Lições que aprendemos com Clint Eastwood

Lições que aprendemos com Clint Eastwood

Rodrigo Fonseca

08 Fevereiro 2018 | 19h04

De olho em um novo trabalho como ator, Clint Eastwood emplaca seu 36º trabalho como diretor de longas-metragens: “15h17: Trem para Paris” (Foto: Carlo Allegri/Reuters)

Rodrigo Fonseca
É temporada de Oscar, mas o filme mais esperado do momento nos EUA nada tem a ver com estatuetas douradas, mas sim com fatos reais, com terrorismo e com um nome que, desde Por Um Punhado de Dólares (1964), é sinônimo de surpresa em solo americano: Clint Eastwood, que volta às telas americanas nesta sexta-feira com 15h17 – Trem Para Paris. O projeto utiliza três não-atores para reviver na ficção aquilo que fizeram na vida real: deter um atentado terrorista na França. Aos 87 anos, prestes a atuar de novo, na pele do traficante ancião Leo Earl Sharp, Eastwood esbanja um frescor digno de adolescente na criação das cenas de batalhas de seu novo projeto, no qual extraiu de intérpretes amadores um estrelismo inusitado. Suas tomadas de batalha são tão frenéticas quanto as de um filme de ação com Sylvester Stallone. A esse frescor, ele alia a experiência de anos narrando situações de conflito armado, alcançando um realismo que não precisa se escorar em muletas documentais para impressionar. Transformado em astro na virada dos anos 1950 para os 60, na TV, na série Rawhide, ele contabiliza já 48 anos no ofício de diretor de cinema, explorando o humanismo em situações adversas. Sua obra-prima ainda é Os Imperdoáveis (1992) e seu personagem mais icônico, como astro, permanece o Inspetor Harry Callahan. Mas ele segue filmando em busca de novidades. Há alguns anos durante a promoção internacional de uma retrospectiva brasileira de sua obra, o eterno Dirty Harry concordou em conversar com o P de Pop, por telefone, sobre a mitificação que o cerca e sobre seu método de dirigir atores. Esta entrevista é uma mescla desta conversa com um papo entre eles e a gente em Cannes. Eis as palavras dele sobre seu ofício…

O que o senhor busca a cada filme que assume para dirigir?
CLINT EASTWOOD: Sou meio Don Siegel, meio Sergio Leone e mais um tanto de outras grandes figuras que me dirigiram. Sou tudo isso somado a algumas descobertas pessoais e a um desejo de me expressar, de contar histórias. É complicado para um diretor que se formou intuitivamente, inspirado pelo talento de grandes realizadores por quem foi dirigido, poder julgar seu próprio trabalho. Da mesma forma, é muito difícil controlar a imagem que as pessoas fazem de mim, a partir de declarações públicas, de diferenças políticas. Uma vez que sou ator e que optei não me aposentar, pelo prazer que tenho trabalhando, abri um canal direto com o público. E a plateia tem toda a liberdade para me interpretar como quiser e como seu imaginário permitir.

E, em geral, como o público vê e entende a sua imagem?
CLINT EASTWOOD: Alguns vêem certos papéis que fiz como modelos a serem seguidos. Já outros olham meus personagens de modo crítico, com mais distanciamento, buscando uma imagem tridimensional de quem sou. Eu não penso muito sobre mitificações, uma vez que entendo meu trabalho como um processo de aprendizado eterno. O motivo que me leva a aceitar concorrer em eventos como o Festival de Cannes, por exemplo, é a certeza de que não sou algo faraônico, monolítico, um motor imóvel: sou um artista, ou seja, alguém em movimento. Eu aprendi a atuar de maneira instintiva, buscando… pesquisando… sem analisar muito meus gestos. Se eu intelectualizo demais o que faço, perco o instinto de criar e viro um teórico. Não sei teorizar.


Para além do instinto e do sendo de descoberta, o senhor consegue identificar uma questão que norteie todos os seus filmes como diretor, capaz de defini-lo como um cineasta autoral?
CLINT EASTWOOD: Não escolho meus projetos como se fosse uma antologia, aproximando algo que queira retratar no presente, como American Sniper, de questões éticas ou estéticas já dissecadas por mim no passado. Não olho para trás. Talvez essa marca autoral, baseada em uma inquietação recorrente, exista em mim, mas seria perigoso para mim identificá-la: se eu o fizer, eu me engesso. Eu gosto de fuçar, de aprender. O cinema é tecnologia, então você precisa se atualizar, sempre. Tenho feito filmes sobre pessoas muito diferentes umas das outras, pois me interesso pela diversidade da condição humana. Sou um ator de formação: atores jamais se acomodam no mesmo papel.

Quem são as pessoas que o senhor tenta retratar?
CLINT EASTWOOD: Por um lado, eu faço longas-metragens sobre pessoas que lutam para seguir adiante em seus objetivos, como Menina de Ouro e Jersey Boys. Do outro, falo de pessoas que são talentosas, mas tendem à autodestruição, como Bird e Honkytonk Man. E há ainda filmes sobre gente que luta para afirmar sua individualidade, a partir de seu próprio código moral, como é o caso de J. Edgar ou mesmo de Sully. O que pode haver em comum na minha trajetória como diretor é o fato de eu falar desses personagens explorando os prós e os contras de suas atitudes, buscando lados contraditórios dos meus heróis. Ações geram reações. É física. Sempre glorifico o indivíduo em seu conflito contra inércias burocráticas. Mas eles caem dessa inércia diretamente para o conflito, para a balança entre a retidão e a vaidade. Isso é a dramaturgia.