas ele nos leva à lona por pontos.

 p.s.: Um dos filmes mais injustiçados do ano no país, digno de respeito por seu esforço em fazer ação à moda brasileira, Reza a Lenda, de Homero Olivetto, foi selecionado para a competição oficial de novos diretores do Festival de Cinema Black Nights, que vai de 11 a 27 de novembro em Tallinn, na Estônia, junto com outros 12 longas de diversos países. A seleção busca descobrir e promover talentos de diversas partes do mundo e vai servir como vitrine à porção heróica Cauã Reymond sob duas rodas.