‘Marguerite et Julien’ é aposta obrigatória para a Mostra de SP neste domingo

‘Marguerite et Julien’ é aposta obrigatória para a Mostra de SP neste domingo

Rodrigo Fonseca

23 Outubro 2016 | 14h01

“Marguerite et Julien”: nos baços do incesto e na toada do pop

RODRIGO FONSECA
Vem da França o grande filme da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo deste domingo: o hino ao querer Marguerite et Julien, que não tem medo de se afogar no brega, no barroco e no pop. Passa às 19h, no Cinemark Cidade de SP, e faz justiça a cada tostão do ingresso. Sua gestação se deu em Cannes, em 2015, na disputa pela Palma de Ouro. Embora tenha sido esnobada pela ala mais careta da crítica europeia, por sua opção de falar sobre a paixão numa abordagem descabelada, gritada e babada, com o colorido à flor da pele e música atrás música, o novo trabalho da pimenta Valérie Donzelli, realizadora de A Guerra Está Declarada (2011), reafirma o lugar da love story como um gênero narrativo afilhado do melodrama.
Falando de um incesto entre irmãos, o longa-metragem de Valérie põe o nicho das tramas românticas a um só tempo na trilha do trágico e na rota do pop, tirando um enredo aparentemente baseado em fatos reais, relativos ao século XVII, e trazendo-os para uma reconstituição caricata dos anos 1800, cheia de elementos contemporâneos. É o caso do helicóptero que passa pela tela mais de uma vez ou dos acordes pós-modernos na trilha composta por Yuksek, muso da rítmica eletrônica na França. O resultado é algo parecido com as misturas barroco-operísticas de linguagens audiovisuais feitas pelo diretor brasileiro Luiz Fernando Carvalho (Lavoura Arcaica) na TV, vide Capitu (2008) ou a recém-encerrada Velho Chico.

7 Marguerite et Julien
A porção Carvalho de Valérie arrancou aplausos de Cannes pela maneira como ela aplica tempos de encenação teatrais na condução dos atores, sobretudo os protagonistas Anaïs Demoustier (de uma beleza transcendente) e Jérémie Elkaïm, parceiro da cineasta na arte e na vida a dois. Ele se sai melhor no duo principal, com um gestual expressivo a favor da construção de um herói romântico à mercê do desejo pela irmã. O interdito social vai fazer da dupla alvo de uma caçada da justiça. A participação de Geraldine Chaplin como uma matriarca espanhola que cruza o caminho de Marguerite garante momentos de humor ao filme.

Doses extras de Marguerite et Julien estão reservadas para o dia 29, às 17h40, no Espaço Itaú Augusta, nos dias 31 (18h40) e 1 (21h30), no Espaço Itaú Frei Caneca, e no dia 2, às 19h30, no Cinearte 1.

Quanto à seleção brasileira da Mostra 4.0:
Há dois filmes obrigatórios neste domingo: às 21h45, o Espaço Itaú Frei Caneca exibe o drama Maresia, laureado no Cine Ceará; às 22h, no Reserva Cultural 2, tem Leste Oeste, de Rodrigo Grota, aclamado no Cine PE.

