Laís Bodanzky sem fator de cura

Laís Bodanzky sem fator de cura

Rodrigo Fonseca

08 Fevereiro 2018 | 20h19

O amor e outros objetos pontiagudos são amolados em “Como Nossos Pais”: sexta no CCBB-RJ, em debate da ACCRJ

Rodrigo Fonseca
Fórum do que de mais possante em matéria de audiovisual chega em nossas telas de janeiro a dezembro, a mostra Os Melhores Filmes do Ano da ACCRJ, organizada pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro, está em sua reta final no CCBB carioca e recebe, nesta sexta-feira, uma visita da ninja do lirismo Laís Bodanzky, para falar do drama Como Nossos Pais. O longa-metragem passa às 18h, precedido pelo marvete Logan, de James Mangold, num inusitado duo sobre famílias terrivelmente felizes. Ela fala às 19h30. Sua primeira apresentação pública deste exercício autoral se deu na Berlinale 2017. Lançada em circuito brasileiro no dia 31 de agosto, a produção pilotada por Laís foi eleita melhor filme pelo júri popular do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, onde encantou a plateia com a potência de autorrenovação de sua protagonista, Maria Ribeiro. Venceu também o Kikito de melhor longa do Festival de Gramado. Aqui abaixo, você confere o artigo que o P de Pop gerou ao sair da sessão do longa-metragem na capital alemã, em fevereiro.

Maria Ribeiro: a atuação de uma vida

Viagem no tempo – destino: Festival de Gramado, 2002. Noite de uma sexta de mestres: primeiro veio Edifício Master, de Eduardo Coutinho; depois, La Perdición de Los Hombres, do mexicano Arturo Ripstein; e, por fim, chegou por lá a cereja do bolo gaúcho, a comédia Separações, de Domingos Oliveira. Construída na lógica de ménage à trois – entre vida real, teatro e cinema – típica do (hoje octogenário) realizador, a love story entre um diretor e uma atriz que se separavam trazia em seu elenco uma força da natureza, que punha cada cena sua no bolso com seu jeitão falastrão de pombajira. Essa atriz era Maria Ribeiro, que, ainda não tão conhecida, era chamada de “a morena do Domingos”, não de um modo pejorativo, de ranço machista, mas sim como um indicativo de suas raízes.


 

Nos anos que se seguiram a “Morena do Domingos” foi a mulher (e depois ex-mulher) do Capitão Nascimento na franquia Tropa de Elite (2007-2010); dirigiu curta; rodou dois documentários (Domingos, sobre seu mestre nos palcos, e Los Hermanos – Esse é Só o Começo do Fim da Nossa Vida, sobre a banda homônima); botou as entranhas existenciais pra fora no palco, na (senhora) peça Deus é um DJ (2011); apresentou programas de TV; e passou a escrever crônicas.

E o tempo passa…

De volta para o presente – destino: Festival de Berlim, seção Panorama, 2017, e, de novo, é sexta… só que de manhã, e manhã fria. Era tipo 10h na sala Cinemax da capital alemã quando começou a projeção de Como Nossos Pais, exercício de roteiro dos mais vigorosos em termos de diálogos sobre aquele objeto pontiagudo que causa tétano chamado “amor”. Quem sobe ao palco do Cinemax, convocada pela alemãzona gatinha de cabelo encaracolado que comanda a Panorama, é a diretora Laís Bodanzky, realizadora cria da Retomada, conhecida por Bicho de 7 Cabeças (2000), levando no colo, em gesto de acalanto, o mais maduro de seus longas. E Maria Ribeiro está nele. Ou melhor, Maria Ribeiro é ele. Mas até a sessão começar, sob os auspícios cartesianos da alemãzona, a “morena do Domingos” atacava de making of ambulante, filmando a movimentação, enquadrando o microcosmo germânico via frestas.

