‘Milkshakespeare’ sob o som e a fúria de Marcelo Serrado

‘Milkshakespeare’ sob o som e a fúria de Marcelo Serrado

Rodrigo Fonseca

27 Agosto 2017 | 12h50

Inimigo de Eddie Murphy e de Sylvester Stallone em cults dos anos 1980, o britânico Steven Berkoff criou um monólogo sobre os vilões do teatro shakespeariano que Marcelo Serrado encena nos palcos do Rio até outubro

Rodrigo Fonseca
Está previsto para o próximo Festival de Berlim, em fevereiro, a projeção de um filme em forma de monólogo, entre a ficção e o documentário, chamado Shakespeare’s Heroes and Villains, no qual o diretor Stephen Cookson transforma um doas atores mais associados à Maldade na História recente do cinema num reator vivo das ideias do bardo elisabetano: Steven Berkoff. Se você não lembra dele (esse careca na foto acima), basta lembrar do marchand Victor Maitland, que infernizava a vida de Eddie Murphy em Um Tira da Pesada (1984). Se não for suficiente, reviva na memória o coronel soviético que enfiava Stallone num poço de lama cheio de sanguessugas em Rambo II – A Missão (1985). É esse sujeito, um dos mais prolíficos signos da maldade no cinema dos anos 1980, quem escreveu Vilões de Shakespeare, um ensaio teatral sobre a onipresença e o sentido do Mal entre nós (a partir de peças do pai de Romeu e de Julieta), encenado pela primeira vez em 7 de julho de 1998, no Theatre Royal, em  Haymarket, Londres. Afinado com o atual estado de coisas do Brasil, neste momento de incertezas políticas e de desaprovação de boa parte da população ao atual líder de nossa República, Marcelo Serrado resolveu trazer o texto de Berkoff (e as provocações a ele inerentes) para os palcos nacionais: a peça, com formato de talk show, está em cartaz Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea, no Rio, até 1º de outubro. A sessão neste domingo, às 20h, será vitaminada por um debate. Nele estarão, além do ator (e aqui do P de Pop na mediação): a especialista no ethos e na tessitura dramática do autor de Como Gostais, a professora (doutora) Liana Leão; um bamba de números e suas sequelas, o economista Gustavo Franco; e o advogado José Roberto de Castro Neves, autor de Medida por Medida – O Direito em Shakespeare.

 

Prestes a voltar aos cinemas no (desde já controverso) Polícia Federal – A Justiça é Para Todos, em cartaz a partir de 7 de setembro, Marcelo Serrado aproveita a fase de apogeu dramático que alcançou em seu ferramental cênico – brilhando em novelas como Fina Estampa (2011), Velho Chico (2016) e o atual fenômeno Pega Pega – para incendiar o palco com deboche e reflexão. Numa atuações mais maduras de toda sua carreira, ele trafega por personagens shakespeariano icônicos como Coriolano, Iago, Lady Macbeth, Ricardo III (taí o ápice do espetáculo) e Shylock brincando com a ideia de arquétipo e aplicando-a ao nosso real. É uma espécie de jogral entre indivíduos de mentirinha que sintetizam, na fabulação, um espelho da loucura nossa de cada dia. E mais… (no caso do Brasil) um espelho de nosso desamparo.
Divida os elogios que a peça merece com o diretor Sérgio Módena (com uma encenação arejada pelo riso) e ao responsável pela adaptação da peça, o poeta e mais godardiano dos imortais da ABL Geraldo Carneiro.