“Maresia”: Julio Andrade na onda do risco

Abrilhantado em seu elenco pelo eterno Capitão Furacão, o septuagenário ator e dublador Pietro Mario Bogianchini, o aquático Maresia, de Marcos Guttmann, é uma iguaria a ser degustada com o paladar do exotismo. A narrativa especular que o diretor de curtas como KM 0 construiu com base na prosa de Barco a Seco, de Rubens Figueiredo, compõe uma espécie de tratado sobre estética com base numa trama ficcional entre um especialista em artes plásticas e a obra errante de um pintor dado como morto há décadas. Os dois papéis foram oferecidos ao mesmo ator, a fúria viva Julio Andrade, cuja selvageria essencial, serve aqui tanto para dar corpo a um intelectual fechado a emoções (o marchand e pesquisador) quanto a um artista obediente apenas à maré. Ao seguir por estas duas trilhas, cada uma em um ponto da História, apoiado na afiada montagem de Waldir Xavier e Marília Moraes, sempre atenta à sensualidade, Guttmann esgarça uma bifurcação amorosa, na qual há de um lado a paixão do pintor por uma viúva (a pérola Mariana Nunes) e, do outro, a paixão de um analista por seu ofício – e pelo ideal de “verdade” que crê ser capaz de extrair deste trabalho. O resultado, além de uma homenagem à pintura como expressão inquieta do inconsciente, é uma discussão sobre o fazer artístico, pondo na balança criadores e críticos.

Em sua passagem pelo Cine Ceará, o filme ganhou os prêmios de melhor ator (Julio) e direção. Tem mais Maresia nesta segunda, 16h30m, no CineSesc, e no dia 30, no Cinemark Cidade São Paulo, às 19h.

“Leste Oeste”: curvas do querer

Leste Oeste é uma espécie de faroeste sobre quatro rodas, um drama on the road com cheiro de pneu queimado, costurado com uma elegância formal ímpar no atual seio do cinema brasileiro. Sua tessitura dramática é reforçada por uma linha afetiva das mais grossas, trançada com o cerol do desamparo. Seu realizador é Rodrigo Grota, um talento em curta metragem, celebrizado no formato pela potência da Trilogia do Esquecimento – formada por Satori Uso (2007), Booker Pitman (2008) e Haruo Ohara (2010). Grota passa aos longas pelas curvas da ousadia, fazendo do ambiente das corridas de carro apenas uma biosfera para uma outra competição, de machezas, onde o troféu máximo é o amor de uma mulher que catalisa todos os quereres e todos os poderes de três gerações de uma família.

A julgar por clássicos como Grand Prix (1966), de John Frankenheimer, ou mesmo uma traquinagem pop como Roberto Carlos a 300 Km por Hora(1970), de Roberto Farias, os filmes de corrida tendem a liberar uma descarga de adrenalina na tela capaz de eternizar sequências de ação esportiva. Mas há algo mais do que cheiro de borracha e de testosterona nesta produção egressa do Paraná. Seu protagonista é  Ezequiel, um ás das estradas vivido por Felipe Kannenberg. Já a beldade por quem todos brigam é Stela, vivida com esplendor por Simone Iliescu. Ambos ganharam prêmios (melhor atriz e melhor ator) no Cine PE.

Com trilha sonora assinada por Rodrigo Guedes, líder do Grenade (uma das principais bandas do indie rock brasileiro), Leste Oeste foi filmado em meio a provas reais: as 100 Milhas de Kart e as 500 Milhas de Londrina. Na trama, o ex-piloto Ezequiel decide retornar à sua cidade natal, depois de um sumiço de 15 anos, para realizar uma última corrida. Lá, ele reencontra Stela, ex-mulher de seu irmão, Pedro, um jovem aspirante a piloto, e Angelo, o patriarca da família. Desse reencontro de almas danadas, nasce um combustível narrativo de explosão, que mais parece uma mistura do Corrida sem Fim, de Monte Hellman, com The Brown Bunny, de Vincent Gallo.

Tem mais Leste Oeste nesta segunda, às 15h15, e no dia 31, às 13h30, sempre no Espaço Itaú Frei Caneca.

Nesta terça, é a vez de a Mostra de SP receber um dos longas mais premiados do Festival do Rio 2016: o drama gaúcho Mulher do Pai, de Cristiane Oliveira. De lá, ele saiu com os prêmios de melhor direção, fotografia e atriz coadjuvante (Verônica Perrotta). Passa às 22h10, também Espaço Itaú Frei Caneca. Na trama, um cego (Marat Descartes) tem que aprender a tomar conta da filha adolescente.