Linklater chega na quinta, e é ‘A Melhor Escolha’ da semana

Linklater chega na quinta, e é ‘A Melhor Escolha’ da semana

Rodrigo Fonseca

20 Março 2018 | 11h47

Richard Linklater dirige Bryan Cranston no set de “A Melhor Escolha”

Rodrigo Fonseca
Depois de uma longuíssima espera, amenizada por uma passagem pelo Festival do Rio de 2017, o novo (e comovente) filme de Richard Linklater vai estrear no Brasil nesta quinta-feira (22 de março), confirmando a pega existencialista do diretor texano, sempre debruçado sobre a arte de se acomodar rotinas, surpresas e traumas: Last Flag Flying. No circuito brasileiro, a produção vai se chamar A Melhor Escolha e chega por estas bandas  via Imagem Filmes, apoiado no carisma de Bryan Cranston, Steve Carell e Laurence Fishburne. Este tocante novo exercício de dramaturgia do realizador de Boyhood (2014) é filme de autor e filme de ator, graças à interação equalizada entre os três. A trama parece ser uma espécie de parte dois para um cult do pacifismo a década de 1970: A Última Missão, de Hal Ashby. O original passou por Cannes em 1974 e saiu de lá com a láurea de melhor ator para Jack Nicholson. Ele vivia o marinheiro Buddsky, empenhado em levar um jovem desertor (Randy Quaid) para a prisão, com a ajuda do colega de farda Mulhall (Otis Young). Ambos os filmes tem por base a literatura do escritor Darryl Ponicsan, um especialista no universo militar.

Na trama original, os três cruzavam o país, enquanto o rapaz, chamado Meadows, fazia o possível para quebrar o padrão subserviente e conservador de seus captores. Com seu jeitão beberrão e brigão, Buddusky aprendia a enxergar as contradições sociais dos EUA e a desafiar os ditames das Forças Armadas, enquanto Mulhall aprendia a brigar pelos ideias negros, desafiando o racismo de que era vítima.

Em A Melhor Escolha, ambientado na era George W. Bush, no início dos anos 2000, em meio à caçada a Saddam Hussein, Linklater deu ao eterno Walter White de Breaking Bad um tônus e um ethos similar ao que Nicholson tinha, tendo Carell emulando as inquietações morais de  Meadows e confiando a Fishburne toques de Mulhall. Os nomes mudaram, para dar um ar de novidade. Meadows virou Doc. Vivido por um Carell sem seus faniquitos habituais, um homem em luto pela morte do filho do front, que resolve arrastar o cadáver do garoto, da Costa Leste dos EUA a New Hampshire, com uma ajuda dos velhos colegas de farda: Sal (Cranston, numa atuação contagiante) e Mueller (Fishburne), agora um reverendo. O tempo passou para eles e para a América, mas Sal prefere não acreditar nisso completamente.

 

Como de costume, a palavra é a vedete da estética de Linklater: tudo existe pelo verbo, sejam de ação ou de estado. Conversa-se sem parar no cinema que ele faz, vide Antes do Amanhecer (1995) e seus derivados. Nem sempre os verbos resolvem situações nas narrativas de planos médios ou closes do cineasta, aqui com planos-sequência bem sazonais. Mas a saliva que se produz em suas histórias vira água benta, sacralizando o direito à dúvida, à fragilidade, ao erro. Em A Melhor Escolha fala-se de Vietnã, de carraspanas inesquecíveis, de ereções (o melhor diálogo do filme) e do sentido de sair pelo mundo afora tremulando a bandeira dos EUA. É um filme sobre o luto, sobre perdas que não podem ser amenizadas com desculpas. Cicatrizes continuaram na alma de seus personagens ao fim da jornada, mas elas estarão secas, menos ardidas. A amizade serve de Merthiolate às feridas da vida, que coçam.

p.s.: O filme mais recente de Linklater foi a deliciosa comédia universitária Jovens, Loucos e Mais Rebeldes (2016). Ele prepara ainda um projeto com Robert Downey Jr., que, há dez anos, não faz outra coisa que não ser o Homem de Ferro, desperdiçando seu múltiplos talento em um só (ótimo) personagem.