‘Joaquim’, a apoteose do heroísmo nacional na Berlinale

‘Joaquim’, a apoteose do heroísmo nacional na Berlinale

Rodrigo Fonseca

16 Fevereiro 2017 | 14h08

Julio Machado tem uma atuação magistral como Tiradentes em

Julio Machado tem uma atuação magistral como Tiradentes na aventura “Joaquim”, de Marcelo Gomes: liberdade como poesia

RODRIGO FONSECA
Pai da brasilidade em nosso audiovisual, o mineiro Humberto Mauro defendia que “o cinema não deveria dar aulas de História e sim converter História em prática”, tese que ganha corpo, aos olhos da Europa, com a projeção, em disputa pelo Urso de Ouro, do thriller político de época Joaquim, no 67º Festival de Berlim, abrindo uma veia latina americano onde o sangue ético é dos mais espessos: a corrupção. Com um domínio absoluto (e surpreendente) da cartilha da aventura, expressa em cenas de ação de tirar o fôlego, o diretor Marcelo Gomes construiu – com base nas memórias simbólicas sobre Tiradentes – um Game of Thrones com todos os ingredientes do seriado. Menos épico e mais subterrâneo, o arranjo narrativo criado pelo cineasta pernambucano é o de uma conspiração pelo Poder. Existem tratadores de joias incumbidos pela Corte lusa de fechar os olhos para deslizes pontuais do Brasil Colônia desde que embolsem uma pedra preciosa como um cala a boca. Tudo se compra: até negros compram escravos. Tudo é carnaval na Minas Gerais ali retratada, que serve como um berço de herói para o lado revolucionário de Joaquim José da Silva Xavier. Beira o sublime a forma como Julio Machado esculpe a crisálida na qual a centelha heróica encasulada pelos abusos da Coroa vai entrando em combustão. Nenhuma atuação masculina de toda a Berlinale deste ano tem o requinte paradoxal (de usar a delicadeza para expor brutalidade e fúria) da que Machado aqui apresentou, ombreado só pelo sueco Stellan Skarsgärd em Return to Montauk. A interpretação dele merece estar no mesmo panteão onde nossa cinematografia imortalizou Zé Pequeno, Capitão Nascimento e Antonio das Mortes. Existe, no longa, um visual de cores esmaecidas, quase enlameado, como os rios onde cascalhos são lavados em busca de tesouros naturais. Tudo é pardo, pois não se trata de um filme de explosões e sim de implosões, pois é no silêncio que as revoluções – as humanitárias, altruístas – nascem no Brasil. E a deste filme que se candidata à eternidade em nosso planisfério latino é uma revolução alimentada pelo desejo e pela paixão, expressos no querer de Joaquim pela escrava Preta (Isabel Zuaa, beldade lusa que atua de modo visceral para dar cor ao instinto libertário dos quilombolas). No fundo, liberdade é a palavra que o Brasil prostituiu em suas viradas de governo, indo para Império e República. Mas, ali, naquele contesto, “liberdade” ainda é algo imbuído de poesia. Na melhor sequência do filme, Joaquim arranca, com crueldade, um dente do homem que tem a posse de sua amada escrava. A dor daquela operação é a medida da insurgência de um vingador torto, mas necessário, como este trabalho impecável de direção de Gomes.