‘Leto’: Cannes se delicia com o ‘Bete Balanço’ da Russia

‘Leto’: Cannes se delicia com o ‘Bete Balanço’ da Russia

Rodrigo Fonseca

10 Maio 2018 | 08h32

Teo Yoo vive o Renato Russo dos eslavos: Viktor Tsoi, poeta do rock de Leningrado retratado em “Leto”

Rodrigo Fonseca
Sabe o efeito Toni Erdmann, aquele sentimento de “amei!” que cerca filmes aos quais não se dá nada, à primeira vista? Ele acaba de devassar Cannes de novo, da forma como se deu aqui em 2016 com o longa da alemã Maren Ade, mas, agora com uma produção que pode ser definida como “o Bete Balanço da Rússia”: o musical Leto. O simples fato de seu diretor, Kirill Serebrennikov, não poder comparecer ao balneário por estar detido em prisão domiciliar em seu país – acusado de malversação se verbas públicas –, já seria suficiente para atrair atenções para esse delicioso longa-metragem ambientado na cena rock eslava dos anos 1980 e 90. Mas ele tem muito mais do que quiproquós jurídicos: o preto e branco de sua delicada fotografia não apenas traduz o espírito de “tempo perdido” do enredo, sobre um Renato Russo cossaco, como valoriza os recursos de animação usados para dar um tom de videoclipe às sequências não realistas. E ouvir um ônibus russo lotado cantarolar Psycho Killer é um prazer sem par. Vai ser uma injustiça se esse filme sair daqui sem prêmios.

Batizado em referência a uma canção (traduzida em Português como “Verão”), Leto revive a saga do compositor e roqueiro soviético de origem coreana Vikto Tsoi (1962-1990), cujas letras serviram de bandeira para uma geração que cresceu vendo a URSS se esfacelar. Suas cifras flertam com a liberdade, cantada com ecos punk à la Ramones por sua banda, Kino. Ele foi “o” poeta de Leningrado. E o longa faz jus à irreverência de sua época numa narrativa leve, porém abusada, com muitas deixas para o humor e para suspiros, pois há uma trama romântica entre ele e a mulher de um colega. Não havia espectador na sala Lumière do Palais des Festivals que não se contagiasse com a trilha sonora e com a atuação de Teo Yoo, que vive Viktor.

A pergunta que não quer calar na cidade: Godard vem ou não exibir seu Le Livre D’Image aqui, na manhã deste sábado. Os últimos trabalhos dele por aqui – Filme Socialismo e Adeus à Linguagem – foram exibidos sem a presença do mítico realizador suíço (nascido em Paris, em 1930), que falta de propósito, num gesto de provocação.
Até o momento, além de Leto, o drama americano Wildlife, de Paul Dano (jovem ator que fez o irmão da Pequena Miss Sunshine) é o melhor de Cannes até aqui, sendo que houve divisão de opiniões acerca do egípcio Yomeddine, também em concurso. Nesta sexta, a cidade vai ver um thriller de espionagem à moda coreana que promete mobilizar os distribuidores: The Spy Gone North, de Yoon Jong-Bin, sobre um agente envolvido numa conspiração entre as duas Coreias, nos anos 1990.