Millennial mambo: a Geração Y brilha no cinema nacional

Millennial mambo: a Geração Y brilha no cinema nacional

Rodrigo Fonseca

04 Outubro 2017 | 09h53

“Como é Cruel Viver Assim” pode ser um marco da estética millennial nas telas

Rodrigo Fonseca
Dos nove concorrentes ao troféu Redentor de melhor longa-metragem de ficção da Première Brasil do Festival do Rio 2017, que começa amanhã, sete trazem mulheres na direção, ilustrando não apenas um aumento quantitativo da criação feminina, mas uma diversidade de olhares. Há, de um lado, o “horror grapette” de Juliana Rojas; do outro, um traço autoral de Carolina Jabor em seu interesse pelo limite da tolerância (como já se via no febril Boa Sorte); há ainda uma glicose provocativa no Açúcar de Renata Pinheiro; tem também uma agonia mamífera na passagem de Gabriela Amaral Almeida de pérolas curtas, como A Mão Que Afaga (2012), a formatos mais amplos. Tem Lúcia Murat no pacote, com Praça Paris, o que é sempre uma promessa de alumbramento politizado. E tem um perfume de novidade no ar em torno do colorido que Mariana Bastos pode dar ao esperado Alguma Coisa Assim, feito com Esmir Filho. Falta uma… Falta justamente a que causou mais surpresa (e, do lado aqui, do P de Pop, alegria) nessa lista, por ser um bicho de outras matas. Um bicho do dito “Cinema de Mercado”, com o “c” e o “m” escritos com a caixa alta das cifras gordas…. (se é que ainda não se entendeu que Julio Bressane também tem um mercado, que o cinema pernambucano tem seu mercado…). O bicho é Julia Rezende, que entra em jogo com um negócio que parece meio Irmãos Coen, chamado Como É Cruel Viver Assim, uma adaptação da peça homônima de Fernando Ceylão. Aliás, a melhor peça dele.

Previsto para o dia 11 de outubro, às 21h40, no Cinépolis Lagoon, este Fargo versão Madureira fala de quatro fracassados de carteirinha (Fabiula Nascimento, Débora Lamm, o zepilíntrico Silvio Guindane e Marcelo Valle, um dos mais criativos atores da cena teatral brasileira) que decidem sequestrar um milionário para subir de vida. É um plot mais tragicômico do que o padrão habitual de Julia, uma cineasta que fez milhões nas vias da comédia com a franquia Meu Passado Me Condena. De fato, parece haver uma paleta de cores em Como É Cruel Viver Assim que não havia em seus longas de antes, na presença da violência, no retrato para a sobrevivência das espécies, numa lupa para a vida suburbana. Não por acaso, o filme chamou atenção em sua passagem pelo Marché du Film do Festival de Cannes, lugar onde, pelo praxe, não esperar-se-ia uma figura do cinemão sul-americano. Talvez, por isso tudo, haja uma certa surpresa em ter Julia concorrendo ao Redentor, láurea que já coroou longas seminais no prisma da evolução narrativa de nosso audiovisual, como Boi Neon (2015), O Som ao Redor (2012), Mutum (2007) e Contra Todos (2004).

Filme de Julia se baseia em peça cult de Fernando Ceylão

Mas, talvez, esse por isso tudo” simbolize um certo preconceito de nossa indústria, ou uma certa miopia, uma vez que, mesmo em seus longas de padrão varejão, Julia tinha algo de diferenciado. Seu cinema de humor é diferenciado sobretudo na comparação com o ethos da neochanchada (um filão sintonizado com a ascensão das classes C e D, subjetivando figuras que subiram na pirâmide social durante a Era Lula e a Era Dilma, de pernas pro ar pro consumo, até que a sorte nos separasse deles). Existe uma delicadeza de múltiplos matizes na maneira como Julia faz uma crônica de costumes a fim de fazer rir. Uma delicadeza de menina, uma delicadeza de mulher, uma delicadeza de quem domina (e regurgita) referências da Era Ploc e dos anos 2000, de Chaves a Freaks and Geeks, lidas à luz de uma brasilidade à moda Central do Brasil (1998) capaz de falar frontalmente com a mais desconhecida de todas as audiências do Presente: os millennials. Julia talvez seja (ou filme como) uma deles, daí falar com essa plateia – a consumidora mais ávida de toda a cauda longa do Mundo Contemporâneo – de modo frontal. E ela não é a única a dançar o millennial mambo.

Visto por cerca de 400 mil pagantes em duas semanas, Divórcio, a mais elogiada (e desopilante) comédia do momento, com Camila Morgado e Murilo Benício provando (de novo) serem forças da natureza, traz a assinatura de um millennial versado no bom repertório da Sessão da Tarde: o diretor Pedro Amorim. Com a cocada Mato Sem Cachorro (2013), ele já havia unido graça, carisma e análise dos comportamentos da juventude anos 2010. Seu novo longa é uma depuração de sua percepção sobre afetos e padrões de conjugação dos verbos “amar” e “viver a dois”.

“Altas Expectativas”: elogios em Montreal

Espera-se o mesmo perfil da dupla Pedro Antônio Paes e Álvaro Campos com a love story Altas Expectativas, acolhida com ternura no Festival de Montreal. Centrada no amor entre um jóquei com nanismo e uma empresária, este Cyrano pós-moderno tem sessão no Festival do Rio nesta sexta, dia 6, às 21h15, no Kinoplex São Luiz, e no sábado, dia 7, às 16h15, no Roxy. O bonde millennial congrega ainda Matheus Souza (cujo filmaço Eu Não Faço a Menor Ideia Do Que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida é uma súmula da Geração Y) e a dupla Rilson Baco e Felipe Bretãs, que subiu a libido do cinema abrindo os botões da blusa de Fiorella Mattheis em O Último Virgem (2016), um longa pouco visto, mas com boas soluções dramatúrgicas.

“Sob o Véu da Vida Oceânica”, animação de Quico Meirelles

Parece que Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola, que estreia no Dia das Crianças, tendo o eterno Quico do Chaves (Carlos Villagrán) ao lado de Danilo Gentili, pode botar o cineasta Fabrício Bittar nesse mambo também. O ainda pouco reconhecido Pedro Morelli (de Zoom) já é millennial. E, na animação, o diretor Quico Meirelles pode, facilmente, ser enquadrado nesse bonde com seu Sob o Véu da Vida Oceânica, que venceu o último Anima Mundi, assim como Rosária e seu O Projeto do Meu Pai. É hora agora de ver se o Redentor vai abençoar essa turma ou não. Talento para fazer barulho estético, Julia Rezende já demonstrou ter.
Boa Première Brasil pranóis.