Leveza e risos marcam a abertura de Première Brasil com excursão à Rússia

Leveza e risos marcam a abertura de Première Brasil com excursão à Rússia

Rodrigo Fonseca

08 Outubro 2016 | 09h56

Química plena entre Martha Nowill e Maria Manoella abre a seleta de ficções da competição nacional do Festival do Rio 2016: 'Vermelho Russo

Química plena entre Martha Nowill e Maria Manoella abre a seleta de ficções da competição nacional do Festival do Rio 2016: ‘Vermelho Russo”, de Charly Braun

RODRIGO FONSECA

Delícia de abertura teve a competição nacional de ficções do Festival do Rio na noite de sexta com Vermelho Russo, ciranda de um monte de coisa junta (metalinguagem, memória, turismo, boas atrizes, elementos documentais, teatro e Michel Melamed) misturada com leveza por Charly Braun. É recorrente, na história da Première Brasil, a menina dos olhos do evento carioca, a escolha de filmes sorumbáticos para inaugurar o menu das novas experiências narrativas do país. Por isso, foi uma surpresa a seleta brasileira ser aberta por um filme divertido, que arranca risos múltiplas vezes, pela covalência de naturalidades (e talentos) entre Martha Nowill (uma força da natureza) e Maria Manoella (num tom descontraído contagiante). Imagine este novo filme do diretor de Além da Estrada (2010) como uma mistura de Encontros e Desencontros (2003) com Tio Vanya em Nova York (1994), de Louis Malle (1932-1995) na Rússia.

Conhecido pela natureza vetorial de deslocamento e desterro de seus trabalhos como diretor, Braun, também ator, usa seu cabedal como intérprete para exercitar, no doce Vermelho Russo, uma espécie de progressão aritmética de construção de afetos e de consolidação de personagens, mediado pelas artes cênicas e por uma narrativa que beira franjas documentais sem nunca abrir mão de seu potencial cômico na ficção. Nos acordes dessa balalaika, protagonistas e coadjuvantes preservam seus nomes reais, o que sugere um exercício metalinguístico, baseado em processos de criação e vivências pessoais de suas atrizes. Na trama, Manoella viaja para terras russas, para fazer um curso de atuação sob a metodologia de Stanislavski, e leva Martha consigo, mesmo sem pedir (ou sem querer), como companhia, como colega e como bagagem.

Vestígios de um império

Vestígios de um império desmanchado

Lá fora, numa terra estrangeira, de língua estranha aos nossos ouvidos e aos nossos vocábulos, as paciências e as vocações de ambas serão testadas por uma série de provações, inclusive da ordem do desejo, com a passagem de um furacão melamédico – Michel vive (bem) um ator que vai triangular com os beijos das duas. Esses testes se desenham diante de nós num paralelo com o trânsito das duas por paisagens que nos remetem a um passado do Cinema, da Poesia e de uma nação desmanchada no ar da política (a URSS, em vestígios da História, na arquitetura). Mais do que isso, a dinâmica de Martha e Manoella, seja em aula, seja nas ruas, seja em brigas no quarto, constrói conosco um laço de cumplicidade, na investigação de ambientes filtrados pelas lentes do encanto (nunca do exotismo) e no esgarçamento da tolerância. O resultado é um dispositivo vívido, que faz avançar a fricção de Braun em sua busca (autoral) por criar uma poética da andança, apoiado na fotografia em constante mutação de Alexandre Samori. Destacam-se as cenas de D.R. entre Manoella e seu namorado, interpretado por Fernando Alves Pinto.

“Redemoinho”: de prosa com Ruffato

E enfim chegou o dia de o Brasil ver um de seus filmes mais esperados: Redemoinho, trabalho de estreia do diretor de TV mais aclamado da atualidade no país, o mineiro José Luiz Villamarim (de O Rebu e Justiça), baseado na literatura de Luiz Ruffato. Na trama dois amigos que tomaram rumos profissionais e afetivos distintos em suas vida se reencontram em Cataguases, às vésperas de Natal. Partindo da junção de que os protagonistas são Irandhir Santos e Julio Andrade (dois dos maiores atores do país), que o roteirista é George Moura (autor do cult Amores Roubados), que Cássia Kis Magro e Dira Paes estão no elenco e que a fotografia é do bruxo da luz, Walter Carvalho, fica fácil entender o clima de “já ganhou!” às voltas da produção. Sua sessão será às 21h45m, no Cine Roxy, precedido pelo igualmente esperado Divinas Divas, um .doc que marca a estreia da atriz (e que atriz!) Leandra Leal na direção.  

“La Vingança”: um show de Felipe Rocha

Fora da competição brasileira, o boca a boca fervilha por La Vingança, cuja sessão terminou ontem com direito a muitos sorrisos satisfeitos. Fernando Fraiha assina a direção desta azeitada coprodução Brasil x Argentina, com o ótimo Felipe Rocha, na qual o personagem deste, Caco, é obrigado a viajar para as terras de nossos hermanos na cola de um amigo exótico, Vadão (Daniel Furlan), no momento em que tem um dilema amoroso para resolver por aqui. A jornada abre um oceano de confusões, mas rende um processo de autodescoberta para ambos – e deflagra uma autoanálise em nós, nas ondas do bromance. A fotografia de Gustavo Hadba e Felipe Reinheimer acha o colorido ideal às peripécias de dois sujeitos à mercê do acaso e do companheirismo, numa trama inspirada numa premissa trazida pelo ator Jiddú Pinheiro e desenvolvida com um tom rascante de humor, sob os auspícios da produtora Bianca Villar. Esta traz em seu invejável currículo os filmes mais influentes de Beto Brant nos anos 1990 e 2000, como O Invasor, o que garante a um projeto cômico como este, de Fraiha, um coeficiente múltiplo de elementos inusitados. Mas o talento de Felipe, como Caco, é “o” acerto deste projeto.

“Manchester à Beira-Mar”: Oscar à vista

Da Argentina para os outros vértices do planisfério, o Festival do Rio busca neste sábado para sua programação o premiado Capitão Fantástico (Captain Fantastic), que deu a Matt Ross a láurea de melhor direção na seção Un Certain Regard de Cannes, em maio. Made in USA, o longa-metragem se (e nos) embebeda do talento GG de seu ator, Viggo Mortensen, no papel de um físico e escritor que vive isolado da civilização, com sua penca de filhos, alheio a tudo que é tecnológico e químico, chamando Coca-Cola de “água venenosa”. Mas a morte de sua mulher obriga este ermitão a voltar para a sociedade e acompanhar o velório. A produção terá projeção às 14h10m e às 19h, no Kinoplex São Luiz.

Ainda neste fim de semana, será exibido um dos potenciais concorrentes ao Oscar 2017: Manchester à Beira-Mar (Manchester By The Sea), de Kenneth Lonergan, que chegou cravejado de elogios de Sundance. Com sessão neste sábado, às 19h10m, no Reserva Cultural, de Niterói, o longa bota o sempre provocativo Casey Affleck na pele de um fracassado profissional obrigado a cuidar de seus sobrinhos.