Marcus Majella põe comédia e drama de pernas pro ar

Marcus Majella põe comédia e drama de pernas pro ar

Rodrigo Fonseca

19 Junho 2017 | 11h43

Marcus Majella vai do cartum à comoção em “Um Tio Quase Perfeito”, inventário bem-humorado das cicatrizes dos novos arranjos familiares

RODRIGO FONSECA
Carente de Leandro Hassum, hoje envolvido em sete filmes com previsão de chegar ao circuito até 2018, a comédia brasileira padrão varejo (CBPV) tem dado tilte em seu desempenho de arrecadação em circuito, sem alcançar as cifras almejadas em relação ao resultado de anos anteriores e do lastro de lucro deixado por Paulo Gustavo e seu Minha Mãe É Uma Peça 2. Apostas de peso de 2017 faturaram abaixo do esperado, mesmo aquelas que oxigenaram o filão de ideias, como o quindim TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva, que mostrou o quanto Tatá Werneck tem poder para nos surpreender. Há, agora, um novo corpo estranho flutuando no céu da neochanchada: Um Tio Quase Perfeito. Corpo estranho não por ter bizarrices, mas por investir pesado na delicadeza. Não cabe a ele o perfil “filme de humorista”, conceito preconceituoso, que Hassum e Ingrid Guimarães desintegraram em seus sucessos, mas que continua a ser aplicado em projetos mais caricatos. O que o diretor Pedro Antonio entregou ao público vai além do humor, na melhor lógica da cartilha universal do family film, conceito que funde emoções distintas de modo a agradar crianças, teens e adultos em igual medida. E, da mesma forma como se viu em TOC, no qual Tatá construía uma poliedro humano de vértices afetivos, o protagonista desta nova produção de Mariza Leão (de Meu Passado Me Condena), Marcus Majella, não está em jogo só com suas (variadas e sólidas) virtudes como comediante, mas sim como um ator aberto à pluralidade dos gêneros dramáticos e às representações do homem contemporâneo.

Embora tenho sido associado numa parentela indireta a Uma Babá Quase Perfeita (1993), filme-santo, com um Robin Williams transcendental, Um Tio Quase Perfeito não é remake nem pastiche. É, sim, um exercício de brasilidade pura ao repensar um dos arquétipos mais ricos de nossa herança ibérica: o herói pícaro… o malandro. Zé Pelintra versão pão Plus Vita, o Tio Tonny (Majella, esbanjando carisma) é um João Grilo de estimação das metrópoles mais pop do país. Nas sequências iniciais, numa estrutura de roteiro que teóricos de dramaturgia chamam de fábula de apresentação, o diretor do longa paga (e caro) o dízimo à necessidade de riso da plateia com uma série de situações que estratificam Tonny como um personagem de comédia: ele trabalha de estatua viva, finge ser pastor, vende água santa, faz todo o tipo de bico. É um tipo picaresco na linha do trago a pessoa amada de volta em…

Heroísmo pícaro

Garantida a gargalhada, entra em cena a coadjuvante que agrilhoa Tonny à sua condição de trambiqueiro, a amorosa oponente de sua evolução: a mãe, Cecília (a sempre ótima Ana Lúcia Torre). Igualmente pilantra, ela leva o filho a conjugar o verbo “enrolar” na desinência do “venha a nós”. Sempre que ela aparecer, teremos riso, mas com tempero cítrico de crítica de costumes.

Mas como não estamos diante de uma trama cômica pura e sim de uma dramédia, Pedro Antonio abre, já nos primeiros minutos, a fábula da intriga, ou seja, a virada de roteiro que qualifica o obstáculo a ser transposto por um herói afetado, egoísta, cheio de gírias e nada polido: cuidar de seus três sobrinhos, frutos de uma união fraturada entre sua irmã, Ângela (Letícia Isnard, a cota de elegância nesta fauna), e um político ausente, Gustavo (Eduardo Galvão, sempre eficaz). Ângela viaja e deixa com Tonny os rebentos que tanto ama: Patrícia (Jullia Svacinna), João (João Barreto) e Valentina (Sofia Barros) – que brindará a plateia com situações inusitadas -, além de um lagarto GG. Com esse exército de Brancaleone nas mãos, Tonny tem contingente de sobra para ajudá-lo a desentulhar os escombros de desamor de seu peito. Pinta aí o rasgo inicial de ternura do filme, que, a fim de movimentar a narrativa em outra toada, a da tensão, introduz um coadjuvante de alinhamento moral cruel, um agiota armado, para servir à trama como um dinâmico para a evolução de Tonny.

Com o perigo em campo e a afetividade também, a relação à primeira vista hostil entre o malandrão e seus sobrinhos vai se afinando para um terreno de equilíbrio no ritmo em que ele dribla sua fraqueza central (misbehavior, na língua da Teoria Dramática): o complexo de Peter Pan que retarda seu amadurecimento. Na hipótese de poder ferir três crianças necessitadas de amor, ele se faz cavalo e recebe o exu adulto que abre os caminhos de sua atual família. Uma família que espelha os novos modelos de formação clânica do Brasil (ou melhor… do mundo contemporâneo). Modelos estes que, embora funcionem, não estão imunes a cicatrizes. Isso fica ainda mais claro nos desabafos de Ângela e na onipresente ausência de Gustavo, assim como no choro engasgado de João diante da falta de um abraço que o abrigue na sombra da paternidade. Tonny não terá esse abraço a dar. Seu abraço tem outra temperatura: tem a celulite amorosa do abraço dos tios, aquela que não preenche lacunas, mas abafa querências.

Com uma inteligência cênica invejável, Majella compõe Tonny como uma figura dúbia em muitos aspectos, sobretudo no quesito caráter. Há traços de afetação, mas poucos. Há traços de autismo emocional, mas discretos. Sabe-se pouco de suas opções ou dos equívocos do passado que justifiquem seus passos e suas decisões, mas tudo é crível. O que interessa mais à trama, ou seja, sua lealdade a um projeto de família… isso é indiscutível, conduzindo Um Tio Quase Perfeito para um terreno onde o quaquaquá e a dor convivem com irmandade. E esse equilíbrio se estende para o plano formal com a vertiginosa montagem de Maria Rezende, que alinhava lirismo e resfolego sem comprometer o compasso do que é narrado a partir de uma fotografia realista seca, feita por Julio Constantini. Essa irmandade é uma constante nos filmes que Mariza vem produzindo desde Meu Nome Não é Johnny (2008), o que traça uma linha autoral em seu olhar, especializado em catapultar estrelas. Foi assim com Ingrid em De Pernas Pro Ar (2010). Merecia ser assim com Majella, numa atuação de respeito, que deixaria Mrs. Doubtfire orgulhosa… esteja ela onde estiver.

 

 

 

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