Marina Person redescobre a ‘Califórnia’ da Era Ploc: domingo na TV Globo

Marina Person redescobre a ‘Califórnia’ da Era Ploc: domingo na TV Globo

Rodrigo Fonseca

30 Março 2018 | 11h11

Caio Horowicz ilumina “Califórnia”

Rodrigo Fonseca
Sabe aquela lógica de Sessão da Tarde, de filme gostoso, quentinho, pra ver, ver, ver e rever? Pois bem, Califórnia (2015) é a versão brasileira disso, marcando a estreia da VJ Marina Person como diretora de longas-metragens de ficção. Neste domingo de Páscoa, a TV Globo vai exibir esta delícia à 1h20, na sua Sessão de Gala, na virada da Semana Santa para segunda. Lá fora, a produção brilhou nos festivais de Roterdã, na Holanda, e de Tribeca, em Nova York, tendo sido bem elogiado em ambos.

Segundo a geografia de afetos cartografada por Marina, a Califórnia fica logo ali. Mas esse “ali” não quer dizer um perímetro físico, demarcado no mapa dos EUA, e sim uma área emotiva – às vezes doída, às vezes chapada – no imaginário da gente, não importa a idade. Nela residem sonhos de conquista da liberdade, ao explorar a imensidão de um mundo celebrizado pelo cinema e, ao lado desses sonhos, moram músicas – aquelas das boas, tipo The Cure e cia. – que embalam a perdas de diferentes virgindades: a de beijos na boca, a da transa inaugural, a da inocência frente às decepções que o verbo “amadurecer” nos apronta. Essa Califórnia virou filme. Algo que quem nunca viu Person, o documentário dirigido por Marina em 2007, sobre seu pai (Luís Sérgio, diretor do clássico São Paulo S/A), chamaria de um filme-casulo. Por quê? Porque Marina entrou nele ainda um pouco VJ e saiu cineasta com “C”, com a maturidade do risco e a sabedoria de fazer da delicadeza seu norte.

Entre imperfeições e belezuras, acertos e falhas, Califórnia se equilibra como um filme de estreia elegante: suas ambições narrativas são de fôlego curto, mas seu poder de comunicabilidade é farto, pelas veredas da doçura, com o açúcar Ploc da década de 1980. É sobre ela que o longa fala. Ou melhor, é, a partir dela, que o longa fala, a fim de retratar o desaguar das expectativas da adolescente Estela (a.k.a. Teca) num mar de sabores e dissabores… aqueles que só se vivem aos 17 aninhos. É essa a idade que Teca tem em 1984, quando espera a viagem aos Estados Unidos prometida desde 1982, quando abriu mão de sua festinha de debutante. Detalhe importante: Teca revela ao cinema Clara Gallo, jovem atriz com fome de atuar bem. Seu desempenho é intenso, sem jamais resvalar nas caricaturas da aborrescência.

Para Teca, a meta do futuro é viajar América adentro para conhecer o lado Norte do Novo Mundo ao lado de seu tio (e super-herói) Carlos, um jornalista especializado em rock vivido por Caio Blat (que hoje brilha nos palcos do CCBB no Grande Sertão: Veredas de Bia Lessa). Enquanto o passeio esperado não chega, a mocinha encara o colégio, dividida entre cochichos com as melhores amigas e flertes com o aspirante a surfista Xande (Giovanni Gallo). Nesse período, chega ao colégio, por transferência, um aluno novo, de visual à la Tim Burton, de quem nada se sabe e tudo se especula (sobretudo que ele é gay): JM, papel confiado ao surpreendente Caio Horowicz, Trofèu Redentor de Melhor Coadjuvante no Festival do Rio 2015, onde o longa fez sua estreia. Além dele, o elenco cresce com a entrada da (sempre notável) atriz Gilda Nomacce (a melhor de sua geração) na pele de uma empregada doméstica.
Destaca-se ainda um nutriente a mais, capaz de fazer o filme crescer: a fotografia de Flora Dias, sempre numa paleta de cores que nunca berra, mas captura o olhar. A fusão de imagens de arquivo e encenações também é rica, criando terreno para um resgate de tempo capaz de deixar Marina refletir sobre a eclosão da Aids e o alvorecer do B-Rock e, de quebra, emocionar a plateia, sem arroubos de invenção, mas com ternura, sobretudo quando toca The Caterpillar, na voz de Robert Smith para “curar” nossas ressacas, sobretudo a descrença no poder regenerativo do verbo “amar”.