‘Julieta’, o mais injustiçado ‘almodrama’, chega à TV

‘Julieta’, o mais injustiçado ‘almodrama’, chega à TV

Rodrigo Fonseca

20 Abril 2017 | 14h50

A beldade Adriana Ugarte é a jovem Julieta

A beldade Adriana Ugarte é a jovem Julieta

RODRIGO FONSECA

Caberá a Pedro Almodóvar a tarefa de decidir (ao lado de um time de artistas) que filme receberá a Palma de Ouro no 70º Festival de Cannes (17 a 28 de maio), após a sessão do longa-metragem de abertura, Les Fantômes D’Ismaël, do francês Arnaud Desplechin. Há um ano ele passou pela Croisette concorrendo, com seu filme mais injustiçado dos últimos dez anos: Julieta, um exemplar do que de melhor existe no chamado “almodrama”. Quem cunhou o termo foi o baiano Caetano Veloso, ao se referir à estética do cineasta espanhol, de volta na melhor das formas nesse filme, que estreia na TV neste feriadão, no sábado, 22h, no Telecine. E, de cara, a produção estabelece a madrilenha Adriana Ugarte como beldade (com talento) nível Penélope Cruz. Não se trata de “mais um Almodóvar” e sim de um grande filme sobre o viver, nas desinências mais cotidianas do verbo.

O cineasta e suas estrelas

O cineasta e suas estrelas

É um exemplar a mais do que se chama de metamelodrama. O verbete é parte das pesquisas de dramaturgia feita pelo professor José Carvalho (considerado o mais prestigiado teórico sobre roteiro no Brasil, que leciona como escrever para cinema e TV no Rio e em São Paulo na Oficina Roteiraria [http://www.roteiraria.com.br/]). Com base nas reflexões antropológicas do americano David Bordwell e nos ensaios geopolíticos do português João Maria Mendes, Carvalho consolidou essa expressão a partir da ideia de que o realizador de Má Educação (2004) cria seu universo com base no tecido visual “vivo” derivado do melodrama clássico e de suas releituras modernas, de Douglas Sirk a Rainer W. Fassbinder. De fato, o cálido Julieta tira sua percepção da condição feminina de “lições” que o cinema dos passados nos deu, potencializadas aqui por um diálogo com a literatura de Alice Munro.

Sem humor algum e sem bizarrices na linha do realismo fantástico ou do filão sci-fi vistas nos últimos trabalhos do diretor número 1 da Espanha, como Volver (2006) ou A Pele que Habito (2011), Julieta é apenas um painel dos acontecimentos da vida de uma professora universitária, ao longo de duas décadas e meia. Numa atuação esplendorosa, Adriana Ugarte interpreta a jovem Julieta e Emma Suárez (também brilhante) assume a protagonista em sua idade adulta. No início, temos um clima de suspense, que logo se converte em um registro melodramático sobre a relação caudalosa de Julieta com Xoan, pescador vivido por Daniel Grao, que mexe com a libido da jovem.

Almodrama Julieta Almodóvar
Uma crise se instaura na relação entre Julieta e sua filha após uma tragédia (ligada, como não poderia ser diferente, ao desejo). Mas nenhum dos contratempos ganha dimensão maior do que os dilemas internas de Julieta, expressando uma virada na obra do cineasta, agora menos interessados em viradas e mais preocupado com traumas psicológicos. Poucos roteiros vistos na Croisette em 2016 tiveram uma urdidura tão sólida, clara e comovente. Que Almodóvar tenha sorte agora como júri.

 

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