 

Mas aí a luz apagou, subiram os créditos iniciais, Jorge Mautner entrou em cena, de ator, dizendo “sou dodói, mas tenho bom coração” e aí… Aí, malandro… a “morena do Domingos” fez jus ao seu nome de Maria e deu pra gente uma atuação feita das raspas e restos do que sobrou de uma mulher tornada bagaço de si mesmo pela desatenção. Temos em cena uma cidade meio nublada, onde de vez em quando chove (e bem), diante de uma câmera que se deixa fisgar por discussões com a sede de um peixe. Muito se fala em Como Nossos Pais, numa incontinência onde a câmera de Pedro J. Márquez brinca de estátua ora em “sequência-plano” (imobilidade), ora em “plano-sequência” (movimento sem corte), para olhar uma mulher que busca uma zona de tolerância para si – no fundo, essa é a marca autoral de Laís. Nos filmes dela, tem sempre alguém querendo um alívio, seja num baseado (como fazia Rodrigo Santoro no sempre citável Bicho de 7 Cabeças), seja numa gafieira para corações carentes (terra do monumental Chega de Saudade), seja num científico com hordas de hormônios em fúria (As Melhores Coisas do Mundo). Como é filme de autor, não vai ser diferente aqui com Rosa, a personagem vivida por Maria, que talvez encontrasse um abrigo quente num abraço. Mas, em tempos de baixa estima, abraço é aquele guarda-chuva que não abre em hora de tempestade.

No roteiro mais tchekoviano no cinema brasileiro recente, com declives e falésias morais típicos de Luiz Bolognesi (o scriptman fiel de Laís), Mautner é o Tio Vânia que vai dar a medida do isolamento de Rosa em relação a um país chamado felicidade. É mais ou menos assim: Rosa é uma aspirante a dramaturga obrigada a fazer bicos numa empresa de cerâmica para banheiros. Seu casamento com um antropólogo indigenista (Paulo Vilhena) virou Aveia Quaker; sua filha mais velha está que é birra só; sua irmã a considera careta; e seu pai, um artista plástico zureta (Mautner, um sol a cada cena), está cada vez mais cheio de dívidas. Para piorar, sua mãe (Clarisse Abujamra) dá a ela duas notícias que vão virar sua rotina do avesso. Melhor manter as duas em sigilo por enquanto. O filme conta por nós. Já já ele estreia.

 

A questão é: expelida do mínimo de certeza que tinha sobre si, Rosa cai da inércia e implode. É na implosão, sem deixar um resquício de excesso (um vomitoriozinho que seja), que Maria Ribeiro renasce para os cinemas, não mais como a coadjuvante que brinca de Pac-Man com as cenas, mas como protagonista, como uma estrela de fina estampa e alto quilate dramático, capaz de se posicionar entre as grandes atrizes do nosso cinema, ali onde estão Karine Teles (Riscado), Leandra Leal (Nome Próprio), Alice Braga (Cidade Baixa), Maeve Jinkings (Amor, Plástico e Barulho) e outras. Ela cresce, em especial, quando na companhia de um diretor-ator dotado de ferramental truffautiano, Felipe Rocha. Este entra na pele de um pretendente que pode servir de bálsamo para Rosa. Um quê de sensualidade e molecagem se amalgamam na interação desses dois atores, fazendo algo próximo daquilo que, no lugar comum mais lugar comum do nosso audiovisual, chamam de “cinema argentino”, ou seja, retratos afetivos onde a palavra é ação e onde a fúria de nossa latinidade perde a saturação em nome da leveza, seja ela um sinal de carência ou sinal de enlevo.

 

Brincando de Tchekov, Maria trafega da perplexidade à acomodação das feridas, sem jamais perder inquietude em seu olhar. E, à espreita dela, a direção de Laís pesa e dosa humor e dor em doses exatas de ambos. Diretora e atriz chegam a um lugar de graça, onde a primeira lapida sua autoralidade e a segunda conjuga com suas próprias desinências verbos que aprendeu nos filmes de Domingos: perder, cair, levantar e saber sorrir. E a Berlinale sorriu com ela.

Agora é a vez de ela brilhar no CCBB.